Azia e queimação persistentes podem indicar gastrite crônica e pedir avaliação médica
Estimativas da Federação Brasileira de Gastroenterologia apontam que cerca de 70% dos brasileiros têm algum tipo de gastrite. A maioria convive com os sintomas por anos sem saber que existe tratamento eficaz
Azia e queimação persistentes podem indicar gastrite crônica e pedir avaliação médica A queimação depois do café da manhã. O desconforto depois do almoço. A sensação de estômago cheio mesmo sem ter comido muito. Para boa parte das pessoas, esses sinais fazem parte da rotina há anos, tratados com antiácido comprado na farmácia, com chá de hortelã ou simplesmente ignorados até que piorem.
O problema é que a gastrite raramente avisa quando está evoluindo para algo mais grave. Ela começa com sintomas que parecem banais, se instala de forma crônica e, quando não é tratada adequadamente, pode progredir para úlceras, lesões na mucosa gástrica e, nos casos mais graves, aumentar o risco de câncer de estômago.
Segundo estimativas da Federação Brasileira de Gastroenterologia, cerca de 70% da população brasileira possui algum tipo de gastrite. A proporção é alta o suficiente para fazer da condição uma das mais comuns do aparelho digestivo no país e, ao mesmo tempo, uma das mais subestimadas.
O que é gastrite e por que ela se torna crônica
Gastrite é a inflamação da mucosa do estômago, que é a camada de revestimento interno que protege o órgão do próprio ácido que ele produz para fazer a digestão. Quando essa camada é agredida de forma repetida ou contínua, a inflamação se instala e pode persistir por meses ou anos sem que o paciente perceba a gravidade da situação.
As causas mais comuns são o uso prolongado de anti-inflamatórios não esteroides, o consumo de álcool, o tabagismo, o estresse crônico e, principalmente, a infecção pela bactéria Helicobacter pylori.
Essa última é responsável por uma parcela expressiva dos casos de gastrite crônica no Brasil e no mundo, e tem uma característica que complica o diagnóstico: a maioria das pessoas infectadas não apresenta sintomas significativos por anos.
A gastrite pode ser aguda, com início súbito, dor intensa, náusea e vômito, ou crônica, quando a inflamação persiste de forma silenciosa. Na experiência de Dr. Thiago Tredicci, médico especialista em aparelho digestivo em Goiânia, a versão crônica é a mais comum e a mais traiçoeira, porque o paciente se adapta aos sintomas leves e adia a consulta médica indefinidamente.
A bactéria que vive no estômago e que a maioria não sabe que tem
Descoberta em 1982 pelos pesquisadores australianos Barry Marshall e Robin Warren, que receberam o Nobel de Medicina por isso em 2005, a Helicobacter pylori é hoje reconhecida pela Organização Mundial da Saúde como um carcinógeno tipo I, ou seja, um fator de risco direto para o desenvolvimento de câncer gástrico.
A bactéria se instala na mucosa do estômago e produz substâncias que enfraquecem a proteção natural do órgão, permitindo que o ácido gástrico cause lesões progressivas. Com o tempo, a inflamação crônica que ela gera pode evoluir para atrofia da mucosa, metaplasia intestinal e displasia, que são alterações celulares classificadas como etapas pré-cancerígenas.
Estudos brasileiros estimam que cerca de 50% da população seja infectada pela H. pylori, com taxas mais elevadas em regiões de maior vulnerabilidade socioeconômica, onde as condições de saneamento e habitação favorecem a transmissão.
A infecção, em geral, ocorre na infância e permanece por décadas sem ser identificada. Aproximadamente 17% das pessoas infectadas desenvolvem úlcera péptica, e uma fração menor ainda evolui para complicações mais graves.
A boa notícia é que a H. pylori tem tratamento. Quando identificada, a erradicação da bactéria é feita com uma combinação de antibióticos e medicamentos que reduzem a acidez gástrica, geralmente por 14 dias. O tratamento bem-sucedido interrompe o processo inflamatório e reduz significativamente o risco de progressão para lesões mais graves.
O que os dados mostram sobre gastrite no Brasil
Entre 2019 e 2023, o Brasil registrou mais de 63 mil internações hospitalares por gastrite e duodenite em adultos e idosos, com 1.108 óbitos no mesmo período, segundo análise publicada com base nos dados do Sistema de Informações Hospitalares do SUS. O número pode parecer baixo diante da prevalência da doença, mas reflete apenas os casos que chegaram à internação, a ponta de um problema muito mais amplo.
Os dados do DATASUS mostram que as regiões Sul e Sudeste concentram as maiores taxas de letalidade hospitalar por gastrite, com o Sudeste registrando o índice mais alto entre 2019 e 2022. Parte dessa concentração reflete diferenças no acesso ao diagnóstico e no perfil dos pacientes que chegam ao sistema hospitalar em estágios mais avançados.
A faixa etária de maior concentração de casos graves é a de meia-idade, entre 40 e 59 anos, justamente o grupo que com maior frequência convive com sintomas digestivos sem procurar especialista, atribuindo o desconforto ao estresse ou a hábitos alimentares e adiando a investigação por anos.
Quando a gastrite precisa de avaliação especializada
Nem toda gastrite exige avaliação por especialista em aparelho digestivo. Casos leves, sem fatores de risco, respondem bem ao tratamento clínico com orientação do médico de família. O problema está em identificar quando o quadro saiu dessa categoria.
Há sinais que indicam necessidade de investigação mais aprofundada: dor epigástrica persistente que não melhora com antiácidos comuns; perda de peso sem causa aparente; dificuldade para engolir; vômitos frequentes; presença de sangue nas fezes ou fezes escurecidas; e histórico familiar de câncer gástrico. Em pacientes acima de 50 anos com sintomas digestivos novos, a endoscopia é particularmente indicada para afastar lesões mais sérias.
Nesses casos, a avaliação com um cirurgião do aparelho digestivo e gastroenterologista permite tanto o diagnóstico preciso da causa da gastrite quanto a definição do tratamento mais adequado, seja clínico, com erradicação bacteriana e controle da acidez, seja com acompanhamento endoscópico para monitorar lesões da mucosa que precisam de vigilância.
A endoscopia digestiva alta com biópsia é o exame que permite não apenas visualizar o estado da mucosa gástrica, mas também coletar material para identificar a presença de H. pylori e verificar se há alterações celulares que justifiquem monitoramento mais frequente.
Em pacientes com gastrite crônica confirmada, a periodicidade do acompanhamento endoscópico é definida conforme o grau da inflamação e a presença de lesões associadas.
O problema da automedicação no tratamento da gastrite
O antiácido é um dos medicamentos mais vendidos em farmácias brasileiras. Isso reflete, em parte, a prevalência real da gastrite, mas também um hábito cultural de tratar sintomas digestivos sem diagnóstico preciso.
O problema não está no uso eventual de antiácidos para alívio de sintomas agudos. Está no uso crônico, sem investigação da causa, que mascara a evolução da doença.
Um paciente com gastrite por H. pylori que toma antiácido regularmente tem redução dos sintomas, mas a bactéria continua presente, a inflamação continua ativa e as lesões progressivas continuam se desenvolvendo em silêncio.
O mesmo ocorre com o uso prolongado de anti-inflamatórios sem proteção gástrica. Medicamentos como ibuprofeno, diclofenaco e outros AINEs são causas reconhecidas de gastrite e úlcera gástrica.
Quando o paciente usa esses medicamentos de forma crônica para tratar dores articulares ou outros problemas sem associar um protetor gástrico, o risco de lesão na mucosa aumenta de forma substancial.
O papel do especialista no diagnóstico correto
Na visão de um dos gastroenterologistas mais recomendados em Goiânia, a gastrite é uma condição com múltiplas causas possíveis: infecciosa, medicamentosa, autoimune, associada ao estresse ou combinada. Identificar qual ou quais fatores estão por trás do quadro de cada paciente é o que define o tratamento mais eficaz.
Um paciente tratado para gastrite por H. pylori com antibióticos errados, ou por tempo insuficiente, pode desenvolver resistência bacteriana, tornando o tratamento subsequente mais difícil. Da mesma forma, um paciente com gastrite autoimune precisa de acompanhamento diferente, com monitoramento da vitamina B12 e rastreamento de outras condições associadas.
O que fazer diante de sintomas gástricos persistentes
A gastrite que dura mais de duas semanas, que não responde ao tratamento inicial ou que se associa a qualquer um dos sinais de alerta descritos acima merece avaliação médica. O diagnóstico correto é o ponto de partida para um tratamento que, na maioria dos casos, resolve o problema de forma definitiva.
Quando a causa é a H. pylori, a erradicação da bactéria é um dos exemplos mais claros de prevenção eficaz na gastroenterologia: tratar a infecção reduz o risco de úlcera, interrompe a cascata inflamatória que pode levar a alterações pré-cancerígenas e melhora a qualidade de vida do paciente de forma duradoura.
A queimação que volta todo dia não é normal. Tampouco é inevitável. Com o diagnóstico certo e o tratamento adequado, a gastrite crônica é uma condição controlável e, dependendo da causa, completamente reversível.






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