João Adolfo Guerreiro
JOÃO GUERREIRO | Briga de cachorros: quem os atiça?
Durkheim explica!
Pra mim aquilo foi como uma briga de um bando de cachorros João Adolfo Guerreiro
Quem pode assistir de alguma forma o vídeo da briga generalizada entre os jogadores do Atlético e do Cruzeiro no último minuto da decisão do Campeonato Mineiro, domigo passado, que o faça agora, antes de ler este texto. Se já viu, ok, sigamos.
Pra mim aquilo foi como uma briga de um bando de cachorros. Foi do que me lembrou ao vê-la. Um caia no chão e os outros vinham sobre, em grupo, bem como observa-se nos entreveros caninos. Homens endinheirados reduzidos a animais.
Obviamente os ferozes atletas não servem como gladiadores ou lutadores, eis que nesse quesito a arruaça foi amadora, coisa de guris de apartamento cheios da grana. Soubessem brigar de verdade, muitos deles teriam desmaiado sobre a grama, visto que os golpes que desferiam uns sobre os outros, se dados por lutadores ou por pessoas acostumadas com briga de rua, teriam gerando nocautes em série. Quem já presenciou algo assim sabe que, quando se acerta um golpe bem dado num adversário, não se acha o cara em pé pra dar o segundo.
Mas os jogares brigões se enfrentaram como se fossem cachorros, sem técnica, nobre arte ou mestria. Ainda bem que, pelo menos, não se morderam. Entretanto, sabemos, esse não foi um fato isolado ocorrido apenas no Mineirão. No BaVi e aqui no GreNal quase aconteceu o mesmo, foi por muito pouco. Logo, essa violência é um fato social, como o precursor sociólogo francês Émile Durkheim o definiu já no início do século passado. O que o causa no futebol?
Em primeiro lugar, o futebol está inserido na sociedade e esta está politicamente conflagrada, sendo que tal lógica binária permeia todo o tecido social, tornando-se sistêmica. Em segundo, o mundo do futebol apresenta características próprias. As rivalidades e as parcialidades clubisticas são parte do problema. O futebol é corrompido, começando pelos atletas, passando por dirigentes e empresários e chegando aos torcedores, torcidas e jornalistas identificados. Um enorme saco de gatos, falsos e hipócritas. Só que os torcedores são os tolos e trouxas da história, os únicos que não levam $ no lance, são manipulados em sua paixão e só gastam.
No caso dos jogadores, fingem e simulam o tempo inteiro em campo, buscando a vantagem pelo engodo. Não há ética sobre a grama. Nem falemos dos que se corrompem através de falcatruas para beneficiar apostas em sites. Os árbitros tentam obserVAR as regras ante esse quadro generalizado de fingimento - os atletas são poetas da bola, no sentido em que os poetas foram concebidos por Fernando Pessoa no famoso poema...
E aí temos o entorno, os jornalistas, escritores e youtubers "identificados", tacando fogo na situação por meio de sua paixão clubística, cuja parcialidade analítica de seus textos e comentários caem bem ao gosto da torcida fanática, vitimizando seu time, demonizando adversários e concebendo teorias da conspiração em relação à arbitragem e imprensa especializada, que sempre erra ou opina em conluio contra sua amada agremiação. Essa junção é a legítima fome com a vontade de comer, não se sabendo bem onde começa a cara de pau de uns e a cegueira de outros, que, no caso de uns, gera engajamento, visualizações, likes e, assim, $. Completam-se e sabem que estão exercendo uma parcialidade que corrompe os fatos e a realidade, na maioria das vezes. Reproduzem fora de campo a mesma antiética que há entre as quatro linhas, uma geleia geral de bosta que aduba o terreno para a agressividade, recheada com lágrimas de crocodilo e sorrisos de hiena. E assim temos os acontecimentos como o do Mineirão, do BaVi e do GreNal. Tudo cocô da mesma privada.
Vivemos a sociedade da polarização, do caos cognitivo, das fake news, da parcialidade, da falta de isenção e da violência, sendo o futebol uma seara desta onde isso se reproduz e se concretiza, pelos meios específicos desta modalidade esportiva.
Fede, mas milhões de moscas não podem estar erradas: cocô é bom e dá grana. Detalhe: o vídeo dos melhores lances de Atlético 0x1 Cruzeiro rendeu 300 mil visualizações, enquanto a briga alcançou dois milhões. Eis a medida de tal anomia social, pra citar Durkheim mais uma vez. Durkheim explica!





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