João Adolfo Guerreiro
JOÃO ADOLFO GUERREIRO | ‘Ser ou não ser, eis a questão’
O escritor deve se permitir certas liberdades
João Adolfo Guerreiro
Escreveu Shakespeare em Hamlet: "Ser ou não ser, eis a questão". Penso que cada literato deve saber o que ele é e o que deseja ser enquanto escritor, não importando sua representatividade: importa, sim, seu ponto de vista, estilo, os conteúdos que aborda.
Abordo isso hoje por pensar importante fazer tal reflexão junto aos leitores que generosamente passam os olhos pelos meus textos. Inicialmente colocarei o que me estimulou a voltar para o assunto. Recebi como contribuição o comentário abaixo de um escritor do Recanto das Letras, sobre meu texto de ontem, Os Cem Anos de Harper Lee:
"Prezado João, já tinha ouvido falar nesse título mas não o li nem conhecia a escritora. Repete-se então o caso de Margareth Mitchell! Uma sugestão: para que tantas iniciais maiúsculas, até de verbos? E obras literárias ou cinematográficas devem ter seus títulos grafados entre aspas. Assim: "O Sol é para todos". E o outro título: "Vá, coloque um vigia". Esteticamente fica muito melhor. Abraços."
Respondi, aproveitando a oportunidade para explicar um pouco ao colega de letras minhas concepções referentes à escrita literária:
"MC, obrigado pela dica, não ignoro isso tudo, apenas acho pobre e limitante essa padronização em literatura, que não é texto acadêmico ou jornalístico sujeito às normas de ABNT, à norma culta ou coisa que o valha. Faz parte da minha estética escrever ora de um jeito e ora de outro - como fiz nesta crônica - até mesmo subvertendo propositalmente a gramática, as vezes, como faziam Millor Fernandes e Saramago, por exemplo. A observância rigorosa da gramática e das normas limitam e empobrecem nossa escrita literária, logo, o que tu acha esteticamente mais belo, eu particularmente vejo como jeca e sem criatividade gráfica, que vem justo da variação, no meu entender. É uma preocupação, pra mim, boba. Em literatura as letras, palavras e frases estão a serviço da criação, submetidas esteticamente a ela segundo critérios subjetivos do autor, que podem inclusive o distinguir (leu Bukowski?), mais próximos da língua falada nas ruas, mutante e desregrada. Principalmente no gênero crônica. Abraço."
Poderia citar ainda, a propósito, Guimarães Rosa, Mia Couto e Anthony Burgess, subvertores e, até mesmo, corruptores da língua e da sua gramática em prol do fazer literário. Já experimentei de tudo em minhas crônicas, especificamente escrevendo de tudo quanto é jeito e forma. Fiquei neste estilo que vocês veem, híbrido entre a norma culta e algumas invenções e licenciosidades em grafia, acentuação e pontuação, sempre em função do que julgo apropriado, claro e bonito para meus textos, estritamente literários e conotativos e, como sobretudo crônicas, intimamente associados e submissos ao português brasileiro falado nas ruas, conforme as teses do sociolinguista Marcos Bagno. Gosto desta liberdade ao escrever, sem limites ou redomas quanto a grafia.
Claro, existem erros em meus textos que são gafes e barbeiragens mesmo, "erros do meu português ruim" (Roberto Carlos), coisas que passaram batidas, até porque meus textos não são revisados por outra pessoa antes de publicados. Se os vejo depois, corrijo. Agora, liberdades como as que corretamente MC apontou fazem parte do meu jeito de fazer as coisas, de como gosto de escrever, ou, aproveitando letras de Carlos Patrício, verter, subverter e reverter as palavras. Um exemplo, ao acaso: sei que a vírgula não é um marcador de respiração da fala, mas frequentemente aprecio usá-la assim para dar um determinado ritmo às minhas crônicas.
Não esqueço de Millôr afirmando que colocava propositalmente às crases de forma errada em seus textos só para provocar puristas e gramáticos e de Bagno escrevendo que à crase é o acento mais inútil do português brasileiro. Claro, devemos observar a norma culta em textos acadêmicos, jornalísticos e oficiais, mas sem sermos minimamente iconoclastas e transgressores em literatura, estaríamos ainda no tempo da poesia atrelada à regras de métrica e rima. Imaginem?
É um gosto e eu risco ser assim, livre e desregrado, há quem goste e quem estranhe, mas o escritor tem de saber quem é e o que deseja ser.




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