O difícil caminho do sucesso

Clássica empresa familiar que nasceu na região Carbonífera, Lojas Lebes conta hoje com três gerações trabalhando lado a lado

Por Portal de Notícias 27/12/2018 - 14:59 hs
Foto: Reprodução / Zero Hora
O difícil caminho do sucesso
Otelmo Drebes Jr, Otelio Drebes e Otelmo Drebes

Carla Miller Trainini

A empresa familiar, como toda e qualquer empresa, é uma criação humana que tem por finalidade a atuação econômica por meio de organização de iniciativas, procedimentos e fórmulas que visam empreender uma atividade com sucesso.
No entanto, existem alguns pontos primordiais que as distinguem. Elas devem, por exemplo, estar ligada a uma família durante pelo menos duas gerações.
A partir de um sonho, de um ideal ou da necessidade de sobrevivência, o empreendedor torna-se a pessoa que gera, acumula ou distribui riqueza. Ele divide inicialmente as tarefas com o seu cônjuge e posteriormente, envolve os filhos nas atividades e operações, muitas vezes de forma precoce, visando melhorar a situação e a condição social de sua família.
Cria-se, desta forma, uma sociedade familiar, que tem como característica básica a sucessão do poder decisório de maneira hereditária a partir de uma ou mais famílias. É o caso da empresa Drebes e Cia Ltda, ou Lojas Lebes, como é conhecida.
Fundada em 1956, em São Jerônimo, hoje está presente em cerca de 80 municípios gaúchos e também em Criciúma, Santa Catarina.
Clássica empresa familiar que nasceu na região Carbonífera, hoje conta com três gerações trabalhando lado a lado. Este é o caso de Otelmo Drebes Júnior, neto do fundador da empresa e filho do atual presidente, Otelmo Drebes, que recebeu a sucessão da presidência de seu pai, Otelio Drebes, em 2015.
- Em junho de 2017, dividi o palco pela primeira vez com meu pai e meu avô, em Porto Alegre, no Palácio do Comércio. Na oportunidade, palestramos juntos sobre a empresa em um evento promovido pela Associação Comercial de Porto Alegre (ACPA). Foi muito marcante na minha vida poder estar ao lado dos dois naquele momento - relembra Drebes Júnior.


INÍCIO DA CARREIRA

Embora sendo neto do dono da empresa, Drebes Júnior não iniciou sua carreira no grupo. Ele conta que antes estudou, morou no exterior, trabalhou em outras empresas e somente depois é que passou a fazer parte da família Lebes.
- Na realidade, comecei minha carreira no mundo empresarial “ao contrário”, porque escolhi primeiro empreender. Abri uma empresa de ônibus, a Boomerang, em São Jerônimo, uma sociedade com meu cunhado, Saudir Filimberti. Depois eu decidi vender e fui morar no exterior.

ESTUDOS E PROFISSIONALIZAÇÕES
Depois de uma temporada morando na Inglaterra, onde fez sua especialidade em Inglês, Drebes Júnior se mudou para São Paulo para estudar. Concluiu uma pós-graduação em Administração Estratégica, pela Fundação Instituto de Administração da Universidade de São Paulo (FIA USP) e um MBA em Gestão do Varejo, pela mesma Instituição. Na oportunidade, trabalhou em duas empresas diferentes como funcionário para entender a dinâmica do mercado de trabalho.
- Sempre tive esse desejo de trabalhar na Lebes. Quando eu tinha 17 anos, na verdade até um pouco antes de abrir a Boomerang, acabei montando um plano de carreira com o intuito de entrar na empresa. Eu sabia que precisava ter uma experiência de empreendedor, trabalhar fora, fazer especializações, até para me sentir preparado se tivesse que entrar na empresa, não porque sou filho do dono, mas sim por competência - explica.
Somente depois dos cursos concluídos é que retornou a
Porto Alegre para iniciar sua carreira na Lebes, aos 25 anos.
- Na realidade, eu vivo a empresa minha vida inteira, desde guri. Escutava histórias em casa, trabalhava na empresa quando era criança, nas férias. E este plano de carreira que eu fiz acabará servindo de base para os meus primos, que se um dia vierem a trabalhar na Lebes, precisam cumpri-lo também. Isto tudo está no nosso plano, no que chamamos de “acordo familiar societário empresarial”, comum nas famílias empresárias - conta.


CHEGADA À REDE LEBES
Quando iniciou sua carreira na Lebes, não assumiu nenhuma área específica na empresa. Passou quase dois anos fazendo job rotation (rotação de emprego, técnica usada por diversos empregadores para rotacionar os empregos atribuídos aos seus funcionários durante todo o seu trabalho).
Neste período, trabalhou no centro logístico carregando paletes, no centro administrativo, no departamento de contabilidade, financeiro, marketing, compras, entre outros, para conhecer como funcionava o sistema de cada setor da empresa e poder identificar em qual área se adaptaria melhor.
Depois de entender todo o funcionamento do grupo, assumiu a Diretoria de Compras, Móveis e Eletro, momento em que trabalhou diretamente com o avô.
- Há três anos meu avô entregou a presidência da empresa, passando a sucessão para meu pai. Neste momento houve a necessidade de fazer uma remodelação de toda diretoria, onde aconteceu, também, a promoção de dois profissionais de dentro da empresa, porém, de fora da família, que passaram a assumir cargos de diretoria. Foi quando eu tive uma mudança drástica de função, saindo do departamento de compras para assumir a área de Marketing e Vendas, cargo que exerço até hoje, com muito orgulho da minha equipe de trabalho - finaliza o jovem diretor, que integra a família Lebes há seis anos.

A CARA DA FAMÍLIA
O envolvimento da família com a empresa sempre foi muito grande desde o início. Drebes Júnior explica que existe participação em tudo que é feito para se ter o negócio na mão e conseguir gerar resultados.
- Não temos hora pra trabalhar, é uma “cachaça”. Muito gostoso de ver a equipe engajada com o objetivo e atingir a meta no final, poder fazer a diferença na vida das pessoas e ver o crescimento profissional. Tudo isso é muito gratificante, o que me move para acordar todos os dias - revela.

O QUE ELE DISSE
“É muita responsabilidade. Confesso que no início dá um friozinho na barriga, mas depois a gente se acostuma com os números grandes. Mas para eu liderar e conseguir dar conta de tudo, tem que ter confiança. Confiar nas pessoas é a base de tudo. É preciso alinhar as estratégias com a equipe e dar liberdade para trabalhar. Minha equipe pode executar tudo que está dentro do escopo de trabalho e dentro do orçamento. Temos que ter sempre isso em nossa mente pra não perder o foco. Tudo que fazemos é pensando no nosso cliente. A empresa é a cara dos donos. Estamos sempre transmitindo a nossa cultura. Pontualidade, respeito, transparência e seriedade são valores que permeiam em todas nossas ações.”
Otelmo Drebes Júnior, diretor de Marketing e Compras das Lojas Lebes

POR DENTRO

DREBES E CIA LTDA – LOJAS LEBES
- A empresa foi fundada por Otélio Drebes, em 1956, na cidade de São Jerônimo
- Iniciou como uma pequena empresa familiar com poucos funcionários e que comercializava gêneros alimentícios.
- Com 62 anos de história, a rede de varejo Lojas Lebes alcançou o patamar de ser considerada uma das maiores redes varejistas do Rio Grande do Sul, estando presente em cerca de 80 municípios gaúchos, além de uma loja no município de Criciúma, em Santa Catarina.
-São cerca de 140 lojas e um plano de expansão que prevê a abertura de novas unidades a cada ano.
- Ultrapassa a marca de 3 mil funcionários e mais de 1 milhão de clientes ativos.
- A empresa atua também no ramo de indústria de confecção, produzindo mais de 1 milhão de peças por ano, vendidas exclusivamente nas lojas Lebes.
- Seu Centro Administrativo está localizado em Eldorado do Sul e ocupa uma área de 2 mil metros quadrados. Até 2015, a estrutura da empresa contava também com quatro centros de distribuição que gerenciavam o abastecimento de mercadorias à rede de lojas.
- Em determinado momento, toda atividade logística da empresa foi unificada e centralizada em um novo e moderno Centro Logístico, um pavilhão de 19 mil metros quadrados situado no Parque Logístico da GLP, em Gravataí.
- Além da estrutura física, também possui uma loja virtual, online desde 2011.
- Com gestão familiar profissionalizada e práticas de governança corporativa, a empresa evoluiu durante toda sua trajetória mantendo seu foco na satisfação dos clientes e no compromisso de garantir qualidade do atendimento e dos produtos que comercializa.
- Em 2015, ocorreu a troca de comando da empresa, momento em que Otelio Drebes passou a a Presidência para Otelmo Drebes, seu primogênito.

PERFIL


OTELMO DREBES JÚNIOR

- Natural de São Jerônimo, tem 31 anos e mora em Porto Alegre atualmente
- Formado em Empreendedorismo e Sucessão Familiar pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS)
- Pós-graduado em Administração Estratégica pela Fundação Instituto de Administração da Universidade de São Paulo (FIA USP) e MBA em Gestão do Varejo pela mesma Universidade
- Aos 21 anos morou na Inglaterra, onde fez uma especialização em Inglês.
- De volta ao Brasil, foi morar em São Paulo, onde cursou a pós-graduação e o MBA.
- De São Paulo voltou para Porto Alegre, momento em iniciou suas atividades no grupo Lebes, aos 25 anos.
- Circulou por todos os setores e departamentos da empresa para conhecer e entender seu funcionamento, até que assumiu, em 2015, após a troca de presidência do grupo, a diretoria de Marketing e Compras, função que exerce até o momento.
- Cabe a ele comandar todo tipo de comunicação da empresa, ou seja, ponto de vendas, redes sociais, e-commerce, outdoors, envios de SMS para clientes e blogs. Já na parte de vendas nas lojas, coordena gerentes locais e regionais, vendedores, atendimento, entre outros, através de um trabalho sistemático para poder dar conta de tudo.

PROFESSOR DÁ O CAMINHO
Graduado em Administração e pós-graduado em Gestão Empresarial, Planejamento e Gestão, Gestão Estratégica, Finanças e Empresas Inovadoras, além de Filosofia e Fundamentação Maçônica, Marco Miller Trainini é professor universitário na Ulbra São Jerônimo e explica fatores relevantes sobre as empresas familiares. Ele destaca alguns motivos que as levam a encerrar atividades e também os que fazem com que perpetuem no mercado, como é o caso das Lojas Lebes.

ENTREVISTA
MARCO MILLER TRAININI
Qual a importância da empresa familiar na economia?
As empresas familiares, talvez pela desinformação do grande público, são discriminadas e vistas como empresas desorganizadas por serem administradas pela família, o que é um verdadeiro equívoco, pois as impressionantes cifras que alcançam em nosso país evidenciam sua importância para o fortalecimento de nossa economia e prosperidade da nação. No Brasil, chegam ao imponente número de 90% do total das empresas, gerando, segundo SEBRAE e IBGE, 65% do Produto Interno Bruto (PIB), que representa a soma de todos os bens e serviços finais, em valores monetários, produzidos no país durante um determinado período. Sua importância também é evidenciada no tocante à geração de emprego e renda onde estão inseridas, pois atualmente, empregam 75% da força de trabalho no país.

Quais são as dificuldades que este tipo de empreendimento enfrenta no mercado?
A grande fragilidade destas organizações se dá justamente por ser familiar. O problema muitas vezes acontece no momento da troca de comando, ou seja, na sucessão, que pode ocorrer por falecimento do fundador, somado à falta de um planejamento para o processo sucessório efetivo. Segundo dados do SEBRAE e IBGE, no Brasil, 70% destas empresas encerram suas atividades pela morte do fundador.

Cite mais algum problema que afete o sucesso de uma organização familiar
Outro agravante no tocante à perpetuidade das empresas familiares está no momento da troca de comando da segunda para a terceira geração, onde apenas 5% das empresas sobrevivem a este momento de transição. Quando a transição foi realizada da primeira para a segunda geração, na maioria das vezes o sucedido está presente e continua auxiliando o sucessor (segunda geração) na gestão e na condução dos negócios da empresa. Já na troca de comando da segunda para a terceira geração, muitas vezes o fundador não está mais presente e a empresa, pelo fato do segundo sucessor não ter convivido no âmbito da gestão com o fundador da organização, não tem muito claros os valores e filosofias de gestão que este tinha. Ocorre,assim, na maioria das vezes, uma perda de identidade da empresa e consecutivamente, o encerramento das atividades, o que é uma lástima.

Temos diversos exemplos de empresas familiares que deram certo e estão há décadas no mercado. Quais os fatores que devem ser levados em consideração neste tipo de organização?
Toda organização familiar nasce com a intenção de perpassar as gerações familiares e para que se consiga a perpetuação deste empreendimento, uma série de fatores deve ser levada em consideração. Inicialmente, a organização deve ter consolidado seu Planejamento Estratégico onde estão norteados os caminhos que a empresa deve trilhar ao longo dos anos. Atrelado a este, o Planejamento do Processo Sucessório também deve estar alinhado e amplamente divulgado entre os prováveis sucessores. É muito comum que a empresa “banque” todos os custos, não somente de seus sócios, mas também de toda a família. Contratar parentes também é muito comum neste tipo de organização, o que pode ser um erro, pois é necessário atentar que nem todos os filhos, irmãos ou sobrinhos têm tino para o negócio.

Mas, afinal, o que perpetua uma empresa familiar no mercado?
Para alcançar a perpetuidade do empreendimento é necessário que as regras do jogo estejam muito claras. Instrumentos jurídicos societários devem ser estabelecidos, acordos entre os sócios estabelecendo pontos importantes devem ser formalizados e claros, principalmente no tocante a conflitos, destinação de lucros, remunerações dos gestores, etc. A Governança Corporativa, sempre que possível, deve ser criada, através da constituição do Conselho de Administração e do Conselho de Família. Uma vez estabelecidas as regras, o processo sucessório deve ser colocado em prática e acompanhado a cada instante para a correção dos possíveis desvios de rota. Se o fundador me perguntar: “Professor, na sua opinião, em que momento devo começar o processo sucessório na minha empresa?”, a minha resposta, sem sombra de dúvida será: ONTEM!