MARCELO NORONHA | Egghead: quando o passado americano ajuda a explicar o Brasil de hoje
Uma das coisas que mais me impressionou no trabalho foi justamente a capacidade dos estudantes de estabelecer conexões históricas
Marcelo Noronha*
Há alguns anos tomei como prática acompanhar a MOCITEC do IFSul Campus Charqueadas. Gosto de andar pelos corredores, parar diante dos banners, ouvir os estudantes explicando suas pesquisas e, entre tantos trabalhos, escolher aqueles que de alguma maneira continuam conversando comigo depois que a feira termina. Na XIX MOCITEC, encontrei um desses trabalhos.
Refiro-me ao projeto “EGGHEAD: MACARTHISMO E O ANTI-INTELECTUALISMO NA POLÍTICA BRASILEIRA: Como o anti-intelectualismo macarthista se manifesta em discursos políticos brasileiros atuais?”, apresentado pelos estudantes Caio Pelegrino de Abreu e Manuela Gonçalves Cairuga, sob orientação do professor Rafael Alves Padilha. Confesso que o título já me chamou a atenção. Mas foi a pesquisa que me conquistou.
Os estudantes foram buscar em Richard Hofstadter, especialmente em The Paranoid Style in American Politics e Anti-Intellectualism in American Life, ferramentas para compreender fenômenos políticos contemporâneos. E aqui está uma das grandes virtudes do trabalho: eles não ficaram presos ao passado. Usaram o passado para tentar compreender o presente.

Hofstadter escreveu sobre a política norte-americana dos anos 1950 e 1960, identificando aquilo que chamou de “estilo paranoico” da política. Uma lógica em que o adversário deixa de ser simplesmente um adversário. Ele passa a ser apresentado como parte de uma grande conspiração, alguém que estaria trabalhando secretamente para destruir valores, instituições e até a própria nação.
Ao lado disso, aparece o anti-intelectualismo. O intelectual passa a ser tratado como o famoso “egghead”, o cabeça-de-ovo. Aquele sujeito supostamente arrogante, distante da realidade, cheio de teorias e, principalmente, perigoso porque insiste em fazer perguntas, apresentar evidências e exigir argumentos.
Parece familiar? É justamente aí que o trabalho de Caio e Manuela ganha força.
A pesquisa procura observar como determinadas características associadas ao macarthismo e ao anti-intelectualismo podem aparecer em discursos políticos brasileiros contemporâneos. Para isso, os estudantes analisam dois objetos particularmente relevantes: a desinformação relacionada às vacinas durante a pandemia de covid-19, entre 2020 e 2022, e o movimento Escola sem Partido. O que me parece mais interessante é perceber que, nos dois casos, o conflito não se limita a uma discordância sobre determinado assunto.
Em determinados discursos, o professor deixa de ser alguém que ensina e passa a ser apresentado como alguém que “doutrina”. O cientista deixa de ser uma autoridade construída pelo conhecimento e passa a ser tratado como alguém que estaria escondendo alguma coisa. A universidade passa a ser vista como território de ameaça. A pesquisa científica vira suspeita. E a informação, quando contraria aquilo em que alguém acredita, passa a ser convenientemente chamada de manipulação. É aí que o “egghead” deixa de ser apenas uma expressão histórica e passa a ganhar uma assustadora atualidade. Porque quando uma sociedade começa a tratar conhecimento como inimigo, o problema já não é apenas político. É civilizatório.
Uma das coisas que mais me impressionou no trabalho foi justamente a capacidade dos estudantes de estabelecer conexões históricas. Relacionar um texto publicado em 1855 por um jornal do Texas, que alimentava uma narrativa conspiratória envolvendo o papa e os Estados Unidos, com manifestações contemporâneas de desinformação sobre vacinas pode parecer, à primeira vista, uma viagem longa demais. Não é.
É justamente esse o papel da pesquisa: procurar padrões onde o olhar apressado enxerga apenas acontecimentos isolados. E talvez essa seja uma das maiores lições da MOCITEC.
Ciência não é apenas tubo de ensaio, fórmula, robótica, programação ou experimento. Ciência também é aprender a desconfiar das respostas fáceis. É
procurar fontes. É confrontar versões. É perceber que uma ideia não se torna verdadeira apenas porque foi repetida milhares de vezes nas redes sociais.
Por isso, quando vejo dois estudantes do Ensino Médio discutindo Hofstadter, macarthismo, anti-intelectualismo, desinformação, vacinas e política brasileira, eu penso que a escola está fazendo exatamente aquilo que deveria fazer. Está formando gente capaz de pensar. talvez seja justamente por isso que projetos como esse sejam tão importantes.
Em tempos de certezas instantâneas, respostas prontas e especialistas de ocasião, pensar virou quase um ato de resistência. Caio e Manuela nos lembram disso.
E o IFSul Charqueadas, mais uma vez, mostra que uma feira de ciências pode ser muito mais do que uma exposição de trabalhos. Pode ser um espaço de formação cidadã, de inquietação intelectual e de diálogo com o mundo.
Eu saio da XIX MOCITEC com uma certeza: ainda bem que existem jovens interessados em entender o que está acontecendo. Porque, no fim das contas, o verdadeiro perigo nunca foi o “egghead”. O verdadeiro perigo é quando uma sociedade decide parar de pensar.

(*) Marcelo Noronha, jornalista






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