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São Jerônimo, RS,16/09/2026

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MARCELO NORONHA | Um banco para sentar, pensar e não se calar

Eu acredito que algumas mensagens precisam estar diante dos nossos olhos para que não desapareçam da nossa consciência.

Arquivo Pessoal
MARCELO NORONHA | Um banco para sentar, pensar e não se calar Um banco para sentar, pensar e não se calar
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Marcelo Noronha*

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No dia 12 de setembro de 2026, durante a realização da XIX MOCITEC, no IFSUL Charqueadas, um banco vermelho passou a ocupar um espaço que vai muito além de uma sala, de um corredor ou de uma instituição de ensino. Ele chegou para provocar. Para incomodar. Para lembrar.

A iniciativa, construída em parceria entre a Associação Charqueadense de Defesa dos Direitos do Cidadão e o IFSUL, traz uma mensagem simples e direta: Violência contra mulher é crime! Disque 180.” E talvez justamente por ser tão simples seja tão necessária.

Eu acredito que algumas mensagens precisam estar diante dos nossos olhos para que não desapareçam da nossa consciência. Um banco vermelho pode parecer apenas um objeto. Mas, naquele ambiente, ele se transforma em uma espécie de monumento cotidiano contra a violência. Um lugar para sentar, mas também para pensar.

E há uma escolha simbólica muito importante em colocar esse banco dentro de uma instituição de ensino.

É entre estudantes e professores que essa reflexão precisa ganhar espaço. A escola não pode ser apenas o lugar onde se aprende matemática, física, química, história ou português. Ela também precisa ser o lugar onde se aprende a conviver, respeitar, reconhecer direitos e compreender que nenhuma forma de violência pode ser naturalizada.

Eu vejo nessa iniciativa uma oportunidade para transformar a informação em exercício de cidadania.

Porque falar sobre violência contra a mulher não pode acontecer somente quando uma notícia de feminicídio ocupa as páginas dos jornais. Não podemos esperar a tragédia para começar a conversar. A prevenção começa muito antes. Começa quando ensinamos que ciúme não é prova de amor, que controle não é cuidado, que humilhação não é brincadeira, que ameaça não é discussão de casal e que agressão nunca pode ser tratada como assunto privado.

É justamente por isso que a presença desse banco durante a XIX MOCITEC ganha ainda mais significado. Enquanto jovens apresentavam seus projetos, experiências e ideias para transformar o futuro, uma outra ideia também estava sendo apresentada: uma sociedade melhor não será construída apenas com tecnologia, ciência e inovação. Ela também será construída com respeito e igualdade. Eu gosto particularmente dessa combinação.

De um lado, jovens pensando em soluções para os problemas do mundo. De outro, uma instituição lembrando que ainda precisamos resolver problemas antigos, dolorosos e profundamente humanos.

A ciência avança. A tecnologia avança. A sociedade também precisa avançar. E avançar significa questionar comportamentos que durante muito tempo foram tratados como normais. Significa educar meninos para respeitar mulheres. Significa fortalecer meninas para reconhecerem seus direitos. Significa preparar professores para perceber sinais de violência. Significa criar espaços onde uma denúncia seja acolhida e não transformada em julgamento contra quem sofreu.

O banco vermelho não fala apenas com quem se senta nele. Ele fala com quem passa por ele.

Fala com o aluno que talvez nunca tenha pensado sobre o assunto. Fala com a professora que pode reconhecer naquele espaço uma mensagem que precisava ser dita. Fala com o professor que pode levar a discussão para a sala de aula. Fala com a comunidade que visita a instituição. E fala, sobretudo, com uma sociedade que ainda precisa entender que combater a violência contra a mulher não é uma pauta exclusivamente feminina. É uma responsabilidade coletiva.

Eu vejo a parceria entre a Associação Charqueadense de Defesa dos Direitos do Cidadão e o IFSUL como uma demonstração de que cidadania também se constrói através de gestos concretos.


Um banco não vai acabar com a violência. Uma placa não vai impedir uma agressão. Uma campanha isolada não resolverá um problema estrutural. Mas o silêncio também nunca resolveu.

Por isso, eu prefiro um banco vermelho ocupando um espaço de convivência do que mais uma mensagem esquecida em algum cartaz. Prefiro que estudantes perguntem o significado. Prefiro que professores discutam o tema. Prefiro que alguém passe diante dele e lembre que existe o Disque 180. Prefiro, enfim, que a reflexão deixe de ser apenas discurso e se transforme em exercício diário.

Porque talvez essa seja a maior função daquele banco.

Fazer com que a gente pare. Sente. Pense. Converse. E, principalmente, não se cale. A violência contra a mulher não é problema doméstico. Não é questão cultural que devemos aceitar. Não é assunto para depois.

É crime. E combater esse crime também é uma forma de educar para a cidadania.


(*) Marcelo Noronha, jornalista


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