Meritocracia: igualdade na largada ou desculpa para ignorar a história?
Eu posso colocar dois corredores na mesma pista e dar o mesmo sinal de largada. Mas, se um deles passou quilômetros carregando uma corrente, enquanto o outro começou descansado, dizer que ambos tiveram exatamente as mesmas oportunidades é ignorar a realid
Marcelo Noronha*
Tenho acompanhado com atenção os debates entre candidatos a governador, presidente, deputado e senador. Em muitos deles, volta a aparecer um discurso que, à primeira vista, parece sedutor: a meritocracia como solução para substituir ou reduzir políticas públicas destinadas às minorias, como as cotas e os programas de distribuição de renda.
Eu acredito no mérito. Acredito no esforço, na dedicação, no estudo e na capacidade de cada pessoa construir sua própria trajetória. O problema
começa quando a merotocracia é transformada em uma espécie de régua universal, como se todos os brasileiros partissem exatamente do mesmo lugar. Não partimos.
E eu não acredito que isso seja falta de conhecimento da nossa história. O Brasil teve durante mais de três séculos sua economia sustentada pela escravidão. Milhões de pessoas negras foram trazidas à força para este país, tratadas como propriedade, privadas do direito à educação, à liberdade, à participação política e à possibilidade de construir patrimônio. A cor da pele chegou a determinar o lugar que uma pessoa ocuparia na sociedade.
A abolição da escravidão, em 1888, não veio acompanhada de uma política ampla de inclusão social. Não houve distribuição de terras, acesso garantido à educação, indenização, moradia ou qualquer grande programa de integração econômica para aqueles que haviam passado gerações sendo explorados. A liberdade chegou, mas a igualdade de oportunidades não chegou junto.
E a história da desigualdade brasileira não termina na questão racial. As mulheres também carregam uma história de exclusão que não pode ser apagada quando eu falo em meritocracia.
Durante muito tempo, a sociedade brasileira foi organizada sob uma lógica em que o homem ocupava os espaços de decisão e a mulher era colocada em uma posição de dependência. O machismo não é apenas uma atitude individual. Ele também se transformou em cultura, comportamento e estrutura social.
É preciso lembrar que o direito ao voto feminino no Brasil só foi reconhecido em 1932. Isso significa que, durante boa parte da nossa história republicana, as mulheres brasileiras sequer tinham o direito político fundamental de escolher seus representantes.
Hoje, parece absurdo imaginar uma sociedade em que metade da população não pudesse votar. Mas foi exatamente assim.
E se durante gerações as mulheres tiveram menos acesso à educação, à política, ao mercado de trabalho, à independência financeira e aos espaços de poder, eu não posso simplesmente olhar para o presente e dizer que todos estão competindo em igualdade de condições.
O machismo cultural ainda aparece quando uma mulher precisa provar duas vezes sua competência para ocupar um espaço que, para um homem, parece naturalmente destinado a ele. Aparece quando a liderança feminina é confundida com autoritarismo, quando a firmeza é chamada de arrogância ou quando a vida profissional de uma mulher é julgada de maneira diferente da de um homem.
Por isso, quando eu ouço alguém falar em meritocracia como se bastasse retirar políticas públicas e deixar cada indivíduo competir sozinho, eu penso que estamos esquecendo justamente aquilo que a história deveria nos ensinar.
Eu posso colocar dois corredores na mesma pista e dar o mesmo sinal de largada. Mas, se um deles passou os últimos quilômetros carregando uma corrente, enquanto o outro começou descansado, dizer que ambos tiveram exatamente as mesmas oportunidades é ignorar a realidade. É isso que acontece quando eu olho apenas para o resultado e esqueço o ponto de partida.
Quando uma pessoa negra chega à universidade por meio de uma política de cotas, não significa que ela esteja recebendo um diploma de presente. Ela continua precisando estudar, fazer provas, cumprir disciplinas e demonstrar competência. A política pública não elimina o mérito. Ela procura enfrentar uma desigualdade histórica que ajudou a determinar quem teve acesso à educação durante gerações.
O mesmo raciocínio vale para as mulheres e para as políticas destinadas a ampliar sua participação econômica, social e política.
Eu também questiono desperdícios, programas mal formulados, falta de fiscalização e utilização política de recursos públicos. Dinheiro público precisa ser tratado com responsabilidade. Não existe política social tão nobre que possa prescindir de transparência, avaliação e resultados.
Mas combater desperdícios é uma coisa. Combater políticas públicas destinadas a reduzir desigualdades é outra.
Eu não posso aceitar que a palavra "meritocracia" seja utilizada como argumento para fingir que o racismo, o machismo e outras formas de desigualdade deixaram de existir.
Quem nasce em uma família pobre, independentemente da cor ou do gênero, também começa uma corrida diferente de quem nasce em uma família com patrimônio, boa escola, acesso à saúde, alimentação adequada, internet, livros, cursos e uma rede de contatos capaz de abrir portas.
E quando pobreza, racismo e desigualdade de gênero se encontram, a distância até a linha de chegada pode ser ainda maior.
Por isso, quando eu ouço um candidato defender a meritocracia como substituta das políticas de inclusão, eu gostaria de fazer uma pergunta simples: meritocracia para quem?
Porque eu quero viver em um país onde o mérito realmente tenha importância. Mas, para isso, preciso primeiro garantir que o filho do trabalhador, a criança negra, a jovem da periferia, a mulher que enfrenta o machismo e todos aqueles que historicamente tiveram portas fechadas possam chegar até a linha de largada. Eu não quero que ninguém seja carregado até a chegada. Quero que todos tenham condições mínimas para correr. Depois disso, que vença o melhor. Essa, para mim, seria a verdadeira meritocracia.
A meritocracia que eu defendo não é aquela que olha apenas para quem chegou ao topo e pergunta quanto ele se esforçou. É aquela que também olha para quem ficou pelo caminho e pergunta quantas portas estavam abertas quando ele tentou entrar.
O Brasil não precisa escolher entre mérito e políticas públicas. Precisa usar as políticas públicas para construir condições mais justas para que o mérito possa, finalmente, ser reconhecido.
Porque dizer a alguém que ele é livre para vencer depois de séculos de desigualdade não significa necessariamente oferecer igualdade. Às vezes, significa apenas entregar a mesma pista para quem nunca teve as mesmas condições de começar a corrida.
E eu me recuso a chamar isso de igualdade.

(*) Marcelo Noronha, jornalista






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