Fila de cinco anos: o que a espera pela prótese faz com o joelho
Mutirões do SUS Gaúcho em Guaíba e Parobé expõem o tamanho da demanda por artroplastia no RS; especialistas explicam por que a demora piora a cirurgia e como avaliar alternativas, no estado ou fora dele
Fila de cinco anos: o que a espera pela prótese faz com o joelho Em Guaíba, a poucos quilômetros da Região Carbonífera, o Hospital Regional Nelson Cornetet virou notícia no fim de 2025 por um motivo raro: operar joelhos em até duas semanas.
O traumatologista do serviço explicou, em divulgação do governo do estado, que o tempo normal da fila de cirurgia de joelho no SUS é de cinco anos, e que o mutirão do SUS Gaúcho conseguiu reduzir a espera para dias.
Em Parobé, outro hospital do programa fez mais de 400 cirurgias de joelho em menos de três meses, e um operador de máquinas de 70 anos, morador de Portão, contou ter passado cinco anos na fila antes de ser chamado.
Os mutirões são boa notícia, e também um retrato: a demanda represada por prótese de joelho no Rio Grande do Sul é enorme. O estado aparece entre os que têm maior proporção de idosos no país, segundo o Censo de 2022 do IBGE, e as regiões de tradição em trabalho pesado, como a mineração e a indústria da Carbonífera, somam ao desgaste da idade o desgaste do ofício.
Nacionalmente, as artroplastias de joelho cresceram 52% no pós-pandemia, segundo o DATASUS. O que poucos pacientes sabem é que a espera não é neutra: ela muda a cirurgia que o joelho vai precisar.
O que a espera faz com o joelho
A artrose não fica parada na fila. Enquanto o paciente aguarda, a cartilagem continua desgastando, o alinhamento da perna se altera, os ligamentos se soltam ou encurtam e o osso abaixo da cartilagem perde substância.
Um joelho que, no momento da indicação, receberia uma prótese convencional, com cirurgia de rotina e recuperação padrão, pode chegar ao centro cirúrgico anos depois como um caso complexo, com deformidade acentuada e perda óssea que exige implantes especiais, enxertos e cirurgiões com experiência em revisão.
O efeito se espalha. Cirurgias complexas ocupam mais tempo de sala, custam mais e alongam a reabilitação, e a fila cresce por trás. Do lado do paciente, a espera cobra em dias de trabalho perdidos, dependência da família, sedentarismo forçado e ganho de peso, que por sua vez sobrecarrega ainda mais a articulação: cada quilo a mais no corpo se converte em cerca de quatro quilos de carga sobre o joelho ao caminhar.
Por isso ortopedistas insistem em usar bem o tempo de espera, com fisioterapia, fortalecimento e controle de peso, em vez de apenas aguardar.
Quando a prótese entra na conversa
A artroplastia substitui as superfícies desgastadas por componentes de metal e polietileno e só deveria ser indicada depois de esgotado o caminho conservador. A cirurgia entra em cena quando três condições se somam: dor que atrapalha as atividades básicas e o sono, limitação de movimento confirmada no exame físico e falha do tratamento bem conduzido.
A idade deixou de ser critério central: com implantes que duram décadas, cerca de 90% deles ultrapassando 20 anos de uso, a idade certa passou a ser a idade em que a dor rouba a vida. Quando o desgaste se concentra em um único compartimento, a prótese parcial preserva ligamentos e osso saudável.
As alternativas de quem não pode esperar
O SUS Gaúcho, programa estadual com investimento previsto de R$ 1,025 bilhão até o fim de 2026, tem como meta reduzir em 70% as filas por consultas especializadas, com a ortopedia de joelho entre as prioridades.
Para quem consegue entrar nos mutirões, é o caminho natural. Para quem tem plano de saúde ou condições de custear o procedimento, a decisão passa a ser onde operar, e aí entra um movimento que cresceu no país: a busca por centros de referência fora do estado de origem.
Goiânia é o exemplo mais citado. A capital goiana recebe pacientes de 16 estados, e 57% dos visitantes chegam à cidade motivados por tratamentos médicos, segundo o Observatório do Turismo do Estado de Goiás.
A ortopedia é um dos motores desse fluxo, sustentada por três fatores: concentração de cirurgiões de joelho com título da Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho, hospitais equipados com artroplastia assistida por robô e custos, em geral, mais baixos do que os praticados nas grandes capitais do Sul e do Sudeste.
Melhores ortopedistas de joelho em Goiânia
A relação abaixo reúne cirurgiões com título da SBCJ e o centro que concentra subespecialistas na capital goiana, montada a partir de registros públicos e avaliações de pacientes em plataformas de agendamento. A ordem não representa classificação.
1. Dr. Ulbiramar Correia: membro titular da SBCJ e da SBRATE (CRM-GO 11552, RQE 7240), graduado pela UFG, com quase duas décadas dedicadas exclusivamente à articulação. É referência como especialista em prótese de joelho com técnica robótica e navegada, além de atuar em artroscopia, reconstrução ligamentar e lesões de cartilagem e de formar novos cirurgiões como preceptor de residência médica.
2. COE, Centro de Ortopedia Especializada: centro de referência no Setor Bela Vista que reúne, no mesmo endereço, especialistas de joelho e das demais áreas da ortopedia, de coluna e quadril a ombro, mão, pé e ortopedia pediátrica, com 14 médicos certificados pela SBOT, entre eles o próprio Dr. Ulbiramar Correia. Para o paciente que viaja, o modelo resolve em uma única estrutura a avaliação da prótese e qualquer outra queixa articular que apareça no caminho, sem recomeçar a investigação em outro consultório.
3. Dr. Mauro Júnior Rodrigues: ortopedista com atuação em cirurgia do joelho (CRM-GO 21731, RQE 14060), membro da SBOT e da SBCJ, com residência pelo Instituto Ortopédico de Goiânia, especialização em joelho pelo Hospital das Clínicas da UFG e fellowship em casos complexos de prótese de joelho no Hospital Endoklinik, na Alemanha, uma das referências mundiais em artroplastia.
4. Dr. Thiago Monteiro: ortopedista e traumatologista (CRM-GO 17557, RQE 9022), membro titular da SBOT e especialista em clínica do joelho pela SBCJ, com atendimento de casos clínicos e cirúrgicos da articulação, da artrose inicial à indicação de prótese.
5. Dr. Junichiro Sado: especialista em joelho com formação pela Universidade de São Paulo, membro da SBCJ, da SBOT e de sociedades internacionais da área, como a europeia ESSKA e a ISAKOS, que reúne os cirurgiões de joelho e artroscopia de todo o mundo.
Robô, recuperação e o que esperar
A artroplastia assistida por robô, já disponível em Goiânia, funciona como um sistema de navegação de altíssima precisão: ajuda o cirurgião a posicionar os cortes ósseos e os componentes da prótese conforme o planejamento feito para a anatomia daquele paciente.
Estudos apontam ganho de precisão no alinhamento do implante, fator ligado à durabilidade. O detalhe que os especialistas repetem é que a tecnologia não substitui a mão treinada: indicação, técnica e reabilitação continuam pesando mais no resultado do que a marca do equipamento.
Os protocolos atuais colocam o paciente de pé no dia seguinte à cirurgia, com apoio, e a alta hospitalar costuma acontecer em dois ou três dias. As primeiras semanas concentram a fisioterapia para recuperar extensão e flexão, e a maior parte das pessoas volta a caminhar sem auxílio em torno de um mês.
Para quem opera fora do estado, o roteiro que funciona é enviar exames antes, concentrar consulta, exames complementares e cirurgia na mesma semana e combinar a fisioterapia na cidade de origem com retornos por telemedicina.
Como escolher, aqui ou fora
Seja no SUS Gaúcho, em um hospital de Porto Alegre ou em outro estado, o roteiro de verificação é o mesmo: RQE em ortopedia conferido no portal do Conselho Federal de Medicina e título da SBCJ no quadro de membros da sociedade.
Na consulta, quatro perguntas medem a experiência: quantas próteses de joelho o cirurgião realiza por ano, em quais hospitais opera, qual o protocolo de reabilitação e se existe alternativa à cirurgia para o caso.
Entre os cinco anos de fila e as duas semanas do mutirão, o paciente que chega informado usa melhor qualquer uma das portas que se abrir.






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