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São Jerônimo, RS,24/09/2026

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MARCELO NORONHA | Quando a falta de luz vira falta de respeito

Na manhã desta quinta-feira, 24 de setembro, moradores do bairro Lindos Ares, em São Jerônimo, voltaram a protestar contra a falta de energia elétrica. Já é o quarto dia depois do temporal que atingiu o Estado na madrugada de segunda-feira.

Arquivo Pessoal
MARCELO NORONHA | Quando a falta de luz vira falta de respeito Na manhã desta quinta-feira, 24 de setembro, moradores do bairro Lindos Ares, em São Jerônimo, voltaram a protestar contra a falta de energia elétrica. Já é o quarto dia depois do temporal que atingiu o Estado na madrugada de segunda-feira.
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Marcelo Noronha*

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Eu olho para estas imagens e vejo muito mais do que um protesto na ERS-401. Vejo uma comunidade que chegou ao limite da paciência.

Na manhã desta quinta-feira, 24 de setembro, moradores do bairro Lindos Ares, em São Jerônimo, voltaram a protestar contra a falta de energia elétrica. Já é o quarto dia depois do temporal que atingiu o Estado na madrugada de segunda-feira. E, enquanto a concessionária trabalha para reconstruir a rede em diferentes pontos, famílias continuam esperando por uma coisa básica: luz dentro de casa.

O protesto é legítimo. Quando o cidadão paga a conta em dia e fica dias sem um serviço essencial, reclamar não é favor, é direito. A própria ANEEL estabelece mecanismos para que o consumidor registre reclamações e, quando o problema não é solucionado pela distribuidora e sua ouvidoria, recorra à agência reguladora. Mas eu penso que existe um protesto ainda mais importante. Um protesto que não precisa de cones, máquinas, bloqueio de estrada ou cartazes. É o protesto da urna.


E é justamente por isso que eu acho perigoso transformar um problema como esse em uma simples disputa de culpados. O temporal explica parte dos danos. Não explica automaticamente toda a demora na recuperação. É preciso saber o que aconteceu, quais foram os danos, quais equipes foram mobilizadas, quais prioridades foram estabelecidas, quais investimentos foram feitos na rede, quais são os indicadores de qualidade e, principalmente, quem tem responsabilidade por fiscalizar e cobrar a prestação adequada do serviço.

A ANEEL tem entre suas atribuições a fiscalização da distribuição de energia, inclusive dos indicadores de continuidade e das compensações financeiras devidas aos consumidores quando cabíveis. E há um dado que merece atenção. Em decisão relacionada à CEEE-D, a documentação da ANEEL registra que, em 2022, 48 dos 62 conjuntos elétricos da distribuidora, equivalentes a 77,5%, haviam ultrapassado limites regulatórios de indicadores de continuidade. O documento também registra a defesa apresentada pela empresa e seus argumentos sobre investimentos e melhorias após a transferência do controle para a Equatorial. Ou seja, eu não quero simplesmente apontar o dedo e dizer: "a culpa é deste ou daquele". Quero algo mais sério. Quero que o consumidor saiba quem é responsável pelo quê. Porque Lindos Ares não parece ser um episódio isolado. Segundo os moradores, Porto do Conde e Carvoeira também enfrentam problemas semelhantes após o temporal. E a situação local acontece dentro de um cenário estadual muito maior. Mais de 120 mil clientes ainda estavam sem energia no Rio Grande do Sul na quarta-feira, dois dias depois do temporal, segundo levantamento divulgado pela imprensa. Isso não diminui a indignação de quem está há quatro dias sem luz. Pelo contrário. Mostra a dimensão do problema.

Eu posso até compreender que um temporal de grandes proporções derrube postes, árvores e redes. O que eu não consigo compreender é que o consumidor seja lembrado pontualmente na hora de pagar a fatura e precise transformar a própria vida em manifestação para ser lembrado quando precisa do serviço. E aqui entra a parte que considero fundamental.

Nas próximas eleições, eu espero que ninguém vote apenas por discurso bonito, promessa de palanque ou fotografia sorridente. Eu espero que o eleitor pesquise. Quem fiscaliza? Quem cobra? Quem deveria estar cobrando? Quem tomou decisões sobre concessões e serviços públicos? Quem acompanhou os investimentos? Quem esteve presente quando a população precisou? Quem apareceu apenas depois que a estrada foi bloqueada?

Essas perguntas não servem apenas para este episódio. Servem para qualquer serviço público que afete diretamente a vida de quem paga imposto, tarifa e conta todos os meses. Eu não acredito que o cidadão deva esperar a próxima eleição para reclamar. Reclamar hoje é necessário. Protestar hoje é legítimo. Cobrar hoje é obrigação.

Mas eu também acredito que a democracia oferece ao cidadão uma ferramenta muito mais poderosa do que qualquer bloqueio de estrada: a memória. A memória de quem fez. A memória de quem deixou de fazer. A memória de quem apareceu. E, principalmente, a memória de quem desapareceu quando a população mais precisava, porque quatro dias sem energia podem terminar quando a rede for finalmente religada. O problema é que o descaso, quando não é devidamente cobrado, pode durar muito mais. E esse, talvez, seja o verdadeiro apagão que precisamos evitar.


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