MARCELO NORONHA | Não acabem com o futebol
Se começarmos a tratar a criatividade como provocação, condenaremos o futebol à mediocridade. Transformar beleza em ofensa é inverter completamente o espírito do jogo.
Marcelo Noronha*
O futebol sempre foi mais do que um esporte. É expressão cultural, é arte popular, é emoção coletiva. Durante décadas, foi o palco onde o improviso brasileiro encontrou sua forma mais bonita de se manifestar. Mas confesso: tenho sentido uma preocupação crescente com a iminência de o futebol se tornar inatrativo.
Essa inquietação voltou com força depois do último Grenal, quando o Grêmio se sagrou campeão gaúcho. Em vez de ficarmos apenas com a celebração de uma conquista esportiva, vimos nascer uma atmosfera de animosidade desnecessária — e, pior, alimentada por quem deveria ajudar a qualificar o debate.
Pasmem: comentaristas, jornalistas e analistas — muitos deles identificados como técnicos — passaram a sugerir que determinados gestos dentro de campo seriam provocação. A troca de passes mais elaborada, um cruzamento de letra, ou até mesmo o tradicional grito de “olé” vindo da arquibancada passaram a ser tratados como se fossem atos de deboche ao adversário. E mais grave: como se pudessem ser respondidos com violência.
É aí que mora o perigo.
Se começarmos a tratar a criatividade como provocação, condenaremos o futebol à mediocridade. A arte de jogar sempre foi justamente isso: o drible inesperado, o toque refinado, o gesto técnico que faz a arquibancada se levantarem. Transformar beleza em ofensa é inverter completamente o espírito do jogo.
O futebol já enfrenta problemas suficientes. Está cada vez mais caro para o torcedor, mais engessado dentro de campo e, em muitos momentos, excessivamente pragmático. A emoção espontânea que sempre caracterizou o esporte parece estar sendo substituída por um manual de comportamento onde qualquer expressão de talento pode ser interpretada como desrespeito.
Ora, desde quando jogar bem virou afronta?
Desde quando a torcida celebrar com um “olé” passou a ser motivo para indignação moral?
O futebol nasceu da disputa, sim, mas também do encanto. Ele só sobreviveu por tanto tempo porque era capaz de produzir momentos de beleza coletiva, aqueles instantes em que até o adversário reconhece o talento que acabou de presenciar.
Se começarmos a patrulhar a criatividade e criminalizar a estética do jogo, retiraremos justamente aquilo que faz o futebol ser amado: a sua liberdade.
Que os jogadores joguem. Que inventem, que arrisquem, que improvisem. Que a torcida vibra, que cante, que celebre. Que o adversário responda… jogando melhor.
Mas jamais com violência.
Por isso, deixo aqui um apelo sincero — quase um pedido.
Por favor: não acabem com o futebol.
Não transformem a arte de jogar em ofensa. Não convertam talento em provocação. Não matem, com discursos irresponsáveis, aquilo que durante tanto tempo foi a mais democrática e encantadora das paixões populares.
Porque, se tirarem do futebol a sua beleza, o que restará será apenas um jogo sem alma.







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