Carnaval da Resistência, um tapa de luvas

O que mais me chamou atenção foi ter presenciado um povo educado, que jogou lixo nas lixeiras a noite toda

Por Portal de Notícias 18/03/2019 - 15:03 hs
Foto: Carla Miller Trainini
Carnaval da Resistência, um tapa de luvas
Durante algumas horas eu presenciei o brilho no olhar de quem brigou pela Festa de Momo

Carla Miller Trainini

A vida inteira eu disse que jamais teria paciência de assistir aos desfiles de escolas de samba na avenida. Porto Alegre, principalmente, por ter acesso às apresentações bilionárias de São Paulo e Rio de Janeiro como (ridículo) comparativo. Realmente, nunca gostei e considerava desperdício de tempo e de dinheiro. Ficar horas sentada em uma arquibancada vendo fantasias e carros alegóricos passarem achando que estão contando histórias que fazem sentido, jamais esteve nos meus planos. A meu ver, sempre tiveram nexo apenas no imaginário de quem os cria, mas esse é um papo para outra ocasião.

Em certos momentos da vida cheguei, inclusive, a me manifestar contra o carnaval, dizer que era dinheiro público gasto em “besteira” e que este deveria ser destinado à saúde e educação. Mas com o passar do tempo – e certa maturidade, por assim dizer, ainda bem - enxerguei outra realidade: a da roda monetária girando graças à dedicação de pessoas que trabalham durante meses para viver em poucos dias um sonho que proporciona alegria a milhões de foliões de plantão.

Porto Alegre me mostrou isso no último sábado, quando tive a oportunidade de caminhar pelos bastidores da festa que recebeu o nome “Carnaval da Resistência”, que não poderia ter ganhado outro, senão este. O legítimo tapa de luvas.

Durante algumas horas eu presenciei o brilho no olhar de quem brigou pela Festa de Momo para que ela acontecesse, depois da interrupção de um ano devido a cortes de orçamento municipal e, possivelmente, brigas internas entre os envolvidos com sua organização. Sim, ela aconteceu sem verbas públicas, sem arquibancada, com materiais reciclados, dinheiro da comunidade e o amor de quem acredita no projeto, ratificando o nome escolhido para mostrar à sociedade que é possível levar alegria com união e trabalho em equipe.

Naquela noite eu vi um povo orgulhoso, que lutou com bravura e de cabeça erguida contra olhares tortos do tipo de gente como eu me sentia antes, quando considerava uma festa desnecessária. Presenciei pessoas se virando em muitas na avenida, servidores públicos, inclusive, trabalhando voluntariamente nos bastidores, resolvendo problemas, coordenando escolas e cuidando para que tudo desse certo e nada fosse percebido por quem estava lá para assistir o colorido da festa.

Vi jornalistas preocupados com o melhor ângulo para filmar ou fotografar, tendo que garantir carregadas as pilhas e baterias de suas câmeras para que nenhum momento fosse perdido e pudesse colocar em risco seus desempenhos. Foram muitos, de diversos veículos e, talvez, concorrentes entre si, mas que passada a escola, saiam juntos dando risada e trocando ideias, aproveitando o dever do trabalho para transformá-lo em diversão.

Eu vi ambulantes circulando pelo povo com comidas e bebidas, tentando ganhar seu dinheiro de maneira honesta. Vi pessoas simpáticas atrás dos balcões das lancherias atendendo seus clientes com um sorriso no rosto, talvez querendo curtir a festa e não podendo, mas torcendo para que chegassem logo aqueles com fome e sede no meio da noite para poderem, dessa forma, conseguir o retorno financeiro investido.

Assisti integrantes emocionados por ver o resultado de seus esforços arrancando salvas de palmas do público. Sim, eles venceram a batalha e estavam na passarela honrando o símbolo de suas escolas de samba carregado no peito da camiseta, extasiados por conseguir driblar todas as adversidades e obstáculos impostos devido o impasse financeiro.

Mas, acima de tudo, e o que certamente foi o que mais me chamou atenção, foi ter presenciado um povo educado, que jogou lixo no local adequado a noite inteira, dando pequenos passos até as diversas lixeiras espalhadas por toda extensão da passarela do samba para largar seus resíduos. Encantada com a cena, cheguei a conversar com algumas pessoas quando presenciei o ato surpreendente para mim e natural para eles. Suas expressões de espanto pela minha reação me deixaram envergonhada. No entanto, foram estes que me mostraram o poder da cultura e da educação, ao contrário do que presencio na minha cidade toda vez que acontece uma festa púbica na praça central.

Vivi nesse sábado emoções que poucos conseguirão entender. Foi uma experiência sensacional proporcionada por um amigo, Carlos Hoffmann, que me acolheu de maneira tão gentil e generosa, mesmo estando para lá e para cá na avenida a noite toda, pelo segundo dia consecutivo, exaustivamente garantindo a organização do evento.

Sentimento ímpar de quem presenciou empenho e dedicação de muitos profissionais que deixaram suas famílias em casa por este compromisso e abriram mão do descanso merecido do fim de semana para mostrar que é possível colocar na avenida um carnaval lindo e empolgante, dando um tapa de luvas merecido em quem lutou contra sua realização.