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São Jerônimo, RS,29/01/2026

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Superando dificuldades: da descoberta de deficiências ao ingresso no mercado de trabalho

Conheça a trajetória do jeronimense Erison Diniz, que não fala e não escuta, mas concluiu o Ensino Médio e conseguiu o primeiro emprego no Hospital São Jerônimo

Carla Miller Trainini e Arquivo Pessoal
Superando dificuldades: da descoberta de deficiências ao ingresso no mercado de trabalho Erison trabalha há um mês como auxiliar de farmácia no Hospital São Jerônimo
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Carla Miller Trainini




Há um mês, o jovem Erison Diniz da Silva, que não fala e nem escuta desde o
nascimento, conseguiu realizar o sonho de entrar para o mercado de trabalho.
Hoje, aos 22 anos, ele comemora as novas amizades que conquistou graças à
oportunidade encontrada no Hospital São Jerônimo (HSJ), onde trabalha desde junho
como auxiliar de farmácia durante oito horas diárias, de segunda a sexta-feira.


Entre idas e vindas a médicos especialistas e a procura por escolas que
tivessem profissionais adequados a recebê-lo em São Jerônimo e Charqueadas, no
final de 2018 ele conseguiu concluir o Ensino Médio no Colégio Concórdia, em
Porto Alegre. Agora, passado um mês de experiência, faz planos com o primeiro salário
recebido nesta quarta-feira (3), quando pagou o almoço em família para
comemorar (foto abaixo).




- Estou gostando muito e quero continuar trabalhando no hospital. Nesse
primeiro mês passei por muitos desafios, como não chegar atrasado, por exemplo,
e aprender a desenvolver a minha função. É fácil, não tive muitas dificuldades,
mas todo dia é uma novidade. A relação com os colegas é boa, eles me ajudam o
tempo todo. Nos comunicamos por gestos e tem um colega que também tem as mesmas
deficiências que eu, então ele ajuda bastante – comenta.


Segundo sua mãe, Rosa Helena Diniz Barcelos, as contas das despesas estão
prontas e a partir de agora ele passará a colaborar com os gastos em remédios e
as consultas com a psicóloga. Além disso, quer guardar dinheiro na poupança e
faz planos de comprar uma bicicleta para se deslocar até o trabalho. O próximo
objetivo é fazer a Carteira Nacional de Habilitação (CNH), que ele garante
alcançar até o final do ano.


- É importante para ele ter noção do valor que recebe. São responsabilidades
que combinamos para que ele possa continuar evoluindo. Eles precisam de uma
oportunidade de emprego, saem crus da escola. O Erison me dizia que estava
cansado de ficar em casa, só na TV e vídeo game, que queria ter o dinheiro
dele, e isso tudo é muito importante para o seu desenvolvimento. Eu não
sosseguei até conseguir encontrar uma vaga para ele poder conhecer o mercado de
trabalho e ter suas responsabilidades – relata a mãe.

SONHO DO PRIMEIRO
EMPREGO



Para pessoas com o tipo de deficiência como as de Erison, por exemplo, o
problema de comunicação é desafiador e isso se torna um grande obstáculo a ser
contornado, tanto na escola como no mercado de trabalho. Essa foi uma das
maiores dificuldades enfrentadas por Rosa na busca de um emprego para o filho.


A procura por uma vaga iniciou em janeiro deste ano, quando a psicóloga que o
acompanha em Porto Alegre começou a enviar currículos para as empresas de São
Jerônimo e Charqueadas que poderiam dispor de vagas para Pessoas com
Deficiência (PcD), em busca do sonhado primeiro emprego, desejo manifestado no final
do ano quando concluiu os estudos. A ideia, segundo Rosa, era conseguir uma
vaga dentro dos seis primeiros meses do ano. Caso não conseguissem, iriam
retornar para Porto Alegre.


Erison chegou a ser chamado para entrevistas em uma empresa em São Jerônimo.
Foram duas tentativas que não deram certo, em dois departamentos diferentes. No
entanto, em nenhuma das duas oportunidades tanto ele quanto a instituição não
se adaptaram. Foi então que o Hospital São Jerônimo entrou em contato oferecendo
emprego.


- Quando iniciamos a busca chegaram a nos ligar de uma empresa de
telemarketing, o que evidentemente, no caso dele, seria impossível. Depois
disso, ele foi chamado para trabalhar em uma empresa de São Jerônimo, porém,
tanto a empresa não tinha condições de recebê-lo, quanto ele não se adaptaria
ao que estava sendo oferecido. Na verdade a lei que destina cotas para PcD é
muito bonita no papel, mas nós sabemos que a realidade é outra, porque não
especifica qual o tipo de deficiência a pessoa precisa ter para ser beneficiada
e isso se tornou um grande obstáculo até conseguirmos esse emprego no Hospital,
a única instituição que se dispôs a se adaptar para receber meu filho –
salienta Rosa.


Erison foi chamado em maio para entrevista no HSJ e foi contratado para iniciar
no mês seguinte, como auxiliar de farmácia. De acordo com Nadine Cunha,
responsável pelo departamento, a função atribuída a ele é importante e exige
muita atenção.


- O serviço dele é muito importante, porque o Erison auxilia na separação de
diluentes e medicamentos que são colocados em kits entregues para facilitar a
vida do pessoal da enfermagem, ou seja, o kit já vai pronto de acordo com a
prescrição. São vários tipos diferentes para serem montados. Se ele colocar o
diluente errado com a medicação errada, pode dar um problema muito grave no
final, que é o paciente. Mas ele tem se destacado e aos poucos vamos ensinando
outros serviços, conforme seu desempenho – comenta Nadine, que chefia o
departamento há três anos e está satisfeita com a dedicação exemplar de Erison.


Bárbara Pedroso, do Departamento de Recursos Humanos no HSJ, garante que o
desempenho de Erison tem sido exemplar.


- Me enche o coração de alegria em podermos ver a felicidade dele ao trabalhar.
Ontem (terça-feira, 2) quando chamei a Nadine para conversar sobre a
prorrogação do contrato foram só elogios, me disse que ele é muito bom.
Conversando com a Vânia (Laitano), ela disse que precisaríamos de mais pessoas
como ele – concluiu Bárbara.




A DESCOBERTA DAS DEFICIÊNCIAS




Rosa explica que as deficiências de Erison não foram detectadas na gravidez.
Ele tinha pouco mais de um ano e meio quando um casal de amigos chamou sua
atenção sobre o desenvolvimento do filho. Ela, então, pegou uma colher e uma
tampa de panela e começou a bater atrás de Erison para ver se ele se assustava,
o que não aconteceu. Daquele momento em diante, começou a busca por médicos
especialistas para saber como lidar com a situação.


- Levamos ao médico imediatamente e foi assim que identificamos o problema, que
não tem causa aparente, não se sabe o motivo, apenas que ele nasceu surdo. A
partir dali nossa vida mudou radicalmente, porque foi preciso muitas
adaptações, tudo era novo, não sabíamos como lidar. Foi quando iniciamos a
procura por recursos, como médicos especialistas e escola especial. Por não
conseguir nada por aqui, fomos para Porto Alegre e lá começamos a organizar a
vida e as coisas que ele precisava para se desenvolver – explica Rosa sobre os
primeiros desafios na criação de Erison, que incluíram dificuldade da
comunicação, inclusão social e aceitação.




DAS IDAS E VINDAS À CAPITAL ATÉ A FORMATURA


Em função de obstáculos como a falta de especialistas para atender Erison em
São Jerônimo à época, ele e a mãe se mudaram para Porto Alegre em busca do
melhor tratamento possível. Ela conta que no começo as viagens eram feitas
diariamente, até que decidiram se mudar para a capital, em 2004. Cinco anos
depois, retornaram para São Jerônimo, quando Erison iniciou os estudos em
Charqueadas, na Escola Otávio Lázaro. Porém, o município não queria se
responsabilizar por um estudante jeronimense em uma classe especial e o retorno
à capital se fez necessário.


Durante as idas e vindas, Erison nunca ficou fora da escola e sempre teve
acompanhamento de especialistas como fonoaudiólogo, psicóloga, neurologista e
todo tratamento necessário para o seu desenvolvimento. Além da surdez e do
problema de comunicação detectado na primeira infância, com o passar dos anos a
família descobriu o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH).


- Nós ficamos dois anos com ele estudando em Charqueadas, mas não deu certo. Eu
tive que entrar com processo na Justiça para tentar uma vaga em São Jerônimo e
o Município ceder um intérprete para ele, mas, como estava muito demorado e ele
ia se atrasar cada vez mais nos estudos, nós resolvemos voltar para Porto
Alegre, onde ele continuou estudando até se formar, no Colégio Concórdia –
disse Rosa, que retornou com o filho para São Jerônimo em dezembro do ano
passado para iniciar uma nova fase na vida: a busca pelo primeiro emprego.




O QUE ELAS DISSERAM



“No começo não foi
nada fácil. Quando a gente bate de frente e leva esse susto, é complicado
aceitar que teu filho não é perfeito, digamos assim, igual às outras crianças,
e daí é preciso procurar ajuda e recursos para que ele se desenvolva da melhor
maneira possível. Com o Erison foi exatamente tudo isso que aconteceu. Nós
sempre procuramos incluí-lo na sociedade, levávamos junto nos nossos
compromissos, até mesmo quando ele não queria. Mas ele nunca deixou de
frequentar uma escola, ter a sua individualidade e agora, trabalhar fora e
aprender como funciona o mercado de trabalho”.


Rosa Helena Diniz Barcelos, mãe de
Erison





“É uma troca mútua, mas eles acabam
nos ensinando muito mais do que nós a eles. O aprendizado é constante, tanto
pelos sinais, com as expressões e a maneira de se comunicar. É bom para todo
mundo. Como na Farmácia, por exemplo, nós tivemos condições de receber o Erison
porque o serviço dele é interno, não é atendimento ao público externo do
hospital. Toda empresa consegue enquadrar uma PcD, basta querer, tudo é questão
de adequação e boa vontade. Foi o que aconteceu aqui. Eu estava com o quadro
completo, mas é um departamento que pode receber uma PcD, então eu sugeri que
trocassem um dos funcionários de setor, solucionando o problema apresentado por
outro departamento para poder receber o Erison. Foi bem simples de resolver”.


Nadine Cunha, responsável pela
Farmácia do HSJ ao mencionar a adequação feita para receber Erison, já que há
pelo menos um ano o hospital não contrata novos funcionários devido à crise
financeira e que as vagas destinadas a Pessoas com Deficiências são as únicas
que continuam abertas.




PERFIL




- ERISON DINIZ DA
SILVA



- Tem 22 anos, é natural de São Jerônimo e filho de
Francisco Paulo Marques da Silva e Rosa Helena Diniz Barcelos


- Residia em Porto Alegre e retornou para São Jerônimo ao final de 2018, quando
completou o Ensino Médio, no Colégio Concórdia.


- No início desse ano, através de sua psicóloga, em Porto Alegre, começou a
distribuir currículos entre empresas de São Jerônimo e Charqueadas em busca do
primeiro emprego.


- O prazo estipulado pela família para conseguir uma vaga em um destes dois
municípios era de seis meses. Caso o objetivo não fosse alcançado, retornariam
para Porto Alegre.


- Durante este período Erison fez dois testes em uma empresa em São Jerônimo,
em dois departamentos diferentes, porém, em nenhuma das duas oportunidades tanto
ele quanto a instituição se adaptaram.


- Em maio foi chamado para entrevista no HSJ, onde começou a trabalhar no mês
seguinte.





SAIBA MAIS




* Surdo-mudo é um termo incorreto


O termo “surdo-mudo” é incorreto e nunca deve ser usado. A pessoa ser
deficiente auditiva não significa que ela seja muda. A mudez é outra
deficiência e é raro ver as duas acontecendo ao mesmo tempo. A realidade é que
muitos surdos, por não ouvirem, acabam não desenvolvendo a fala.




* Cerca de 80% dos surdos do mundo são analfabetos nas línguas escritas


De acordo com a Federação Mundial dos Surdos, 80% dos deficientes auditivos
de todo o mundo têm baixa escolaridade e problemas de alfabetização. No Brasil
a situação não é diferente, já que a grande maioria dos surdos não tem uma boa
compreensão do português, ou seja, não entendem ou têm dificuldades para ler e
escrever. Por conta disso isso, eles dependem exclusivamente da língua de
sinais para se comunicar e obter informação. A dificuldade de aprendizado da
língua portuguesa escrita pode estar ligada a diversos fatores, como a
impossibilidade de aprender através da fonética e som, a aquisição de linguagem
tardia, ou mesmo, a diferença da estrutura gramatical da Libras e do Português.




* Libras é língua e não linguagem

A Língua Brasileira de Sinais (Libras) é língua oficial no Brasil desde
2002 e possui o mesmo status que o Português. É uma língua completa (e não
linguagem), com estrutura gramatical própria. Na Libras, por exemplo, não
existem tempos verbais ou artigos e a organização das informações é totalmente
diferente do Português. Não só os sinais são importantes, mas também as
expressões faciais e corporais. Dependendo do sinal, que pode ser igual nas
mãos, mas com uma expressão diferente, pode mudar todo o sentido de uma frase.




* A língua de sinais não é universal

Como qualquer outra língua, cada local tem seu desenvolvimento próprio. Por
exemplo, nos Estados Unidos a língua de sinais utilizada é a American Sign
Language (ASL) e em Portugal é Língua Gestual Portuguesa (LGP), ambas são
diferentes da Libras. As línguas de sinais têm direito inclusive a
regionalismos, assim como temos aipim, macaxeira e mandioca, também há sinais
diferentes para a mesma palavra dentro do mesmo país.




* Acessibilidade em Libras é obrigatória

Em janeiro de 2016 entrou em vigor a Lei Brasileira de Inclusão (LBI). Ela promove
mudanças significativas em diversas áreas como educação, saúde, mobilidade,
trabalho, moradia e cultura. Uma das conquistas importantes é do acesso à
informação, agora que os sites precisam estar acessíveis. Além disso, também é
exigido que os serviços de empresas ou órgãos públicos ofereçam acessibilidade
para as pessoas com deficiência.




* P
orcentagem de PcD nas empresas

A legislação estabelece a obrigatoriedade de empresas que possuam a partir
de 100 funcionários preencham uma parcela de seus cargos com Pessoas com
Deficiência (PcD). A reserva legal de cargos é também conhecida como Lei de
Cotas (art. 93 da Lei nº 8.213/91). A base de cálculo é feita pelo número de
empregados no quadro da empresa. Assim, a cota de PcD deverá ser preenchida
da seguinte maneira: a200 funcionários, 2%; de 201
a
500 funcionários, 3%; de 501 a
1000 funcionários, 4%
e acima de
1001 funcionários, 5%.



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