MARCELO NORONHA | O trabalho que aparece quando nada acontece
Costumo pensar que o trabalho da Polícia Penal é medido muito mais pelo que deixa de acontecer do que pelo que efetivamente acontece
Na Região Carbonífera, onde está localizado um dos mais importantes complexos prisionais do Rio Grande do Sul, a relevância da Polícia Penal torna-se ainda mais evidente Marcelo Noronha*
Em tempos de debates sobre segurança pública, há uma categoria que raramente recebe o reconhecimento proporcional à importância de sua missão: a Polícia Penal, antes chamada de Agente Penitenciário. Talvez isso aconteça porque o sucesso de seu trabalho não costuma produzir manchetes. Ao contrário, ele se revela justamente na ausência delas.
Quando uma fuga ocorre, quando uma rebelião toma conta de um presídio ou quando uma organização criminosa consegue comandar delitos a partir do cárcere, o fato ganha destaque imediato. Mas pouco se fala sobre o trabalho diário que impede que essas situações aconteçam.
Os números oficiais do Rio Grande do Sul ajudam a compreender essa realidade. Somente em 2025, a Polícia Penal gaúcha impediu a entrada de 2.893 aparelhos celulares nas unidades prisionais do Estado. No mesmo período, foram apreendidos 1.836 chips telefônicos, um crescimento significativo em relação ao ano anterior. Durante apenas uma fase da Operação Mute, realizada em âmbito nacional para combater a comunicação ilícita dentro dos presídios, foram apreendidos 347 celulares, além de carregadores e chips que poderiam ser utilizados por facções criminosas.
Esses números não representam apenas objetos confiscados. Representam crimes que deixaram de ser ordenados, extorsões que deixaram de acontecer, redes criminosas que tiveram sua comunicação interrompida e vítimas que talvez nunca saibam que foram protegidas.
Na Região Carbonífera, onde está localizado um dos mais importantes complexos prisionais do Rio Grande do Sul, a relevância da Polícia Penal torna-se ainda mais evidente. Durante as enchentes históricas de 2024, mais de mil presos precisaram ser transferidos da Penitenciária Estadual do Jacuí em uma operação de enorme complexidade logística. A ação foi conduzida sem que o Estado enfrentasse uma crise prisional de grandes proporções, demonstrando preparo técnico e comprometimento dos servidores envolvidos.
Também merece destaque a implantação de bloqueadores de sinal na Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas. Trata-se de uma medida estratégica para impedir que lideranças criminosas continuem exercendo influência sobre atividades ilícitas a partir do interior das unidades prisionais.
Costumo pensar que o trabalho da Polícia Penal é medido muito mais pelo que deixa de acontecer do que pelo que efetivamente acontece. Quando quase três mil celulares são interceptados antes de chegarem às galerias, quando centenas de chips são apreendidos e quando operações movimentam milhares de pessoas privadas de liberdade sem incidentes graves, estamos diante de resultados concretos que raramente recebem a atenção merecida.
A sociedade costuma enxergar apenas os muros dos presídios. Por trás deles existe um trabalho permanente de vigilância, inteligência, gestão de crises e prevenção. É um trabalho silencioso, muitas vezes invisível, mas absolutamente essencial para a segurança coletiva.
Valorizar a Polícia Penal não significa apenas reconhecer seus servidores. Significa compreender que a segurança pública começa muito antes da viatura na rua. Ela também depende da capacidade do Estado de manter o controle de seus estabelecimentos prisionais, impedir a comunicação do crime organizado e garantir que as penas sejam cumpridas dentro da legalidade.
Quando nada acontece, quando não há fuga, rebelião ou comando criminoso partindo de dentro dos presídios, é provável que alguém tenha feito muito bem o seu trabalho. E esse alguém, muitas vezes, veste o uniforme da Polícia Penal.

(*) Marcelo Noronha, jornalísta





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