MARCELO NORONHA | Rock, literatura e resiliência: quando a cultura encontra a força para seguir em frente
Nesse contexto, merece destaque a participação dos charqueadenses João Adolfo Guerreiro e de Pedro Rocha, que ajudam a construir uma ponte entre o universo do rock e a memória afetiva de gerações.
Lançamento de *Rock Literário* na 4Beer possui um significado especial Marcelo Noronha*
Há eventos que transcendem a simples condição de lançamento de um livro. A coletânea *Rock Literário*, da Editora Escuna, reúne exatamente esses elementos que transformam uma publicação em algo maior: memória, identidade, música, literatura e, acima de tudo, resiliência.
O simbolismo começa pelo local escolhido. A Cervejaria 4Beer, situada no Distrito 4, em Porto Alegre, tornou-se um dos exemplos da capacidade de reconstrução após a enchente histórica de 2024. Duramente atingido pelas
águas, o bairro precisou reinventar-se. A 4Beer, que sobreviveu à tragédia e retomou suas atividades, representa hoje muito mais do que um espaço de lazer. Representa a persistência da cultura, dos empreendedores e da própria cidade diante da adversidade. É justamente nesse cenário que a literatura encontra o rock. E ambos têm muito em comum. O rock sempre foi uma manifestação de resistência, de inconformismo e de autenticidade. A literatura, por sua vez, preserva memórias, registra épocas e eterniza histórias que poderiam se perder com o tempo. Quando os dois se encontram, o resultado é uma celebração da cultura em sua forma mais viva.

Nesse contexto, merece destaque a participação dos charqueadenses João Adolfo Guerreiro e de Pedro Rocha. João Adolfo, colunista e cronista do Jornal Portal de Notícias, leva para a coletânea sua conhecida capacidade de transformar lembranças, lugares e personagens em narrativas que dialogam diretamente com a identidade regional. Ao lado de Pedro Rocha, ajuda a construir uma ponte entre o universo do rock e a memória afetiva de gerações.
Não por acaso, as crônicas dos dois autores resgatam referências que fazem parte do imaginário de muitos charqueadenses e amantes da música. Entre elas estão a lendária Poeira da Estrada, a Mistura Fina e o inesquecível Bar do Tonho de Charqueadas, espaço que marcou época, reuniu amigos, acolheu músicos e ajudou a construir uma cena cultural que permanece viva na lembrança de quem o vivenciou.
Talvez esteja justamente aí a grande beleza da obra. Enquanto o rock preserva sua energia através das canções, a literatura assume a missão de preservar as histórias que cercam essa experiência. Os riffs podem ecoar na memória, mas são as palavras que ajudam a registrar os personagens, os encontros, os lugares e os sentimentos que o tempo insiste em levar.
Por isso, o lançamento de *Rock Literário* na 4Beer possui um significado especial. Trata-se do encontro de três formas distintas de resistência. A resistência do rock, que atravessa décadas sem perder sua essência. A resistência da literatura, que continua relevante em um mundo cada vez mais acelerado. E a resistência de um espaço cultural que sobreviveu a uma das maiores tragédias climáticas da história recente do Rio Grande do Sul.
No fim das contas, a mensagem é simples e poderosa. As águas passaram. Os amplificadores continuam ligados. As páginas continuam sendo escritas. E as histórias seguem sendo contadas. Porque a cultura, assim como o rock, sempre encontra uma forma de sobreviver.
Da minha parte, o roteiro já está definido: tomar um café com o João Guerreiro, comprar o livro, garantir o autógrafo e ouvir algumas boas histórias sobre o rock, literatura e vida.

(*) Marcelo Noronha, jornalista





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