Avanços permitem diagnosticar esclerose múltipla antes dos sintomas
Atualização dos critérios facilita o diagnóstico precoce, permitindo iniciar o tratamento antes e reduzir o risco de sequelas
Atualização dos critérios facilita o diagnóstico precoce, permitindo iniciar o tratamento antes e reduzir o risco de sequelas Gabriela Cupani
Agência Einstein
A esclerose múltipla é a condição neurológica mais comum em adultos jovens. Ela afeta 2,9 milhões de pessoas no mundo e cerca de 40 mil no Brasil. Todo ano, a data de 30 de maio é marcada pelo Dia Mundial da Esclerose Múltipla, cuja campanha alerta, desde 2024, para a importância do diagnóstico precoce e acurado, a fim de garantir um tratamento bem-sucedido.
Com o título “My MS Diagnosis: navigating MS together” (“Meu Diagnóstico de Esclerose Múltipla: navegando juntos pela EM”, em tradução livre), a mensagem vai ao encontro das diretrizes mais recentes para o diagnóstico. Em 2024, foi anunciada uma revisão dos “Critérios de McDonald”, que desde 2017 norteiam como detectar e tratar a doença.
Divulgadas oficialmente em 2025, em artigo no The Lancet Neurology, as mudanças incorporam novos marcadores e buscam ampliar a precisão de exames, favorecendo o início precoce do tratamento. “O objetivo é antecipar o diagnóstico, a fim de prevenir sintomas, para evitar o aparecimento de sequelas”, diz o neurologista Herval Ribeiro Soares Neto, do Einstein Hospital Israelita.
A esclerose múltipla é uma doença autoimune em que células do sistema de defesa atacam a bainha de mielina, espécie de capa que reveste os neurônios e é essencial para a transmissão de comandos. Isso causa uma inflamação e leva à formação de lesões em locais como nervo óptico, medula e cerebelo, provocando sintomas relacionados às funções dessas regiões, como perda visual, embaçamento, vertigem, desequilíbrio, perda de sensibilidade e perda motora.
Em cerca de 80% dos casos, a condição se manifesta em forma de surtos que duram semanas e podem melhorar espontaneamente. Mas nem sempre é possível recuperar as funções afetadas, já que isso depende da capacidade de remielinização. Nos episódios mais graves, os sintomas são progressivos.
Além de considerar o exame clínico e o histórico do paciente, o diagnóstico é feito a partir de exames de imagem, principalmente a ressonância magnética de crânio e coluna, e do líquor. A doença produz lesões típicas em determinadas regiões do cérebro ao longo do tempo, além do aumento de certas substâncias no líquido cefalorraquidiano, que circula em torno do cérebro e medula espinhal, que funcionam como marcadores.
A análise considera o número de lesões e os locais afetados, além da presença de marcadores, como um grupo de proteínas chamadas bandas oligoclonais, e características específicas das lesões, como uma veia central ou depósitos de ferro. A tecnologia contribui para esse processo por meio de equipamentos avançados.
Hoje, há ressonâncias magnéticas capazes de visualizar essas lesões em detalhes e exames para detectar marcadores no líquor. “No Einstein, criamos um laudo estruturado de ressonância magnética, específico para esclerose múltipla, que avalia a hipótese de forma sistematizada”, conta Soares Neto. Esse recurso se soma à análise de biomarcadores mais precisos em exames com o de líquor, retirado por uma punção lombar da coluna. “A qualidade desses exames faz a diferença para um diagnóstico mais correto e precoce”, destaca o neurologista.
Uma das novidades da última revisão dos critérios diagnósticos é o reconhecimento de uma nova região típica para as lesões no sistema nervoso central, o nervo óptico, que se soma às quatro já estabelecidas anteriormente: periventricular, juxtacortical/cortical, infratentorial e medula espinhal.
Outra mudança é a possibilidade de diagnosticar pessoas que têm lesões nos exames de imagem e preenchem os critérios para esclerose múltipla, mas não apresentam sintomas. Até então, esses pacientes eram categorizados como portadores de síndrome radiológica isolada. “Isso é importante porque podemos começar a tratar a doença antes que ela se manifeste, melhorando o prognóstico”, observa a neurologista Ana Cláudia Piccolo, coordenadora do departamento científico de Neuroimunologia da Academia Brasileira de Neurologia (ABN).
Apesar desses avanços, mais de 80% dos países enfrentam dificuldades para fazer o diagnóstico precoce, segundo a 3ª Edição do Atlas da Esclerose Múltipla, divulgado em 2021 pela federação internacional dedicada à doença. Isso se dá tanto pela falta de conscientização sobre sintomas quanto pela baixa disponibilidade de profissionais especializados e equipamentos.
O problema é que muitas pessoas passam anos com sintomas difusos, como fadiga, perda de equilíbrio ou visão embaçada, percorrendo diversos especialistas antes de chegar ao neurologista. “A porta de entrada costuma ser o ortopedista, o otorrino ou o oftalmo”, relata Piccolo. E mesmo quando o indivíduo chega ao especialista certo, pode ser em razão de outros problemas. “Às vezes, a doença é diagnosticada quando a pessoa vai investigar enxaqueca ou mesmo um traumatismo craniano, por exemplo”, observa o médico do Einstein.
Tratamento de alta eficácia
O tratamento da esclerose múltipla é individualizado e leva em conta fatores como as características da doença, o número de lesões, o estilo de vida e a rotina do paciente, além da presença de comorbidades, do prognóstico e da fase da doença.
Nos últimos anos, os medicamentos se tornaram mais específicos, permitindo evitar pioras e com menos efeitos adversos. “A evolução do tratamento permitiu maior eficácia, com menos chance de novos surtos e novas lesões no cérebro e na medula”, destaca Herval Soares Neto. “Conseguem agir de forma bem focada no sistema imunológico, com mais eficácia e mantendo a segurança.”
Com o tratamento de alta eficácia atual, há mais de 90% de chance de evitar novas lesões inflamatórias no cérebro. Existem mais de dez opções de medicamentos tanto para tratar a fase aguda quanto para a prevenção de recorrência das crises e o controle da progressão. São principalmente imunomoduladores ou imunossupressores, que podem ser aplicados via endovenosa ou em comprimidos.
Em abril, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou um novo medicamento, o ublituximabe, que será comercializado com o nome Briumvi. Trata-se de um anticorpo monoclonal que impede os linfócitos de atacarem a bainha de mielina, reduzindo as crises. “É um tratamento de uma classe que já existe no mercado, mais uma alternativa”, observa Soares Neto.
Apesar dos avanços, cada caso de esclerose múltipla ainda precisa ser cuidadosamente avaliado. “Não existe um protocolo único, uma receita de bolo, o tratamento é individualizado”, diz o neurologista. “Mas com tratamento de alta eficácia, é possível silenciar a doença por décadas.”





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