MARCELO NORONHA | Quem quer manter a ordem? Quem quer criar a desordem?
O combate ao crime organizado precisa ser firme, inteligente e coordenado. Mas precisa, acima de tudo, respeitar a soberania nacional e os limites do direito internacional.
Donald Trump Marcelo Noronha*
A decisão do governo de Donald Trump de classificar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas acende um alerta que vai muito além do combate ao crime. O tema é delicado, perigoso e abre precedentes extremamente temerosos para a soberania brasileira.
Não se trata de defender facção criminosa. PCC e Comando Vermelho são organizações violentas, responsáveis por mortes, tráfico e destruição social. O problema é outro: terrorismo, historicamente e juridicamente, sempre esteve ligado a ações com motivação ideológica, religiosa ou política. Quando os Estados Unidos passam a tratar facções criminosas comuns como grupos terroristas, mudam a interpretação do conceito e criam um caminho perigoso para futuras intervenções políticas, econômicas e até diplomáticas.
E aí surge uma pergunta inevitável: essa medida é técnica ou ideológica?
A impressão que fica é que existe um forte componente político por trás da decisão. Não por acaso, ela ocorre em um momento de tensão ideológica entre setores alinhados ao trumpismo e o atual governo brasileiro. A classificação parece atender muito mais a interesses geopolíticos e disputas narrativas do que propriamente a uma redefinição séria do combate internacional ao terrorismo.
O histórico dos Estados Unidos mostra que o selo de “terrorista” muitas vezes ultrapassa a questão da segurança e se transforma em instrumento de pressão internacional. Uma vez aberto esse precedente, quais serão os próximos passos? Sanções? Pressões diplomáticas? Tentativas de interferência em políticas internas brasileiras sob a justificativa de “combate ao terrorismo”?
O combate ao crime organizado precisa ser firme, inteligente e coordenado. Mas precisa, acima de tudo, respeitar a soberania nacional e os limites do direito internacional. Porque quando conceitos são distorcidos por conveniência política, a linha entre segurança e interferência externa começa a desaparecer.
E talvez a pergunta mais importante seja justamente essa: quem realmente quer manter a ordem? E quem, ao tencionar relações e ampliar conceitos conforme interesses ideológicos, acaba ajudando a criar ainda mais desordem?

(*) Marcelo Noronha, jornalista





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