MARCELO NORONHA | Entre a cruz e o consumo: o que ainda celebramos na Páscoa?
Talvez o maior desafio da contemporaneidade seja resgatar o sentido essencial dessas datas sem ignorar o mundo em que vivemos. Não se trata de rejeitar o consumo, mas de questionar sua centralidade.
Entre a cruz e o consumo: o que ainda celebramos na Páscoa? Marcelo Noronha*
A Sexta-feira Santa e o domingo de Páscoa carregam, em sua essência, significados profundos que atravessam séculos. Para os cristãos, são dias que representam, respectivamente, o sacrifício e a ressurreição de Jesus Cristo — dor, reflexão, renascimento e esperança. Mas, nos dias atuais, a pergunta que ecoa é incômoda: ainda estamos celebrando esses valores ou apenas consumindo símbolos vazios?
A Sexta-feira Santa deveria ser, antes de tudo, um convite ao silêncio interior. Um dia de introspecção, de confronto com nossas próprias contradições enquanto sociedade. Já o Domingo de Páscoa simboliza a possibilidade de recomeço, de reconstrução moral e espiritual. No entanto, o que se vê, cada vez mais, é a substituição desses significados por uma lógica de mercado que transforma fé em produto.
Não é difícil perceber: vitrines recheadas, campanhas publicitárias agressivas e a corrida pelos ovos de chocolate transformaram a Páscoa em mais uma data estratégica para o comércio. O símbolo do renascimento foi reduzido, muitas vezes, a embalagens sofisticadas e preços inflacionados. A celebração da vida deu lugar à celebração do consumo.
É claro que tradições evoluem. Presentear, reunir a família e compartilhar momentos também fazem parte da construção cultural dessas datas. O problema não está no gesto, mas na inversão de valores. Quando o ato de comprar substitui o ato de refletir, algo se perde no caminho.
Essa crítica não se limita ao cristianismo. Independentemente da religião ou crença, toda data com significado espiritual carrega, em sua origem, um convite à consciência — algo que parece cada vez mais raro em tempos de imediatismo e superficialidade. A fé, que deveria provocar transformação, tem sido muitas vezes domesticada para caber em campanhas promocionais.
Talvez o maior desafio da contemporaneidade seja resgatar o sentido essencial dessas datas sem ignorar o mundo em que vivemos. Não se trata de rejeitar o consumo, mas de questionar sua centralidade. De lembrar que a mensagem da cruz não é sobre conforto, mas sobre sacrifício; e que a ressurreição não é sobre excesso, mas sobre renovação.
Entre a cruz e o consumo, seguimos escolhendo, ano após ano, o que queremos celebrar. E essa escolha, mais do que qualquer tradição, é o verdadeiro reflexo da nossa fé — ou da falta dela.

Marcelo Noronha - jornalista






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