MARCELO NORONHA | Entre o mercado e a geopolítica: quem paga a conta do diesel?
Em um país cuja espinha dorsal logística depende quase exclusivamente do transporte rodoviário, qualquer oscilação no valor desse combustível reverbera diretamente no custo de vida da população
Em um país cuja espinha dorsal logística depende quase exclusivamente do transporte rodoviário, qualquer oscilação no valor desse combustível reverbera diretamente no custo de vida da população Marcelo Noronha*
O preço do diesel voltou a ocupar o centro das preocupações nacionais — e não por acaso. Em um país cuja espinha dorsal logística depende quase exclusivamente do transporte rodoviário, qualquer oscilação no valor desse combustível reverbera diretamente no custo de vida da população. O que está por trás dessa escalada? A resposta não é simples, mas passa por escolhas internas e tensões externas que, juntas, formam um cenário preocupante.
No plano doméstico, é impossível ignorar os efeitos das privatizações no setor de distribuição e refino. A fragmentação de estruturas que antes operavam sob lógica integrada trouxe, em tese, maior concorrência. Na prática, porém, o que se vê é um mercado mais suscetível às variações internacionais e menos comprometido com políticas de amortecimento de preços. Ao transferir ativos estratégicos para a iniciativa privada, o Estado abriu mão de instrumentos importantes de regulação — e, consequentemente, de proteção ao consumidor.
As distribuidoras privatizadas operam sob a lógica do lucro, o que não é novidade nem necessariamente um problema em si. O ponto crítico está na ausência de mecanismos eficazes que equilibrem esse interesse com a função social de um insumo essencial. O diesel não é um produto qualquer: ele move alimentos, medicamentos, insumos industriais. Quando seu preço sobe, sobe junto o custo do país.
No cenário internacional, a tensão geopolítica entre e adiciona mais combustível — literalmente — a essa equação. Conflitos e ameaças na região do Oriente Médio, especialmente envolvendo rotas estratégicas de petróleo, geram instabilidade nos mercados globais. O simples risco de interrupção no fornecimento já é suficiente para pressionar os preços para cima. E como o Brasil adotou uma política de paridade com o mercado internacional, qualquer abalo externo é rapidamente sentido nas bombas.
Essa política, embora tecnicamente defensável sob o argumento de alinhar preços e atrair investimentos, ignora uma realidade básica: o Brasil é produtor de petróleo. Vincular o preço interno a flutuações externas, sem considerar custos locais de produção, é uma escolha política — não uma imposição inevitável.
O resultado é um país refém de variáveis que não controla. De um lado, decisões internas que reduziram a capacidade de intervenção estatal; de outro, conflitos internacionais que elevam a volatilidade dos preços. No meio disso tudo, está o cidadão comum, que paga a conta sem participar das decisões.
É preciso, portanto, revisitar esse modelo. Não se trata de negar o mercado ou demonizar o capital privado, mas de reconhecer que certos setores exigem equilíbrio entre eficiência econômica e responsabilidade social. O diesel, pelo papel estratégico que desempenha, é um deles.
Enquanto isso não acontece, seguimos assistindo a aumentos sucessivos que, mais do que números, representam o encarecimento da vida em todas as suas dimensões. E a pergunta que permanece é incômoda, mas necessária: a quem serve esse modelo?

(*) Marcelo Noronha - jornalista






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