Tractebel anuncia desligamento da Usina de Charqueadas
Decisão surpreendeu toda a região Carbonífera, já que havia perspectiva de mais dois anos de operação
Na última sexta-feira, 6, a Engie Tractebel Energia informou que vai desativar a Usina Termelétrica (UTE) de Charqueadas em 31 de agosto. O motivo, segundo a empresa, seria a obsolescência técnica dos equipamentos e baixa eficiência da unidade, que atualmente gerava 36 megawatt (MW).
“As restrições que temos não são ambientais, pois a Usina cumpre adequadamente com o que está previsto na Licença Ambiental. Nossas restrições são de final de vida útil dos equipamentos, pois alguns deles já estão alcançando a marca de 300 mil horas de operação”, explicou o diretor-presidente da Companhia, Manoel Zaroni Torres, em nota.
No início do ano, Torres já havia informado que uma adaptação da termelétrica não era viável e que a Tractebel estava estudando alternativas de negócios para viabilizar uma nova planta, como alterações de marcos regulatórios. Os estudos, no entanto, demonstraram que uma nova usina não teria retorno financeiro em 25 anos, tempo necessário para amortização dos investimentos.
Em fevereiro, a Tractebel havia confirmado que a usina seguiria operando, após a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) ter autorizado a diminuição da potência da unidade. A redução da capacidade do complexo, de 72 MW (cerca de 2% da demanda média de energia do Estado) para 36 MW, era necessária para enquadrar o empreendimento nos critérios de eficiência da Resolução Normativa nº 500 da Aneel e assim não perder o subsídio da Conta de Desenvolvimento Energético (CDE).
O fechamento da usina, conforme a Tractebel, está alinhado com a estratégia do grupo de descarbonizar sua matriz de geração de energia.
A usina de carvão produzia energia há 54 anos, e gerava cerca de 2,4 mil postos de trabalho diretos e indiretos em toda a cadeia produtiva da região. Sem detalhar as medidas, a Tractebel informou que oferecerá garantias aos empregados.
Clima desolador
Entre os mais de 400 trabalhadores que atuam na UTE Charqueadas, somando-se funcionários da Tractebel e terceirizados, o clima é desolador.
- Ninguém na empresa nos dá uma notícia concreta sobre nossa situação. Além disso, temos muitos trabalhadores jovens e que não veem perspectivas para o futuro. Muitos têm mensalidades de universidades e prestações de financiamentos e não sabem o que farão se perderam o emprego. Alguns já estão precisando de auxílio psicológico – revela um empregado da Tractebel, que prefere não se identificar.
Quanto ao quadro de trabalhadores, de acordo com a empresa, 72 pessoas são funcionárias diretas da companhia na termelétrica de Charqueadas, mas há em torno de 2 mil empregos indiretos proporcionados na cadeia produtiva (o Sindicato dos Mineiros calcula 2,4 mil). Segundo o diretor-presidente da Tractebel, Manoel Zaroni, a empresa tem desenhado um Plano de Demissão Voluntária (PDV) para dar apoio e prêmio ao colaborador que trabalhou vários anos na companhia. A adesão dos empregados é voluntária. Há regras de prazos de adesões, datas de saídas, pagamento de um prêmio por ano trabalhado, além de assistência médica por dois anos após o desligamento. Além disso, a empresa está oferecendo a oportunidade de, em havendo vagas, os empregados de Charqueadas participarem de processos de recrutamento interno para outras usinas da companhia, como as do complexo termelétrico Jorge Lacerda (SC) e a térmica Pampa Sul (Miroel Wolowski), que está em implantação em Candiota, com entrada em operação prevista para janeiro de 2019.
Captação de água
O desligamento da UTE Charqueadas também pode prejudicar o abastecimento de água da Corsan nas cidades de Charqueadas e São Jerônimo. A captação é feita no mesmo canal que leva a água até a usina e, ainda, a elevação até a estação de tratamento ocorre por meio das bombas de captação da usina. Segundo o gerente da Corsan, Dienaro Giannechini, ocorrerá reunião entre a Gerência da Usina de Charqueadas e a Superintendência Regional da Corsan para avaliar a situação.
Comissão pede apoio ao Ministério Público
Na quinta-feira pela manhã, a Comissão em Defesa do Emprego da Região Carbonífera esteve em reunião na sede do Ministério Público do RS (MP/RS), na cidade de Porto Alegre, onde foi pedido o apoio contra o fechamento imediato da Usina Termelétrica de Charqueadas. A Comissão foi recebida pelo subprocurador Geral Fabiano Dallazen e pelo procurador Mauro Souza, e apresentou o problema que a região começa a enfrentar com o fechamento da usina e solicitou o apoio do MP/RS para a questão. Estiveram presentes à reunião representantes de todos os municípios da região.
O presidente da Associação das Câmaras de Vereadores (ACVERC), Rodrigo Marcolin, e o presidente da Nova Centra Sindical de Trabalhadores do RS (NCST/RS), Oniro Camilo, coordenadores da Comissão, entregaram um levantamento contendo todo o impacto que a desativação do empreendimento trará para a região.
Segundo Marcolin, os promotores ouviram o problema e se comprometeram em apoiar a região Carbonífera.
- Creio que com a ajuda do Ministério Público do Rio Grande do Sul a região Carbonífera terá mais um grande apoio neste momento difícil, e que a soma de forças trará o êxito na permanência dos empregos – avalia Marcolin.
NCST-RS emite nota de repúdio
Ainda na sexta-feira, 6, o presidente da Nova Central Sindical de Trabalhadores do Rio Grande do Sul (NCST-RS), Oniro Camilo, emitiu nota de repúdio ao fechamento da Usina de Charqueadas. Leia a seguir.
NOTA DE REPÚDIO AO FECHAMENTO DA USINA TERMELÉTRICA DE CHARQUEADAS
A Nova Central Sindical de Trabalhadores do Rio Grande do Sul vem a público repudiar a tomada de decisão da Engie Tractebel Energia de desativar a unidade da Usina Termelétrica de Charqueadas, em 31 de agosto de 2016.
A medida pegou a todos os trabalhadores, sindicalistas e autoridades políticas da região carbonífera de surpresa já que a Tractebel, em fevereiro, confirmou que a usina seguiria operando, pelo menos, até 31 de dezembro de 2016, após a ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica) ter autorizado a diminuição da potência da unidade de 72 MW para 36MW, o que era necessário para enquadrar o empreendimento nos critérios de eficiência da Resolução Normativa nº 500 da agência reguladora e, assim, não perder o subsídio da Conta de Desenvolvimento Energético (CDE).
A Nova Central-RS está muito preocupada com o fechamento de 2.400 postos de empregos diretos e indiretos, que advirão da desativação da usina, o que representa um baque nas cadeias produtiva e econômica de toda a região do baixo Jacuí, já que a usina termelétrica produzia energia há 54 anos.
Como forma de preservar empregos e proteger a cadeia produtiva e o desenvolvimento da região foi realizada uma Audiência Pública Contra o Desemprego na Região Carbonífera, no dia 24 de março, na cidade de São Jerônimo, promovida pela Nova Central-RS, Sindicato dos Mineiros RS e Associação das Câmaras de Vereadores da Região Carbonífera, onde foi formada uma Comissão envolvendo sindicalistas, trabalhadores, prefeitos e vereadores.
De lá para cá já aconteceram reuniões na Secretaria de Minas e Energia, em Porto Alegre e, também, no Ministério de Minas e Energia, em Brasília. Ao contrário do governo estadual e dos parlamentares presentes, tanto na reunião local, quanto na nacional, a empresa Tractebel não mostrou-se sensibilizada com a situação dos trabalhadores e, muito menos, em como ficaria a população ativa e a economia das cidades envolvidas no rol de desempregados.
Assim, a Nova Central-RS repudia todas as ações e medidas tomadas por empresas que só visam o lucro, sem preocupar-se com a consequência de atos tão cruéis, como o de jogar no limbo da economia, 2.400 famílias pertencentes aos trabalhadores do carvão e as empresas terceirizadas da usina termelétrica de Charqueadas.
A Nova Central Sindical de Trabalhadores RS também reafirma seu compromisso com a luta pelos trabalhadores que estão na iminência da perda de empregos e continuará trabalhando com afinco na proteção do desenvolvimento e na busca de soluções para alavancar as cadeias produtiva e econômica da região carbonífera.
Um fraterno abraço,
Oniro da Silva Camilo, presidente da Nova Central Sindical de Trabalhadores do RS






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