O recomeço do Museu Estadual do Carvão, em Arroio dos Ratos
Instituição que resguarda a memória da Região Carbonífera finaliza restauro após ter ficado submersa na enchente de 2024
Instituição que resguarda a memória da Região Carbonífera finaliza restauro após ter ficado submersa na enchente de 2024 Denise Milbradt e Sara Goldschmidt
No dia 1º de maio de 2024, por volta da 1h da manhã, o telefone de Jordana Bortolotti tocou. Era um dos vigilantes noturnos do Museu Estadual do Carvão, instituição que ela dirigia. Do outro lado da linha, uma frase apavorante: “Jordana, o Museu está debaixo d’água.” Ela, meio sonolenta, respondeu: “Vão tirando as coisas que eu já chego, vou avisar os demais”. O vigilante, em resposta, rebateu: “Tu não está entendendo, não tem como chegar, o Museu está debaixo d’água!”. Era o início do que Jordana define como “algo imensurável”. Era o início da maior tragédia climática enfrentada pelo Rio Grande do Sul.
Localizada em Arroio dos Ratos (RS), a instituição da Secretaria da Cultura (Sedac) ficou submersa na enchente de 2024. Quase toda a memória da Região Carbonífera sofreu algum tipo de dano. A edificação central, o pavilhão principal e as ruínas remanescentes do Museu precisaram passar por restauro. Com o término das obras previsto para este semestre, a transformação do equipamento cultural encerra a série “2 anos pós-enchente: a reconstrução da cultura”.
Diretora do Museu do Carvão à época, Jordana lembra com detalhes daqueles dias de maio. “A água subiu muito, extremamente rápido, em questão de minutos. Eu senti aquela sensação de impotência. Só pensava no trabalho que estávamos concluindo, o arquivo estava lindo, o Museu todo recuperado, estávamos com uma exposição…”, relata. Pouco se salvou. O acervo foi inundado; as fotografias, encharcadas; o arquivo histórico foi tomado pela lama e a infraestrutura dos prédios, impactada.
Quando a equipe conseguiu acessar a instituição, após o recuo da água, os trabalhos focaram no resgate dos acervos. O museológico, já seco, foi levado para uma escola no Centro da cidade. O arquivístico exigiu uma busca por um local onde se pudesse congelar os documentos. “Fomos orientados por profissionais especializados em restauro e conservação a congelar os documentos, para que não houvesse proliferação de fungos. Como tínhamos mais de 650 caixas de documentos históricos e 100 maços de documentos de grandes dimensões molhados, freezers não comportavam. Precisávamos de uma câmara fria. Então lembrei de um frigorífico aqui na região, que estava desativado”, conta Jordana.
A técnica de congelamento e descongelamento controlado e desinfecção, utilizada no processo de recuperação do acervo arquivístico do Museu do Carvão, foi aplicada pela primeira vez pela Sedac. A iniciativa foi fruto de uma parceria com o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul (IHGRGS), com recursos doados pelo Banrisul. No caso do acervo fotográfico, as imagens foram restauradas, conservadas e digitalizadas pela empresa Âmbar Cultural, do Rio de Janeiro (RJ). No mês de maio, o conjunto foi devolvido à instituição.
R$ 9 milhões em investimentos
Desde 2024, o Museu do Carvão recebeu um investimento de aproximadamente R$ 9 milhões em obras estruturais e de recuperação de seus acervos.
Ainda naquele ano, o projeto de recuperação envolveu melhorias das áreas deterioradas das edificações, principalmente rede elétrica, instalações hidrossanitárias, rebocos, pinturas, pisos, nova cobertura do pavilhão e novos sanitários. Também houve a elaboração do projeto da nova reserva técnica e o restauro dos acervos tridimensional e documental. O conjunto de ações contou com um aporte de mais de R$ 5,3 milhões, doados pelo Banrisul.
Depois, foi a vez de contratar o projeto de estabilização das ruínas do prédio de entrada, da antiga Termelétrica que deu origem ao Museu, somando-se a outras iniciativas para preservar o conjunto tombado como patrimônio cultural do Estado. O planejamento exigiu a seleção de empresa especializada em projetos envolvendo edificações históricas, para garantir a salvaguarda do patrimônio. Foram investidos R$ 349 mil oriundos do Fundo do Plano Rio Grande (Funrigs).
O pavilhão principal também passou por uma grande obra de recuperação, que incluiu a restauração da sua cobertura, execução de novas esquadrias, piso e sanitários. Além disso, foi feito um novo cercamento em todo o terreno do Museu. Nesta fase foram investidos mais de R$ 3 milhões via Funrigs. Na sequência, foram realizadas obras de higienização, conservação e restauração de cerca de 60 objetos e ferramentas do acervo museológico, danificados durante a enchente. E o restauro e a digitalização das 1400 fotografias pela equipe da Âmbar Cultural. O investimento total nessas duas etapas foi de R$ 519 mil, oriundos do Funrigs.
“O ano de 2024 testou a nossa resiliência. A enchente que atingiu o Museu Estadual do Carvão não afetou apenas estruturas e paredes, tentou levar parte da memória dos mineiros que foram fundamentais na constituição da Região Carbonífera. Mas a história do carvão é feita de superação”, destaca o diretor da instituição, Rene Brum Garra.
“O que parecia uma tarefa impossível foi se tornando factível com o comprometimento e a força de vontade da equipe, e apoio de muitas pessoas. Hoje longe da instituição, tenho certeza que fizemos um bom trabalho e que, sem dúvidas, o Museu voltou com raízes mais fortes para seguir contando a sua história”, finaliza Jordana.
O Museu fica na Rua Silvana Narvaez, 61, Centro de Arroio dos Ratos. Está aberto à visitação de segunda-feira a domingo, das 8h às 17h. Não há necessidade de agendamento.





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