Entenda por que o RS é uma das regiões mais propensas à formação de tornados
Região Sul do país, sobretudo o território gaúcho, é apontada como a segunda área mais favorável para a ocorrência desses fenômenos a nível mundial
Tornado se formou na cidade de São Miguel das Missões, no RS, em 2016 O Brasil não costuma ser lembrado como um país de tornados, mas os registros mostram que esses fenômenos são mais comuns do que se imagina — principalmente no Rio Grande do Sul. Segundo estudos meteorológicos, o Estado faz parte da segunda região mais propensa à formação de tornados no mundo, atrás apenas do centro dos Estados Unidos, conhecido como Tornado Alley.
O tema voltou à pauta após o tornado que devastou a cidade de Rio Bonito do Iguaçu, no Paraná, na última semana. A tragédia reacendeu o debate sobre as condições atmosféricas que favorecem esse tipo de evento extremo no Sul do Brasil.
— O tornado é uma coluna de ar bem concentrada dentro de uma única tempestade e tem poucos metros de diâmetro. Ele acontece no Brasil com uma certa frequência. Neste ano, já registramos 88 casos. Os mais intensos, como o do Paraná, são mais raros — explica Rachel Albrecht, professora do curso de Meteorologia da USP.
O que causa um tornado
Os tornados se formam a partir de tempestades severas, quando há instabilidade atmosférica intensa, alta umidade, correntes de ar ascendentes e mudança na direção e velocidade dos ventos em diferentes altitudes.
De modo simplificado, o fenômeno ocorre quando o ar quente e úmido vindo do Norte se choca com o ar frio e seco do Sul, criando uma poderosa corrente ascendente. Se essa massa de ar começar a girar, forma-se uma coluna de vento em rotação que pode descer até o solo.
— É como se a atmosfera fosse uma panela de pressão. Quando os ingredientes certos se combinam, o tornado pode se formar — descreve Rachel.
Onde e quantos ocorrem
Ainda não há estatísticas oficiais sobre a ocorrência de tornados no Brasil. Órgãos como o Inmet, Inpe e Cemaden não mantêm uma base de dados consolidada, o que leva universidades e grupos independentes a preencherem essa lacuna.
Um levantamento da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) identificou 581 tornados entre 1975 e 2018, sendo 411 deles na Região Sul — e 180 apenas no Rio Grande do Sul. Em 2024, os pesquisadores registraram 28 casos, dos quais 23 ocorreram em cidades sulistas.
— Sem uma base de dados sólida, fica mais difícil entender padrões, planejar políticas de prevenção e elaborar protocolos de alerta — afirma Maurício Ilha de Oliveira, pós-doutorando em Meteorologia pela UFSM e integrante do grupo PREVOTS, que monitora tempestades severas no país.
O “Corredor de Tornados” da América do Sul
Os especialistas identificam uma área conhecida como “Corredor de Tornados”, que abrange os estados do RS, SC, PR, SP, parte de Minas Gerais e Mato Grosso do Sul, além de Uruguai, Paraguai, norte da Argentina e centro-sul da Bolívia.
Essa faixa geográfica reúne fatores que favorecem a formação de tornados:
- Encontro de massas de ar quente e frio, criando um forte gradiente térmico;
- Topografia plana, que facilita a circulação das massas de ar;
- Mudança de ventos com a altitude, estimulando a rotação das nuvens;
- Presença constante de frentes frias e ciclones extratropicais.
Dificuldade de previsão
Prever um tornado é um dos maiores desafios da meteorologia. Isso porque são fenômenos extremamente localizados e de formação muito rápida — às vezes em questão de minutos.
— É impossível dizer com antecedência que uma cidade será atingida. Essa tecnologia ainda não existe nem mesmo nos Estados Unidos — explica Maurício Ilha.
Segundo o pesquisador, é possível identificar condições atmosféricas favoráveis e emitir alertas de risco para regiões amplas, mas a formação exata do fenômeno permanece imprevisível.
Tornados estão mais frequentes?
Apesar da sensação de aumento, especialistas afirmam que não há evidências de crescimento real no número de tornados no país.
— Não dá para dizer que a frequência aumentou. O que aumentou foi a divulgação, com mais pessoas registrando e compartilhando os eventos — observa Rachel Albrecht.
Ela destaca que muitos tornados ocorrem em áreas rurais, sem testemunhas ou imagens, o que dificulta a confirmação oficial.
Mudanças climáticas e desmatamento
A relação entre mudanças climáticas e tornados ainda é incerta. Pesquisadores apontam que é preciso ter séries históricas mais longas e estudos específicos para confirmar essa ligação.
— Os tornados oscilam. Há anos com mais casos, outros com menos. Não dá para afirmar que há um crescimento contínuo — avalia Karin Hornes, da UEPG.
Já o professor Renato Ramos da Silva, da UFSC, chama atenção para o impacto do desmatamento, que aumenta a vulnerabilidade das áreas atingidas.
— As árvores funcionam como barreiras naturais. Em locais desmatados, os ventos atingem diretamente as construções, aumentando os danos — explica.
Diferença entre tornado, ciclone e furacão
- Tornado: fenômeno de curta duração e diâmetro reduzido, geralmente em terra, com ventos que podem ultrapassar 300 km/h.
- Ciclone: sistema de baixa pressão que causa ventos fortes e chuvas intensas; pode se formar em grandes áreas e atingir várias regiões.
- Furacão: tipo de ciclone tropical com ventos acima de 119 km/h; é raro no Hemisfério Sul, mas o Furacão Catarina, em 2004, atingiu as costas de SC e RS com ventos de até 155 km/h.
Com a frequência de fenômenos severos e a tragédia recente no Paraná, meteorologistas reforçam a necessidade de investimentos em monitoramento, educação e protocolos de emergência. Como resume Maurício Ilha:
— Não é possível impedir um tornado, mas podemos reduzir seus impactos se tivermos alertas precisos e comunidades preparadas.
Com informações da Zero Hora






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