MARCELO NORONHA | A Turma de 88: filhos da revolução e da amizade
Não éramos apenas colegas; éramos parte de uma engrenagem humana em que cada um tinha um papel na construção do outro. A simetria entre nós é quase poética: diferentes em tudo, mas iguais na essência
Trinta e sete anos depois, lá estávamos nós outra vez Marcelo Noronha*
Eu tive oportunidade de estudar no Instituto de Educação São Jerônimo, ou Ginásio como era popularmente conhecido. Concluí o segundo grau em 1988, sendo que todo o período de ensino, ou seja, do primeiro ao terceiro ano a turma sempre foi praticamente a mesma.
Trinta e sete anos depois, lá estávamos nós outra vez. A turma de 88, reunida mais uma vez — o terceiro encontro oficial, mas, na prática, uma continuidade de algo que nunca se desfez. Sempre com quase todos presentes, como se o tempo tivesse apenas tirado férias curtas, não levado décadas. É curioso: quando estamos juntos, o calendário parece uma ilusão. O riso é o mesmo, a cumplicidade a mesma, e até o silêncio entre um gole e outro tem o mesmo som de outrora.
Há quem diga que tudo isso é coincidência, que amizades sobrevivem por afinidade ou acaso. Discordo. A filosofia talvez explique melhor — fomos colocados no mesmo espaço por algo maior. Não éramos apenas colegas; éramos parte de uma engrenagem humana em que cada um tinha um papel na construção do outro. A simetria entre nós é quase poética: diferentes em tudo, mas iguais na essência.

Tentando competir com a filosofia, arrisco dizer que somos filhos da revolução. Viemos de uma época em que ninguém podia largar a mão de ninguém. Não existia celular, nem grupo de WhatsApp, nem localização compartilhada — o que havia era confiança, olho no olho, palavra empenhada e o compromisso de estar junto. Se alguém sumisse, era preciso ir atrás de verdade. E fomos tantos, indo e vindo, mas sempre voltando.
A verdade é que nos tornamos dependentes uns dos outros — não por fraqueza, mas por afeto. Dependemos das nossas memórias coletivas, porque é nelas que nossa juventude permanece viva. É o outro quem nos devolve o espelho daquilo que fomos e, de certa forma, ainda somos.
Vivemos tempos duros, mas sem perder a leveza. Enfrentamos o mundo com o humor e a teimosia de quem acreditava que pensar era um ato de coragem. Aprendemos cedo a máxima que até hoje ecoa entre nós: “a tua cabeça é o teu mestre.”
E talvez seja isso o que nos mantém unidos: a consciência de que, mesmo depois de tantos anos, seguimos aprendendo — juntos — que o verdadeiro sentido da vida está naquilo que conseguimos preservar. E nós, a turma de 88, preservamos o que há de mais raro: a amizade que o tempo não apaga, apenas amadurece.

(*) Marcelo Noronha - Jornalista






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