João Adolfo Guerreiro
JOÃO GUERREIRO | A triste sina da canção para São Domingos
‘Dominique nique nique’
João Adolfo Guerreiro
“Dominique nique nique"
Em 1963 a freira belga artisticamente conhecida como Irmã Sorriso ou A Freira Cantora, despojadamente gravou, ao violão e voz e acompanhada do coro de algumas companheiras de convento, a canção cristã Dominique, que falava da vida do criador de sua ordem, a Dominicana - criada em 1216, há 810 anos -, São Domingos (1170 -1221).
O objetivo inicial era arrecadar fundos para o convento, mas a coisa superou superlativamente todas as espectativas, com o LP vendendo três milhões de cópias e conquistando a Europa e o mundo, chegando ao número um da parada US Billboard 100, desbancando Beatles e Elvis e recebendo dois Grammy em 1964. Um fenômeno único surgido na música belga que, já não bastasse tudo isso, ainda viraria filme de Hollywood em abril de 1966.
E quem era a Irmã Sorriso? Jeanne-Paule Marie Deckers, ou Jeanine Deckers, nasceu em 17 de outubro de 1933. Entre 1959 e 1966 foi freira dominicana, onde adotou o nome de Luc Gabriel, uma homenagem aos pais, Lucien e Gabrielle. Após desentendimentos com as madres superioras, saiu da Ordem Dominicana, permanecendo católica e tentando uma carreira musical mundana, sem obter o mesmo sucesso. Aliás, toda a gigantesca popularidade obtida por Dominique não lhe deu dinheiro, mas somente dívidas, e das grandes.
O fisco belga foi cobrar da ex-freira os impostos devidos pela vendagem do LP, só que quem viu a cor dessa grana foi a gravadora Philips (a maior parte) e o convento, eis que a religiosa fizera voto de pobreza e doara tudo para a ordem, sem recibo. Essa dívida se arrastou na justiça e foi um dos motivos alegados em sua carta de suicídio, junto com uma amiga, em 29 de março de 1985. Detalhe: elas moravam juntas e tiveram uma casa de acolhimento para crianças autistas, mas, apesar do falatório, Jeanine sempre declarou não ser lésbica.
O FILME - Lançado em 4 de abril de 1966, com Debbie Reynolds (mãe da atriz Carrie Fischer, a Princesa Leia de Star Wars) no papel principal e Ricardo Montalbán (o sr Roarke de Ilha da Fantasia e o Khan de Star Treck) como o padre Clementi, o filme era livremente baseado na vida real da Irmã Sorriso. Debbie interpretava a freira Ann, que, como Jeanine, chega a cantar ao vivo no Ed Sullivan Show, programa tipo o Sílvio Santos dos EUA, popularíssimo. Sullivan interpreta a si mesmo no filme, reproduzindo o episódio real de ter ido à Bélgica gravar a canção com as dominicanas. Detalhe: no filme, Debbie dubla (bem) o violão tocando na tonalidade de Lá Maior Dominique, enquanto Jeanine, que não gostou do filme, tocava de verdade, mas em Sol Maior.
A cantora brasileira Giane regravou Dominique em 1965, mas, na sua versão, o santo virou uma jovem que ficava "Sempre alegre esperando Alguém que possa amar O seu príncipe encantado Seu eterno namorado Que não cansa de esperar". Deixarei vídeos com as três versões citadas - a real, a do filme e a de Giane - ao final desta crônica.
Com tamanho sucesso e repercussão internacional, a canção para São Domingos virou uma triste sina para sua compositora e intérprete, dando bastante dinheiro pra muita gente e dívidas e depressão para aquela.
Basicamente a história é essa, mas existem muitos detalhes que deixei passar pra não alongar o texto em demasia. Sugiro que pesquisem sobre, pois são bem interessantes os pormenores da biografia de Jeanine.
Uma boa semana para todos. Cuidem-se, vacinem-se, vivam e fiquem com Deus.
VÍDEOS:
- Dominique - versão original, 1963 - You Tube
- Dominique - versão Giane, 1965 - You Tube
- Dominique - filme 1966 - You Tube



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