MARCELO NORONHA | Ideb sobe, políticos disputam o mérito, mas quem ensina é o professor
Bastou a divulgação dos números para que candidatos ao governo do Estado e seus apoiadores entrassem em uma verdadeira guerra de versões. Cada lado tenta esticar a corda para seu próprio campo, como se a educação pudesse ser reduzida a um troféu eleitoral
Não existe decreto capaz de ensinar um aluno a ler melhor. Marcelo Norinha *
Antes de tudo, é preciso fazer justiça. O Rio Grande do Sul avançou no Ideb conforme resultado apontado em 2026 em relação a 2025. Os indicadores melhoraram em todas as etapas da educação básica, o Estado subiu no ranking nacional e, naturalmente, a notícia foi recebida com entusiasmo. O que não demorou a aparecer, no entanto, foi a velha disputa política pela autoria do resultado.
Bastou a divulgação dos números para que candidatos ao governo do Estado e seus apoiadores entrassem em uma verdadeira guerra de versões. Uns afirmam que o mérito pertence ao governo atual. Outros garantem que a evolução é fruto de políticas iniciadas em administrações anteriores. Cada lado tenta esticar a corda para seu próprio campo, como se a educação pudesse ser reduzida a um troféu eleitoral.
Essa disputa, porém, ignora quem realmente fez o Ideb subir.
O protagonista desse resultado não ocupa gabinete, não participa de debates televisivos nem aparece em peças de propaganda. O verdadeiro protagonista está todos os dias dentro da sala de aula. É o professor que chega cedo, prepara aulas, corrige provas até tarde da noite, adapta conteúdos, acolhe alunos em situação de vulnerabilidade e insiste em ensinar mesmo quando as condições de trabalho estão longe das ideais.
Foi esse professor que enfrentou os efeitos da pandemia, recuperou estudantes com enormes déficits de aprendizagem, reorganizou calendários após as enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul e manteve viva a escola pública em um dos períodos mais difíceis da história recente do Estado.
Não existe decreto capaz de ensinar um aluno a ler melhor. Não existe discurso político que faça um estudante compreender matemática. Não existe marketing eleitoral que substitua a dedicação diária de um educador comprometido com sua profissão.
É evidente que políticas públicas importam. Investimentos, formação continuada, infraestrutura e gestão são indispensáveis para que a educação avance. Governos têm responsabilidades que não podem ser minimizadas. Mas nenhuma política educacional produz resultados sem o elo mais importante dessa cadeia: o professor.
Talvez seja justamente por isso que o reconhecimento raramente venha na mesma proporção do esforço. Quando os índices caem, muitos apontam o dedo para os docentes. Quando os índices sobem, rapidamente surgem autoridades disputando o espaço na fotografia da vitória. Os professores continuam sendo chamados para assumir as responsabilidades, mas quase nunca para receber os aplausos.
O Ideb de 2025 apontado em 2026 deveria servir para corrigir essa injustiça.
Os números mostram que a educação gaúcha foi capaz de reagir, mesmo diante de dificuldades extraordinárias. Essa recuperação tem milhares de rostos, milhares de histórias e milhares de profissionais que, longe dos holofotes, decidiram não desistir de seus alunos.
Se alguém merece ser chamado de herói dessa conquista, não é quem aparece no palanque reivindicando protagonismo. São os professores que, apesar dos salários insuficientes, da sobrecarga de trabalho, da desvalorização profissional e das constantes cobranças, continuam acreditando que ensinar é a forma mais poderosa de transformar uma sociedade.
Os candidatos ao governo podem continuar disputando a narrativa. A história, porém, registra outra verdade. O Ideb do Rio Grande do Sul não foi construído em gabinetes. Foi construído, aula após aula, por homens e mulheres que fizeram da educação um compromisso diário. São eles os verdadeiros autores dessa conquista. São eles os verdadeiros heróis do Ideb apontado em 2026.

(*) Marcelo Noronha, jornalista






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