João Adolfo Guerreiro
JOÃO ADOLFO GUERREIRO | Apenas mais um cara do pedaço
Não esqueci o que ele disse
Ozzy Osborne João Adolfo Guerreiro
Hoje moro no centro da cidade onde nasci, embora não tenha nascido no bairro Centro. Aliás, nasci num bairro 5 km distante da zona urbana da cidade, numa área de segurança onde residiam PMs, professoras, agentes penitenciários e presos. Até os 10 anos eu era um menino da Colônia, conhecido por ser filho de meus pais.
Depois, fui pra outro bairro recém-fundado, uma Cohab, onde residiam PMs, professoras, agentes penitenciários, mineiros e metalúrgicos. Era um bairro de operários e funcionários públicos, zona de assalariados. O bairro então mais bacana e considerado elite da cidade era uma vila jardim, Vila AFP, onde metalúrgicos mais graduados, empresários e profissionais liberais residiam. Fiquei 19 anos na Cohab, era um dos jovens da turma de lá.
Depois conheci uma morena, casei e fui morar, daí sim, no Centro. Foi só a partir daí que comecei, mesmo, a me considerar charqueadense, embora tenha nascido em Charqueadas. Na verdade, nasci em São Jerônimo, eis que Charqueadas era distrito deste. Na verdadeira verdade, em nenhuma das duas: sou da Colônia, nasci de parto natural em casa, assistido por parteira. Colônia, eis minha naturalidade.
E a gente reside num bairro e se torna uma das pessoas do pedaço, parte da fauna humana dali, reconhecida por seus pares. Sempre que se muda, é tudo novo e diferente. O pessoal da Colônia é o pessoal da Colônia, o pessoal da Cohab é o da Cohab, e o pessoal do Centro... Na verdade, no Centro, por muito tempo, não me senti enturmado, pelo menos não como era na Colônia e na Cohab. Depois de uns anos, porém, fui integrado à fauna dali, virei mais um cara do pedaço, hoje em dia. Sou uu cara do Centro, agora, mesmo que Colônia é Cohab ainda estejam em mim.
Tive a ideia para essa crônica pois lembrei que, décadas atrás, li numa revista de rock o Ozzy Osborne falar que na cidade dele, especificamente no bairro em que residia, ele era apenas "mais um cara do pedaço", que ia no pub, tomava um trago e jogava conversa fora, pois estava integrado com aquelas pessoas. Ali ele era apenas o Ozzy, não o metálico famoso. Achei estranho um cara famoso dizer isso.
Nunca mais esqueci o seu depoimento. Mesmo com a gigantesca diferença de status social entre um cara como eu e o Ozzy, hoje, finalmente, entendo exatamente o que ele quis dizer. Tu vira apenas "mais um cara do pedaço", na tua aldeia, pois tu fica figura manjada no lugar. Um barato isso, né?




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