MARCELO NORONHA | Quando a casa vira prisão, a desigualdade também é violência
Quando uma mulher passa anos cuidando dos filhos, da casa, dos idosos e do próprio companheiro, enquanto abre mão da carreira, da renda e da autonomia, não estamos diante de uma simples divisão desigual das tarefas domésticas. Estamos diante de uma estrut
Marcelo Noronha*
Há uma pergunta que eu considero cruel quando feita a uma mulher vítima de violência: "Por que ela não vai embora?"
Eu faria outra pergunta: o que a nossa sociedade fez para que ela pudesse ir embora?
Essa diferença não é apenas semântica. Ela revela de que lado estamos olhando para o problema.
Quando uma mulher passa anos cuidando dos filhos, da casa, dos idosos e do próprio companheiro, enquanto abre mão da carreira, da renda e da autonomia, não estamos diante de uma simples divisão desigual das tarefas domésticas. Estamos diante de uma estrutura de poder.
E poder também produz violência.
É cômodo para a sociedade responsabilizar a mulher pela permanência em uma relação abusiva. É muito mais difícil reconhecer que existe uma engrenagem social que ajuda a mantê-la naquele lugar.
Durante décadas, ensinamos às meninas que cuidar é obrigação, que maternidade exige sacrifício, que uma boa mulher mantém a casa em ordem e que a família deve ser preservada quase a qualquer preço.
Aos meninos, muitas vezes ensinamos outra coisa: que alguém cuidará deles.
Depois, quando essa mulher chega à vida adulta sem renda própria, sem carreira consolidada, sem rede de apoio e carregando sozinha a responsabilidade pelos filhos, perguntamos por que ela não rompe.
Eu considero essa pergunta uma forma de invisibilizar o problema.
Porque dependência econômica também pode ser instrumento de controle.
Controle financeiro, isolamento, ameaças, humilhações, chantagens e violência psicológica não são acidentes de uma relação. Muitas vezes, fazem parte de um processo de dominação que se constrói lentamente.
E quando a mulher não possui autonomia financeira, esse processo encontra terreno ainda mais fértil.
É por isso que eu não consigo enxergar o combate à violência contra a mulher apenas como uma questão de polícia, Judiciário e punição. Esses instrumentos são indispensáveis, mas chegam muitas vezes depois que o problema já aconteceu.
A prevenção começa muito antes.
Começa na creche pública que permite que uma mãe trabalhe.
Começa na escola em tempo integral que divide socialmente a responsabilidade pelo cuidado; Começa em políticas de emprego e renda; Começa na garantia de moradia; Começa no acesso à qualificação profissional; Começa na construção de uma rede pública de proteção capaz de dizer a uma mulher: você não está sozinha e você não precisa continuar vivendo dessa maneira para sobreviver.
É aqui que a discussão deixa de ser apenas doméstica e passa a ser política.
Porque cuidar custa dinheiro.
Cuidar consome tempo.
Cuidar limita oportunidades.
E quando o Estado não oferece políticas suficientes de cuidado, essa conta acaba sendo empurrada para dentro das famílias. Historicamente, quem paga essa conta é a mulher.
Depois, o mercado de trabalho penaliza essa mesma mulher pela maternidade. A sociedade cobra que ela cuide dos filhos. A família espera que ela cuide dos idosos. A casa exige sua presença permanente.
E ainda existe quem pergunte por que ela não consegue construir independência.
Eu considero essa lógica profundamente injusta.
Uma sociedade que deseja combater a violência contra a mulher precisa parar de tratar o cuidado como assunto privado.
Cuidar é uma responsabilidade social.
Quando uma criança precisa de creche, não estamos falando apenas de assistência à mãe. Estamos falando de desenvolvimento infantil, igualdade de oportunidades e autonomia econômica.
Quando uma pessoa idosa precisa de cuidados, não estamos apenas diante de um problema familiar. Estamos diante de uma questão social que não pode ser resolvida colocando uma mulher da família como cuidadora em tempo integral.
Quando uma mulher precisa abandonar o emprego para cuidar de alguém, existe um custo econômico e social que precisa ser reconhecido.
E quando essa mulher está presa a um relacionamento abusivo porque não possui renda suficiente para sobreviver sozinha, temos uma dimensão ainda mais grave dessa desigualdade.
A Lei Maria da Penha completa 20 anos e representa uma das maiores conquistas brasileiras no enfrentamento da violência doméstica. Mas eu acredito que o próximo passo precisa ser ainda mais profundo.
Não basta punir o agressor depois da violência.
É preciso diminuir as condições que permitem que a violência se perpetue.
Não basta dizer às mulheres que denunciem.
É preciso garantir que tenham para onde ir.
Não basta oferecer proteção depois da agressão.
É preciso construir autonomia antes dela.
E isso exige dinheiro público, políticas públicas e vontade política.
Exige governos que compreendam que creche, moradia, assistência social, educação, saúde, emprego e renda também fazem parte da política de enfrentamento à violência contra a mulher.
Eu não aceito a ideia de que cuidar de uma criança seja um problema particular da mãe.
Não aceito que a mulher seja considerada naturalmente responsável pela casa.
Não aceito que o homem seja tratado como alguém que "ajuda" dentro da própria família.
E não aceito que a sociedade cobre da mulher uma coragem individual para enfrentar um problema que também é coletivo.
A violência doméstica não é apenas uma tragédia que acontece dentro de quatro paredes.
Ela é também resultado de desigualdades que construímos do lado de fora delas.
Por isso, quando uma mulher não consegue sair de uma relação abusiva, eu não quero ouvir apenas o que ela deveria ter feito.
Eu quero saber onde estava a rede pública de proteção.
Quero saber se havia creche.
Quero saber se havia renda.
Quero saber se havia moradia.
Quero saber se havia assistência social.
Quero saber se ela tinha emprego, apoio e condições concretas para reconstruir a própria vida.
Porque liberdade sem condições materiais pode ser apenas uma palavra bonita.
E uma mulher só será verdadeiramente livre quando tiver não apenas o direito de dizer "não", mas também **as condições econômicas, sociais e políticas para fazer esse "não" ser respeitado**.
Essa, para mim, é uma das grandes batalhas que ainda precisamos enfrentar.
A violência contra a mulher não será derrotada apenas dentro das delegacias e dos tribunais.
Ela também precisa ser enfrentada dentro das casas, das escolas, dos locais de trabalho, dos orçamentos públicos e das prioridades dos governos.
Porque enquanto o cuidado continuar sendo tratado como obrigação feminina, a desigualdade continuará tendo endereço.
E, muitas vezes, esse endereço será justamente aquele lugar onde a mulher deveria se sentir mais segura: a própria casa.

(*) Marcelo Noronha, jornalista






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