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São Jerônimo, RS,06/08/2026

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MARCELO NORONHA | Quando milhões desistem de votar, a democracia também perde

A democracia depende da confiança dos cidadãos. E confiança não se impõe por obrigação legal. Ela se conquista com instituições respeitadas, representantes comprometidos e projetos capazes de despertar esperança.

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MARCELO NORONHA | Quando milhões desistem de votar, a democracia também perde Quando milhões desistem de votar, a democracia também perde
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Marcelo Noronha*

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Há um dado das últimas eleições brasileiras que deveria inquietar muito mais do que a disputa entre vencedores e derrotados. Em 2002, a abstenção no primeiro turno foi de 17,7%. Em 2006, ficou em 16,8%. Depois disso, os números passaram a crescer: 18,2% em 2010, 19,4% em 2014, 20,3% em 2018 e 20,9% em 2022. Na última eleição presidencial, mais de 31 milhões de brasileiros não compareceram às urnas.

É claro que nem toda abstenção tem a mesma origem. Há quem deixe de votar por doença, dificuldades de deslocamento, trabalho ou outras circunstâncias pessoais. Mas também seria ingenuidade ignorar que, para muitos, a ausência é uma forma silenciosa de expressar desencanto com a política e de dizer que não se reconhecem nas opções apresentadas.

Costumamos tratar a democracia como um campeonato em que basta saber quem venceu. Não basta. A verdadeira saúde democrática não se mede apenas pela diferença de votos entre os candidatos, mas também pelo interesse da população em participar da escolha. Quando mais de 30 milhões de brasileiros ficam fora desse processo, há um sinal de alerta que não pode ser tratado como simples estatística.

Governos comemoram vitórias. Oposições lamentam derrotas. Analistas discutem mapas eleitorais, estratégias e alianças. Enquanto isso, uma multidão de eleitores permanece invisível. Não aparece nos discursos da vitória nem nas explicações da derrota. São milhões de brasileiros que, por diferentes razões, não participaram da decisão sobre os rumos do país. Ignorar essa parcela do eleitorado é fechar os olhos para uma ferida que se aprofunda a cada eleição.

A democracia depende da confiança dos cidadãos. E confiança não se impõe por obrigação legal. Ela se conquista com instituições respeitadas, representantes comprometidos e projetos capazes de despertar esperança. Quando a política deixa de inspirar confiança, o comparecimento às urnas deixa de ser um ato de cidadania entusiasmado e passa a ser, para muitos, apenas uma obrigação burocrática.

Não escrevo estas linhas para julgar quem deixa de votar. Muito pelo contrário. Confesso que, olhando para a eleição de 2026, também não encontro grandes motivos para me entusiasmar com a ida às urnas. Continuo acreditando que a democracia é o melhor caminho. Mas também acredito que ela precisa fazer sua parte. Não basta exigir que o cidadão compareça. É preciso oferecer candidatos, ideias e projetos que façam esse cidadão sentir que vale a pena sair de casa para escolher. Quando isso deixa de acontecer, não é apenas o eleitor que perde. A democracia inteira paga o preço.


(*) Marcelo Noronha, jornalista


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