João Adolfo Guerreiro
JOÃO ADOLFO GUERREIRO | Inimigos da cultura e dos livros?
Havia uma pedra no meio do caminho
João Adolfo Guerreiro
Havia uma pedra no meio do caminho
No meio do caminho havia uma pedra
Mas, ao contrário do poeta mineiro Drummond, alguém não fez poema: juntou-a e lançou contra o vidro da Biblioteca Municipal Vera Gauss. O depredador deve odiar poesia, ter repulsa a romances, nojo de contos e asco de crônicas. Sua pedra rasgou o ar de domingo, inimiga da cultura, ferindo-a com sua ignorância e brutalidade.
Sim, a biblioteca Vera Gauss foi novamente depredada no último final de semana. A Vera é uma sobrevivente. Resiste bravamente a uma porção de coisas, o vandalismo uma delas. Todavia, é amada por funcionários, usuários e escritores e escritoras locais. É uma mãe que os acolhe, uma parceira que anda junto, uma irmã que partilha, uma amiga de letras e de jornada. Em seus livros reside a história do mundo, escrita à mão pelas pessoas, através dos séculos, conectando-as no presente, de crianças a idosos.
A Vera é palco de saraus, clubes, palestras, contações, bate-papos, estudos, leituras e mais. As janelas da Vera se abrem para o mundo ante o céu azul do Parcão e para o universo ante as estrelas. A Vera é única, num local único, eis que o céu de Charqueadas é único. Mas, incrivelmente, tem inimigos.
Tra lá lá, que gente é essa? Como ser inimigo de algo tão bom e que só faz bem? Os inimigos dos livros atiram pedras na biblioteca que dá frutos. Os inimigos da cultura atacam à noite a Vera indefesa. Vera não tem descanso, mas resiste, sobrevive, pois é amada.
A Vera é nossa.





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