João Adolfo Guerreiro
JOÃO ADOLFO GUERREIRO | Oncobus
Aparelho estragado, busão zerado
João Adolfo Guerreiro
Aparelho estragado, busão zerado.
O oncobus chega 5 da matina. Novo, quase zerado, espaçoso, cômodo, 28 lugares. Mas leva mais gente, logo, mais voltas pela cidade catando pacientes-passageiros. E viagem mais longa. Tudo ok, o conforto compensa a demora. Dá pra dormir entre SJ e Câmara e acordar só na entrada de Santa Cruz.
9 horas é a radioterapia. Na recepção a moça dá a má notícia:
- A máquina estragou. Agora só amanhã. Avisei por WhatsApp às 7e meia.
- Nesse horário estávamos na estrada, desde às cinco.
- Pena. Manda WhatsApp até as 16horas pra saber se ela estará funcionando amanhã.
O que fazer? Pequeno tour pelo centro de Santa Cruz, na rua principal. Igreja, praças, monumentos, prefeitura, biblioteca e centro de cultura. Comprar jornais da cidade, antigo costume. Comer alguma coisa. Até a hora da volta. E aí outra diferença em relação ao oncotráfego na oncovan. Por esta, a saída é entre as 11 e o meio-dia, dependendo dos atendimentos e tratamentos dos passageiros-pacientes. Já no oncobus, como disse, vem mais gente... demora mais. 13 horas e 10 minutos, com quase todos sentados, o oncobus inicia a viagem de volta. Só o passageiro da quimioterapia e seu acompanhante ficaram, pois são 5 horas de procedimento. Viagem confortável. Dá pruma nova soneca. 1 hora e meia até Charqueadas, por aí. Lá, serão voltinhas pela cidade.
Na volta, perco o sono, mas, ao contrário da canção, não choro nem quase desespero. Resolvo ler a revista que comprei. Materia longa sobre os 70 anos de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Grande Sertão... Rio Grande... Rio Grande: Estradas. Vale Verde, Passo do Sobrado. Rio Grande: Estradas. Asfaltadas e de terra. Casas, casas abandonadas, plantações, eucaliptos, figueiras, cavalos, vacas, coxilhas, maricás, sangas, açudes, um careca sem camisa capinando na horta, Jacuí cheio, o imenso céu azul recheado de sol, inesperado para um início de agosto de inverno e a mata lindamente verde como os olhos de Diadorim. Apois, mano Riobaldo. Vamo e vamo.
Chegamos em Charqueadas, parada no posto pra abastecer. E pra urinar. Parada pra urinar na ida, parada pra urinar na volta. Urinar no hospital. A radioterapia age forte sobre o sistema urinário dos passageiros-pacientes idosos. Envergonha-os, incomoda-os, irrita-os. Viver é sobreviver! A velhice obra seu preço sobre os afortunados que nela chegam. Às 16 horas, descemos na porta de casa. Todos fizeram o seu melhor e venceram neste dia. Vencemos! Tudo garantido pelas esferas estatais para pessoas que, sem todo e$$e apoio, nem teriam condiçõe$ de sair do pátio pra lutar pela vida.
"Tudo vale a pena, se a alma não é pequena". Não há o que reclamar, só a agradecer. Deus existe e age através da gente. Somos agentes do seu milagre. Que o céu azul do Rio Grande seja doce para todos que, de uma forma ou de outra, no passado e no presente, lutaram para lhes possibilitar vencer nesse dia.
Santo oncobus, anjo motorista.





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