Câncer de estômago é cada vez mais comum em adultos jovens
Pesquisa internacional mostra aumento da incidência em pessoas com menos de 50 anos, enquanto casos diminuem entre idosos em diversos países
Pesquisa internacional mostra aumento da incidência em pessoas com menos de 50 anos, enquanto casos diminuem entre idosos em diversos países Gabriela Cupani
da Agência Einstein
Tradicionalmente associado ao envelhecimento, o câncer de estômago (ou gástrico) começa a aparecer em um novo perfil de pacientes. Um estudo internacional publicado em abril na revista científica Cancer Biology & Medicine identificou aumento da incidência da doença entre adultos jovens nos últimos anos, ao mesmo tempo em que os casos vêm diminuindo nas faixas etárias mais velhas em diferentes países.
Atualmente, esse é o quinto tumor mais frequente no mundo, com quase 1 milhão de novos casos por ano. Apesar dos avanços no diagnóstico e no tratamento, a doença ainda costuma ser descoberta em fases avançadas, reduzindo as chances de cura e contribuindo para altas taxas de mortalidade, inclusive em nações de alta renda.
Segundo a pesquisa, o Leste Asiático concentrou quase 54% dos cerca de 968 mil casos registrados mundialmente em 2022, além de 48% das aproximadamente 660 mil mortes associadas ao tumor. Os pesquisadores alertam que a mudança no perfil etário da doença levanta preocupações sobre fatores de risco emergentes e reforça a necessidade de estratégias de prevenção e diagnóstico precoce também entre populações mais jovens.
Os autores avaliaram dados de 2003 a 2017 do GLOBOCAN 2022, que reúne informações de 185 nações. Nesse período, a incidência caiu de modo geral, mas aumentou em países como Nova Zelândia, África do Sul, além de regiões da Europa e das Américas. Também houve uma tendência de crescimento entre mulheres.
“O aumento dos casos de câncer gástrico em adultos jovens tem chamado atenção internacionalmente. Hoje sabemos que pessoas nascidas entre as décadas de 1980 e 1990 apresentam taxas significativamente maiores do que gerações anteriores”, observa o oncologista Roberto Pestana, do Einstein Hospital Israelita.
Essa faixa etária costuma apresentar condições como câncer gástrico difuso hereditário e síndrome de Lynch, mas elas explicam apenas cerca de 3% das ocorrências. “A maioria dos casos ocorre de forma esporádica e parece estar relacionada a mudanças comportamentais, ambientais, alimentares e metabólicas”, afirma Pestana.
A bactéria Helicobacter pylori (H. pylori) continua sendo o principal fator de risco conhecido, responsável por aproximadamente 90% dos casos de câncer gástrico não cárdia, nome da região próxima à transição entre esôfago e estômago. Estudos mostram que sua erradicação pode reduzir em 40% a 50% a incidência desse tumor.
Nos últimos 50 anos, medidas de prevenção relacionadas a higiene e melhores condições socioeconômicas levaram à queda da incidência desse tipo de câncer em pessoas mais idosas e em vários países asiáticos. “Melhorias sanitárias, maior acesso ao diagnóstico e mudanças nos hábitos alimentares, especialmente redução do consumo de sal e melhor conservação dos alimentos, também tiveram impacto importante”, diz o oncologista.
No entanto, em contraste com a queda geral, a alta de casos no público com menos de 50 anos, especialmente nos países que apresentavam baixa incidência, pode ser atribuída a fatores como aumento da obesidade, refluxo gastroesofágico, alterações alimentares e no microbioma gástrico.
Prevenção e tratamento
O cenário atual traz novos desafios para prevenção, diagnóstico e tratamento. “Esses tumores de início precoce parecem ter características biológicas próprias e frequentemente apresentam comportamento mais agressivo”, destaca Roberto Pestana. “Além disso, como o câncer gástrico ainda é pouco suspeitado em pacientes jovens, muitos casos acabam diagnosticados em estágios avançados.”
Além da H. pylori, outros fatores de risco importantes incluem tabagismo, consumo excessivo de álcool, dietas ricas em produtos processados, obesidade, infecção pelo vírus Epstein-Barr, histórico familiar e algumas síndromes genéticas hereditárias. Em relação à prevenção, a principal estratégia continua sendo identificar e tratar a infecção por H. pylori. Também são recomendadas medidas como reduzir o consumo de álcool, evitar o tabagismo, controlar o peso corporal e manter hábitos alimentares saudáveis.






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