MARCELO NORONHA | ‘A inflação medida não bate com a minha’
Os números oficiais dizem uma coisa. O bolso do trabalhador brasileiro diz outra. E quando as contas chegam, fica difícil convencer alguém de que a inflação está ‘sob controle’ apenas porque os índices apontam uma desaceleração momentânea.
A realidade enfrentada pelas famílias brasileiras parece muito distante dessa matemática oficial. Marcelo Noronha*
Os números oficiais dizem uma coisa. O bolso do trabalhador brasileiro diz outra. E quando a conta do supermercado, da gasolina, da energia elétrica e da água chega no fim do mês, fica difícil convencer alguém de que a inflação está “sob controle” apenas porque os índices apontam uma desaceleração momentânea.
Os dados mais recentes divulgados pelo IBGE mostram que o INPC de abril de 2026 ficou em 0,81%, acumulando 4,11% nos últimos 12 meses. O índice é utilizado como referência para reajustes salariais e benefícios previdenciários. Mas a realidade enfrentada pelas famílias brasileiras parece muito distante dessa matemática oficial.
A própria composição da inflação ajuda a explicar essa sensação. Segundo o IBGE, os maiores impactos recentes vieram justamente da alimentação e dos custos essenciais da vida cotidiana. Em abril, o grupo “alimentação e bebidas” teve alta de 1,37%, enquanto os gastos com habitação também avançaram.
Na prática, o trabalhador sente aumentos muito acima dos índices gerais. A energia elétrica continua pressionando o orçamento doméstico, com reajustes aprovados pela Aneel em diversas regiões do país e a volta das bandeiras tarifárias. No Rio Grande do Sul, as tarifas de água também sofreram reajuste neste ano, ampliando ainda mais o peso das despesas básicas dentro de casa.
O problema não está apenas nos números oficiais, mas na distância entre a inflação calculada pelos institutos e a inflação vivida na mesa da cozinha. Porque quem depende de salário percebe rapidamente que itens indispensáveis sobem muito mais do que os índices usados para corrigir os próprios salários.
Quando a gasolina sobe, aumenta o transporte, o frete e os alimentos. Quando a energia sobe, sobe o custo da vida inteira. Quando a água fica mais cara, não existe escolha: paga-se ou falta o básico. E enquanto isso, os reajustes salariais seguem limitados por indicadores que parecem cada vez menos compatíveis com a realidade cotidiana.
Existe ainda um aspecto importante que os gráficos não mostram: inflação não é sentida da mesma forma por todas as classes sociais. Para famílias de baixa renda, alimentação, energia e transporte representam uma parcela muito maior do orçamento. Ou seja, justamente os itens que mais pesam no bolso acabam tendo um impacto social muito maior do que a média estatística consegue representar.
Por isso cresce a sensação de que os índices econômicos já não traduzem fielmente a vida real. Não porque os dados sejam falsos, mas porque médias nacionais muitas vezes escondem a dureza do cotidiano de quem precisa escolher entre abastecer o carro, pagar a luz ou completar a compra do mês.
No fim das contas, a inflação que importa não é apenas a divulgada em tabelas. É aquela sentida todos os dias por quem trabalha e percebe que o salário encolhe diante do custo crescente da sobrevivência.

(*) Marcelo Noronha, jornalista






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