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São Jerônimo, RS,15/05/2026

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Cansaço e ganho de peso podem esconder alteração na tireoide por anos

Estimativas brasileiras apontam que mais de 60% das pessoas com disfunção tireoidiana não sabem que têm a doença, e o caminho até a descoberta começa, na maioria das vezes, em um exame de rotina que ninguém pediu.

Reprodução
Cansaço e ganho de peso podem esconder alteração na tireoide por anos
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A queixa chega quase sempre da mesma forma no consultório do
endocrinologista. A pessoa diz que vive cansada, que ganhou peso nos últimos
meses sem motivo aparente, que sente frio quando ninguém mais sente, que o
cabelo está caindo mais do que o normal.

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Faz exercício, corta carboidrato, dorme oito horas, e mesmo
assim a balança sobe. Já passou pelo clínico geral, pelo nutricionista, em
alguns casos pelo psiquiatra, antes de alguém finalmente pedir uma dosagem de
TSH. O resultado costuma surpreender. Não é preguiça, não é falta de força de
vontade, não é depressão. É a tireoide trabalhando devagar.

A glândula em forma de borboleta localizada na base do
pescoço regula o ritmo do metabolismo inteiro, e quando ela falha, o corpo
desacelera por completo. Os números brasileiros sobre o problema são
expressivos e, ao mesmo tempo, pouco conhecidos pela população em geral.

Quinze por cento dos brasileiros têm algum problema de
tireoide, e a maioria não sabe

Dados do IBGE indicam que cerca de 15% da população
brasileira convive com alguma disfunção tireoidiana, percentual que sobe para 15%
também na faixa acima dos 45 anos segundo levantamentos do Ministério da Saúde.
A Organização Mundial da Saúde estima que mais de 300 milhões de pessoas no
mundo apresentam algum tipo de alteração na glândula.

O dado mais preocupante, porém, não é a prevalência. É o
subdiagnóstico. Estimativas do próprio Ministério da Saúde indicam que
aproximadamente 60% das pessoas com doença de tireoide nunca foram
diagnosticadas, o que significa milhões de brasileiros tratando isoladamente
sintomas que, na verdade, têm uma causa única.

Mulheres são as mais afetadas. Estudo de base populacional
realizado no município do Rio de Janeiro com colaboração de pesquisador do IBGE
encontrou prevalência de hipotireoidismo de 12,3% entre mulheres acima de 35
anos, e positividade para anticorpos anti-TPO em 14,5% da amostra.

A faixa entre 40 e 49 anos é a que apresenta maior número de
casos de hipotireoidismo subclínico, segundo levantamento realizado no Hospital
da Polícia Militar de Goiás entre 2015 e 2016.

Na Região Carbonífera, onde muitas trabalhadoras conciliam
jornadas longas em serviços, comércio e cuidado familiar, o cansaço crônico
costuma ser justificado pela rotina e raramente é investigado como sintoma
médico. O diagnóstico tardio, nesse cenário, é regra.

Os sinais que confundem médico e paciente

Para a Dra. Camila Souza Farias, endocrinologista em
Goiânia, o problema de identificar uma disfunção tireoidiana está
justamente na inespecificidade dos sintomas. Quase nada do que a doença produz
é exclusivo dela.

Pessoas com hipotireoidismo relatam cansaço constante,
dificuldade para emagrecer, sensação de frio fora de hora, prisão de ventre,
queda de cabelo, pele ressecada, lentidão de raciocínio, alterações de humor e,
em mulheres, irregularidade no ciclo menstrual.

Qualquer um desses sintomas, isolado, pode ser atribuído a
estresse, má alimentação, sono ruim ou idade. A combinação, no entanto, costuma
desenhar um quadro reconhecível para quem entende do tema.

Já o hipertireoidismo apresenta o caminho inverso. Perda de
peso sem causa aparente, taquicardia, tremores nas mãos, ansiedade, insônia,
intolerância ao calor e sudorese excessiva.

É comum que o paciente seja inicialmente tratado para
transtorno de ansiedade antes que alguém olhe para a glândula. A condição é
cerca de dez vezes mais frequente em mulheres do que em homens, atingindo
aproximadamente 2% a 3% da população feminina contra 0,2% da masculina.

A SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e
Metabologia) recomenda investigação laboratorial em qualquer pessoa com
sintomas sugestivos, e dosagem de rotina em mulheres acima de 35 anos. Na
prática, a recomendação não é seguida amplamente, e o exame só costuma ser
solicitado quando o paciente já passou por outras consultas sem solução.

Quando o caminho certo é o especialista

Em quadros leves de hipotireoidismo subclínico, o clínico
geral acompanha bem. O problema aparece quando há nódulos, quando o tratamento
padrão não responde, quando há doença autoimune associada, ou quando os sintomas
envolvem ganho de peso resistente, infertilidade, alterações de menopausa
misturadas a disfunção tireoidiana, ou suspeita de doença de Graves.

Nesses casos, procurar um especialista em tireoide faz diferença concreta no
resultado do tratamento. O endocrinologista trabalha com TSH ultrassensível, T4
livre, anticorpos anti-TPO e anti-tireoglobulina, ultrassom de tireoide quando
indicado, e ajusta a dose da levotiroxina com base em parâmetros que vão além
do simples enquadramento do exame na faixa de referência.

A maior parte das clínicas particulares de endocrinologia em
Goiânia, por exemplo, recebe semanalmente pacientes vindos de outros estados,
atraídos por avaliações que conseguem decifrar casos que ficaram parados por
anos em outros consultórios.

O turismo médico em Goiás, aliás, cresceu nos últimos cinco
anos justamente puxado por especialidades como endocrinologia, ortopedia e
cirurgia minimamente invasiva.

Para o paciente da Região Carbonífera ou de qualquer outra
parte do país, vale verificar antes da consulta a formação do profissional, a
presença do título de especialista pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia
e Metabologia, e o tempo de atuação na subárea de tireoide. Não são detalhes
irrelevantes. Definem a qualidade da decisão clínica.

O ciclo da dieta que não funciona

Uma das consequências mais frustrantes da disfunção de
tireoide não diagnosticada é o padrão de oscilação de peso que se instala. A
pessoa emagrece com esforço enorme, geralmente cortando calorias além do
necessário, e meses depois recupera tudo, às vezes com sobra.

Esse fenômeno tem nome técnico, o chamado efeito sanfona, e
a literatura médica já o descreve como um processo metabólico próprio, e não
apenas como falha de disciplina.

Estudos recentes explicam que a pessoa que emagrece e volta a ganhar peso pouco tempo depois passa
por um processo em que o corpo aprende a defender o peso anterior reduzindo o
gasto energético basal. Quando há disfunção tireoidiana de fundo, esse efeito é
amplificado, porque a glândula já estava operando em ritmo lento antes da dieta
começar.

O resultado é cruel. A paciente recebe a mensagem de que
falhou, quando na verdade nunca houve condição metabólica para o tratamento dar
certo. Sem corrigir o hormônio tireoidiano, qualquer dieta agressiva tende a
recuperar todo o peso perdido em prazo curto, e às vezes acrescenta mais alguns
quilos ao quadro.

Em consultórios de endocrinologia em Goiás, em São Paulo, em
Porto Alegre, o relato se repete com pequenas variações. Mulheres entre 35 e 55
anos que já tentaram três, quatro, cinco abordagens diferentes de emagrecimento
antes de descobrirem que o problema era hormonal o tempo todo.

A informação ruim que circula sobre tireoide

Um efeito colateral da popularização do tema é a quantidade
de desinformação que aparece em redes sociais. Vídeos curtos prometem cura para
hipotireoidismo com chá de hortelã, dietas que "destravam o
metabolismo", suplementos importados que prometem normalizar TSH em duas
semanas. Quase tudo é mentira, e parte é perigoso.

Pacientes que substituem o tratamento médico por receitas
caseiras chegam meses depois ao consultório com TSH acima de 50, sintomas
graves de hipotireoidismo descompensado, e em alguns casos coma mixedematoso,
condição que pode ser fatal. A glândula tireoide não responde a fórmulas de
internet. Responde a hormônio sintético, ajustado com precisão de microgramas.

Por outro lado, há conteúdo sério disponível online quando
se sabe onde procurar. Perfis de endocrinologistas
no Instagram
 geralmente informam com clareza o que cada exame mede, o
que cada sintoma sugere e quando vale a pena marcar consulta.

Acompanhar profissionais com formação verificável, CRM ativo
e linguagem responsável é uma forma de filtrar a quantidade de ruído que
circula sobre o tema.

A diferença entre o conteúdo médico bem-feito e a
desinformação está, geralmente, no que o conteúdo evita prometer. Quem afirma
cura rápida, geralmente, mente. Quem explica processo, expectativa realista e
limitação do tratamento, geralmente, sabe do que está falando.

O que fazer agora

Para quem se reconheceu no quadro descrito, o primeiro passo é simples. Solicitar ao clínico geral, ao ginecologista ou diretamente em um laboratório, a dosagem de TSH e T4 livre. O exame custa pouco, é coberto pelo SUS e pela maior parte dos planos de saúde, e tem resultado em até 48 horas.

Com o exame em mãos, a interpretação fica mais clara. TSH alto com T4 baixo indica hipotireoidismo clínico. TSH alto com T4 normal sugere hipotireoidismo subclínico. TSH baixo com T4 alto aponta hipertireoidismo. Cada cenário pede conduta diferente, e nenhum deve ser conduzido por conta própria.

A doença é tratável. Em mais de 90% dos casos, o controle adequado devolve a qualidade de vida em poucos meses. O que mantém a pessoa doente por anos não é a doença em si. É o atraso no diagnóstico. E esse atraso, em quase todos os casos analisados, começou com um sintoma que ninguém levou a sério.

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