MARCELO NORONHA | Entre o alívio imediato e a solução real: sem poder de compra, não há saída para o endividamento
Renegociar dívidas, oferecer descontos e liberar parte do FGTS pode devolver fôlego imediato a milhões de pessoas. Mas é preciso dizer com clareza: programas assim funcionam como analgésicos — aliviam a dor, mas não curam a doença
Marcelo Noronha (*)
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou, em 4 de maio de 2026, a MP que cria o Desenrola 2.0, dando início imediato ao programa de renegociação de dívidas. Essa medida surge como uma resposta rápida a um problema que já não cabe mais debaixo do tapete: o endividamento em massa dos brasileiros. É uma medida necessária? Sim. Suficiente? Longe disso.
Renegociar dívidas, oferecer descontos e liberar parte do FGTS pode devolver fôlego imediato a milhões de pessoas. Mas é preciso dizer com clareza: programas assim funcionam como analgésicos — aliviam a dor, mas não curam a doença. E o risco é conhecido. Quando o efeito passa, o problema pode voltar ainda mais forte, especialmente se as condições que levaram ao endividamento permanecerem intactas.
O ponto central que precisa entrar no debate é o poder de compra da população. Não há política de renegociação que se sustente em um cenário de renda comprimida, inflação pressionando o básico e crédito caro. Se o brasileiro continua ganhando pouco e pagando muito para viver, qualquer alívio será temporário. O ciclo se repete: renegocia, respira, consome, se endivida novamente.
Por isso, mais do que “desenrolar” dívidas, o governo precisa “desenrolar” a economia real — gerar renda, melhorar salários, fortalecer o mercado de trabalho e criar condições para que as famílias não dependam constantemente de crédito para sobreviver. Sem isso, o programa corre o risco de ser apenas mais um capítulo de uma política que administra a crise, mas não a resolve.
Por outro lado, há um ponto em que o governo acerta ao mirar: o impacto das apostas esportivas no orçamento das famílias. O crescimento descontrolado das chamadas “bets” tem contribuído para um novo tipo de endividamento — mais impulsivo, mais rápido e, muitas vezes, mais destrutivo. Aqui, não basta sinalizar; é preciso agir com firmeza. Regulamentação mais dura, limites claros e fiscalização efetiva não são moralismo — são proteção econômica e social.
Combater esse tipo de drenagem de renda é tão importante quanto renegociar dívidas já existentes. Afinal, de pouco adianta limpar o nome hoje se amanhã o dinheiro volta a escorrer por um sistema que lucra com a vulnerabilidade.
No fim, o Desenrola 2.0 pode ser uma ponte — mas não pode ser o destino. Sem aumento real do poder de compra e sem enfrentamento sério de fatores que incentivam o endividamento, o país continuará preso a soluções paliativas. E paliativos, quando viram regra, deixam de ser solução e passam a ser parte do problema.

(*) Marcelo Noronha, jornalista






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