CPMI do INSS prende ex-diretor ligado ao ‘Careca do INSS’ por falso testemunho
Rubens Oliveira Costa é acusado de mentir à comissão, movimentar mais de R$ 350 milhões e entregar quase R$ 1 milhão em espécie a Camilo Antunes; prisão ocorre em semana de tensão política entre Congresso e STF
Rubens Costa entre o presidente da CPMI, senador Carlos Viana, e o advogado de defesa, Carlos Urquisa A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que apura fraudes bilionárias contra aposentados e pensionistas do INSS determinou, na noite desta segunda-feira (22), a prisão em flagrante do economista Rubens Oliveira Costa. Ex-diretor financeiro de empresas controladas por Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, Costa foi detido sob acusação de falso testemunho, após mais de sete horas de depoimento conturbado.
A ordem foi dada pelo presidente da comissão, senador Carlos Viana (Podemos-MG), com apoio de parlamentares da base e da oposição. A Polícia Legislativa executou a prisão às 20h25. Costa deixou o Congresso apenas de madrugada, após pagar fiança, mas seguirá respondendo às acusações em liberdade.
Contradições e silêncio
O economista chegou à sessão amparado por um habeas corpus concedido pelo Supremo Tribunal Federal (STF), o que lhe permitia não responder a determinadas perguntas. Ao longo da oitiva, foi questionado por cerca de 30 parlamentares, mas evitou dar explicações sobre sua ligação com empresas de fachada que movimentaram mais de R$ 350 milhões entre 2023 e 2024.
Ainda assim, admitiu ter entregue R$ 949 mil em espécie a Camilo Antunes, apontado como o chefe da organização criminosa que fraudava benefícios previdenciários.
O relator da CPMI, deputado Alfredo Gaspar (União-AL), sustentou que Costa omitiu informações e tentou ocultar documentos.
— Esta CPMI não vai ser o local para a impunidade. Se ele é laranja pouco me importa. Derrubando uma laranja podre, a gente termina alcançando o bicho que está apodrecendo as laranjas. Este cidadão participou de crimes gravíssimos contra aposentados e pensionistas — afirmou.
O vice-presidente da comissão, deputado Duarte Jr. (PSB-MA), também pediu a prisão, argumentando que Costa teve “participação inequívoca” no esquema.
— Nós não podemos aceitar que brinque com a cara dos aposentados, que roube os pensionistas e ainda venha aqui mentir com a maior cara lavada — disse.
Repercussão entre parlamentares
Senadores e deputados presentes classificaram o depoimento como “pouco crível”. O senador Izalci Lucas (PL-DF) disse estranhar que alguém trabalhasse em empresas que movimentaram milhões sem desconfiar de nada. Rogério Marinho (PL-RN) afirmou que a versão apresentada por Costa era “absolutamente inverossímil”.
Já o senador Sergio Moro (União-AL) apontou que os fatos revelam um clássico caso de lavagem de dinheiro:
— Houve uma simulação de prestação de serviços para praticar estelionato contra aposentados e pensionistas. São fraudes documentais em série, que colocam em risco a ordem pública e o andamento das investigações — declarou.
Novos desdobramentos
Durante a sessão, parlamentares também levantaram suspeitas sobre assessores de políticos que teriam ligações com o esquema. O deputado Kim Kataguiri (União-SP) pediu a convocação de Gustavo Marques Gaspar, ex-assessor do senador Weverton (PDT-MA). Já Zé Trovão (PL-SC) solicitou a convocação de Paulo Augusto de Araújo Boudens, ex-assessor do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP).
Costa confirmou ter sido alvo de mandado de busca e apreensão da Polícia Federal e que teve cerca de R$ 300 mil bloqueados pela Justiça. Questionado pela senadora Leila Barros (PDT-DF) sobre ligações com ex-ministros e ex-dirigentes do INSS, preferiu não responder.
O depoimento de Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, está marcado para quinta-feira (25) e deve ser o ponto alto da CPMI, com expectativa de revelar nomes de políticos supostamente beneficiados pelo esquema.
Conexão com crise política
A prisão ocorre em meio a um ambiente de forte tensão entre os Poderes. No mesmo dia, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), barrou a indicação do deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) para a liderança da minoria, decisão que pode levar à cassação do mandato do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Para analistas políticos, as medidas da CPMI e da Câmara indicam que setores do Congresso buscam endurecer a fiscalização e se distanciar de figuras associadas a escândalos ou confrontos com o Supremo Tribunal Federal, que também vive dias de atrito com o Legislativo após as sanções impostas pelos Estados Unidos ao ministro Alexandre de Moraes e à sua esposa.
O que vem pela frente
A CPMI deve votar ainda nesta semana novos requerimentos de convocação e de quebra de sigilos. Parlamentares avaliam que a prisão de Costa pode abrir caminho para delações e ampliar a pressão sobre o “Careca do INSS”.
Enquanto isso, cresce no Congresso a avaliação de que as investigações podem atingir figuras de destaque na política nacional, transformando a comissão em um dos principais focos da agenda legislativa no fim de 2025.





COMENTÁRIOS