João Adolfo Guerreiro
JOÃO ADOLFO GUERREIRO | O escritor após o ‘seu Everest’
Sobre escritores e escritoras no seu ápice
João Adolfo Guerreiro
Na Cordilheira do Himalaia, mais precisamente entre o Nepal e o Tibete, encontra-se a montanha mais alta do planeta: o Everest, com seus 8.848,86 metros - e ainda crescendo! Os alpinistas que chegam ao seu cume atingiram o teto do mundo. Alguns voltam a escalá-lo, até mesmo morrendo na tentativa, pois a adrenalina e a vaidade são ótimas cachaças. E os escritores, após escreverem seu grande livro?
Pois então, alguns exemplos podem ser analisados, a respeito. A primeira pergunta é: Como o escritor ou a escritora sabem que atingiram o "seu Everest" literário? Como escreveu Clarice Lispector - e eu A D O R O repetir - "Quem vive, sabe". No caso, pela repercussão e pelas vendas, quando tais alcançam aquilo a que nos dias atuais chamamos de "fora da curva". Sendo assim, passo a mencionar neste ensaio alguns nomes a fim de responder a pergunta inicial.
Sinto a tentação de colocar Emily Bronte e o seu O Morro dos Ventos Uivantes (1847) aqui, embora essa não tenha escrito mais nada por ter falecido precocemente, aos 30 anos. Contudo, aproveito isso: alguns escritores e escritoras de notório sucesso não publicam mais após seu magnum opus. É justo o caso de Margaret Mitchell, autora de ...E O Vento Levou (1936), estrondoso sucesso literário vencedor do Prêmio Pulitzer de 1937 e que virou em 1939 um longa metragem com a maior bilheteria da história do cinema até então. O que publicou a seguir? Ficou por aí, não escreveu outro romance até ser atropelada aos 48 anos em agosto de 1949, quando foi a óbito. E neste ponto do ensaio delimito a análise a obras que tiveram sua versão na telona. Claro, Bronte morreu antes da Sétima Arte ser inventada, mas tempos depois seu romance foi várias vezes objeto de versões cinematográficas. Então vamos nos ater aqui a mega sucessos literários que geraram grandes filmes.
Harper Lee, autora de O Sol É Para Todos (1960), recebeu um Pulitzer em 1961, atingindo o ápice já nesse seu primeiro romance, como Bronte e Mitchell, que foi filmado em Hollywood em 1962, estrelado por Gregory Peck e vencedor de três Oscar. Depois desse fenômeno Lee permaneceu totalmente reclusa a partir de 1964, não publicando coisa alguma até 2015, quando o manuscrito de Vá, Coloque Um Vigia foi encontrado num cofre e publicado, um ano antes de sua morte, aos 89 anos, em fevereiro de 2016. Este consistia num rascunho anterior a O Sol É Para Todos, com a mesma ambientação e personagens numa história passada vinte anos no futuro - alegam que o editor não gostou e que por isso ela fez o livro O Sol É Para Todos que conhecemos.
Podemos incluir nesta lista o seu amigo de infância - que aparece com outro nome em O Sol É Para Todos - Truman Capote. O pequeno homem, grande e genial escritor de A Sangue Frio (1966), já era o renomado autor de Bonequinha de Luxo (1959) quando pisou no cume do "seu Everest". Consagrado autor do Jornalismo Literário na revista New Yorker, Capote já vira Bonequinha de Luxo se tornar uma produção hollywoodiana em 1960, cuja protagonista foi ninguém menos do que Audrey Hepburn, a atriz da moda. Levou seis anos pesquisando, entrevistando e escrevendo sobre o brutal assassinato da família Clutter no interior do Kansas, em 1959. Teve o auxílio da amiga Harper Lee para as entrevistas com moradores de Helcomb. Só o livro lhe rendeu o que hoje seriam vinte milhões de dólares, sem falar das versões para o cinema e a TV que se seguiram. Até falecer em 1984, aos 59 anos, não concluiu nenhum outro livro, mas tomou todas em todas as festas, curtindo a vida adoidado, levando uma vida de aposentado, pândego.
Buenas, podemos parar por aqui, estes casos bastam para meu ensaio, não estou escrevendo um artigo científico. Poderia acrescentar, só pra não dizer que não falei de brasileiros, o João Guimarães Rosa do excepcional Grande Sertão: Veredas (1956), que, até sua morte por infarto em 1967, não lançou outro romance. A propósito, no mês que vem o Everest de Rosa completará setenta anos de sua publicação.
Assim, vemos que há um padrão comum a alguns autores que atingem o Everest literário: ao contrário dos alpinistas, param por aí, ou se acomodando no gozo das planícies da fama ou temendo não repetir o nível do feito anterior, vide a Joanne Rowling pós a saga Harry Potter (1997 - 2007). Poucos, como o gaúcho e brasileiro Erico Verissimo conseguem, após seu magnum opus, nos oferecer ainda diamantes como Incidente em Antares e Solo de Clarineta.
Para finalizar: John Krakauer escreveu o livro cuja capa ilustra esse ensaio, No Ar Rarefeito (1997), onde aborda a mortal expedição ao cume do Everest em maio de 1996, da qual participou. Não escolhi a imagem à toa: acima de oito mil metros, no ar rarefeito e nas temperaturas congelantes das alturas extremas, o pensar e a tomada de decisões são fortemente afetadas, pois os dois terços de oxigênio a menos por lá afetam sobremaneira o cérebro. Suponho que isso de certa forma também acometa os escritores no "seu Everest" literário.
Eles perdem um pouco a noção da sua individualidade e imergem em sua figura pública incomensurável, para além de si, com a qual não conseguem lidar emocional, psicológica e cognitivamente, ocorrendo um descolamento parcial da realidade. Logo, o ar rarefeito da fama nas alturas literárias os conduzem a buscar um novo sentido para a vida, visando gozá-la ou voltar a entendê-la. Ou como lidar com isso, que nem o Pelé fazia, sempre destacando que existia o "Edson" e existia o "Pelé", em separado, na mesma pessoa (!?). É o que especulo. Posso, pois este texto é um ensaio, serve justamente para isso.
Um bom fim de semana para todos. Cuidem-se, vacinem-se, vivam e fiquem com Deus.



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