João Adolfo Guerreiro
JOÃO GUERREIRO | ‘É só passado rondando minha aorta feito alma penada’?
A igreja da Colônia foi fechada
A igreja da Colônia foi fechada João Adolfo Guerreiro
Vi no sábado, numa postagem no Facebook de Márcio Rosa, que a Paróquia de Charqueadas fechou a igreja da Colônia, a Nossa Senhora de Fátima, edificada em 1959. Sou nascido e criado na Colônia, muito frequentei aquela igreja, desde os tempos do padre Vilmo, quando esta ainda pertencia à Porto Alegre.
Visitava a casa do sacristão, que morava nos fundos. Vi muita missa e primeira comunhão (da minha irmã) ali, ate mesmo, sem lembrar, casamentos, batizados e crismas. A gente fica triste vendo isso acontecer, mas é a realidade. A igreja, o cemitério (abandonado ao mato e parcialmente destruído), o antigo prédio do Ramiro (ocupado pela BM), o campo de futebol (ocupado pela BM), o prédio da PEJ (fechado ao público), o quartel da BM (virou semi-aberto), o Casarão (demolido), a terreira de Umbanda do seu Caldeira (abandonada, com parte do telhado caindo), o Posto de Controle (demolido), o porto (inacessível, nem sei se sobrou algo dele), o Clube Americano (em ruínas)... Todos esses locais em que se circulava livremente nos anos 70 e 80. E não é só a Colônia, Charqueadas é assim. É a realidade de o desapego com a história não ser descaso, mas projeto de sociedade.
Querem ver? Lembram das Disposições Transitórias da Lei Orgânica de Charqueadas, recém promulgada, em seu artigo 5°? Está lá: em doze meses comprar e tombar o "Antigo Cinema". Todo mundo sabe como isso - e o Baar Xarqueadas - terminou, né? Então. "Ah, mas eram prédios privados". Não interessa, o Casarão da Colônia era público e o demoliram pra rapinagem - é falso que estivessem desabando suas paredes. Como eu disse, não é descaso, é projeto de sociedade que apenas se manifesta nos governos. Resta, por todos esses prédios históricos, a saudade de quando "Havia um tempo Em que eu vivia Um sentimento quase que infantil", como na canção do RPM.
Lembro de N situações e pessoas envolvendo esses prédios. Da igreja, então, bah! As pessoas vão morrendo e os prédios vão atrás, são os fatos que observamos. Nem crítico a paróquia e a comunidade católica local por fecharem a igreja. Devem ter ficado sem outra opção, pois fechar um templo numa comunidade do tamanho e da importância da Colônia é um brutal reconhecimento de fraqueza e de falta de representatividade, então creio que ficaram sem saída. Tempos atrás, um pouco antes da pandemia, se não me trai a memória - era já o tempo do padre Miguel Faleiro - fui lá com minha esposa assistir uma missa, num sábado, 15 horas. Seguido vou na Colônia olhar a vila de minha infância e, naquele findi, fui na igreja de Fátima - gosto de ir na Navegantes, que é no Centro, onde resido. Chamou minha atenção e me causou surpresa o baixo número de locais ali, não havia nem cinco - eu não contava, claro. Quem organizava a missa era o pessoal de Charqueadas, inclusive, não da Colônia. Então não me surpreende o que aconteceu, embora me entristeça.
Escreveu Márcio Rosa, neto do seu Caldeira e residente na Colônia, na postagem: "Com tristeza recebo oficialmente [a notícia de] que a capela do bairro colônia está sendo fechada! Não sou frequentador, mas sou consciente que quando fecha uma igreja toda a sociedade perde, pois se cria um vazio para se corrupta (?) jovem e adolescente! É triste, mas é a realidade. Charqueadas está fechando a 2 capela mais antiga da cidade. E provavelmente o prédio vai virar ruínas e a história da cidade se perder. Sei que Jesus não está nos prédios e sim onde está o necessitado, mas é necessário se preservar a história onde por décadas se louvou a Deus!"
Estive lá no domingo fazendo as fotos e vi o Márcio, que me disse ser o principal problema estrutural do prédio o cupim no forro, pois o telhado fora trocado tempos atrás, já não é o original. Mas sem a participação da comunidade, penso, não há o que fazer, mesmo que ex-moradores, como eu e muitos outros, entrassem numa campanha de auxílio financeiro para reforma e mesmo se comprometessem de, pelo menos uma vez ao mês, assistirem a missa lá. Logo, em todos os sentidos possíveis, vejo a entrega do prédio como uma capitulação, quiçá, sem volta.
Um outro comentário interessante e pertinente na postagem do Márcio é de Ana Janoski: "Gente, cuidado com as polêmicas, quando não se tem noção dos motivos, principalmente para aqueles que nem são católicos, mas opinam. Nossa fé não tem nada haver com prédios, foi desativada por motivos de não terem frequentadores assíduos e a paróquia arcar com despesas, sendo que o prédio pertence ao Estado. Procurem se informar antes de levantar bandeiras e acusações. E para quem é católico e frequenta, temos várias outras comunidades católicas ativas. Um exemplo é nossa igreja Matriz, essa sim faz parte da história do nosso município e da vida de muitos católicos, está sendo restaurada e vai ficar como era desde o início a 70 anos. Temos missa todos os sábados às 18:00. Para quem um templo faz falta fica aí minha sugestão. Deus abençoe a todos".
A igreja Nossa Senhora de Fátima fez parte da minha vida e da de muitos. É uma das memórias vivas e edificadas da Colônia e de sua gente ainda de pé e lamento por seu fechamento, sem acusar ninguém por tal destino. Vai ver eu sou apenas um coloneiro sentimental de pai e mãe e avós, que sente nostalgia ao ver seu tempo e sua identidade primeva se esvaíem no tempo. E que tudo isso, como na canção do Lulu Santos, em meu coração "É só o passado rondando minha aorta feito alma penada "







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