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João Adolfo Guerreiro

JOÃO GUERREIRO | The Who: 60 anos de My Generation

Envelheceram pra tocar em Porto Alegre

Arquivo Pessoal
JOÃO GUERREIRO | The Who: 60 anos de My Generation

João Adolfo Guerreiro

Há 60 anos, em 3 de dezembro de 1965, a icônica banda inglesa The Who lançava seu primeiro LP. E tu com isso, né? Tá, mas sexta-feira de chuva é dia de dinossauros do rock e, como diz o Lito, youtuber dos aviões, "senta que lá vem história".

 Os caras do The Who eram quatro garotos ingleses que amavam os Beatles e os Rolling Stones lá pelo início dos anos 1960 e, sendo assim, tiveram a mesma ideia de muitos outros: montar uma banda, o que fizeram em 1964. Como o ritmo nascido nos 1950 nos EUA era, então, moda na Velha Albion, os caras vingaram sendo a banda favorita de um dos movimentos juvenis da época, os mods. E o que eram os mods?

 

Quer mesmo saber? Vai na Wikipedia, é muita coisa pra escrever neste texto. Espero aqui.

 Pronto? Então sigamos adiante. O que nos importa hoje é que em meados dos 1960 os mods gostavam do The Who e que este, em 1973, lançaria uma ópera-rock, Quafrophenia, falando do movimento. Os mods eram tão representativos que teve uma série de TV de 1968 à 1973 na Inglaterra chamada Esquadrão Mod, formado por três jovens policiais. A atriz do seriado, Peggy Lipton, depois casaria com Quincy Jones, produtor de Thriller, do Michael Jackson. E chegamos assim ao 3 de dezembro de 1965, quando Roger, Pete, John e Keith lançam seu LP, My Generation.

 Eles já haviam lançado alguns singles de sucesso durante o ano, logo, o LP era pênalti sem goleiro. A grande canção dele era My Generation, que dizia "Quero morrer antes de ficar velho". Pura lacração de gurizada, claro, como veremos adiante. Todavia, virou hino rock dos 1960 e entrou para a história do gênero como um de seus clássicos definidores. E os caras se tornaram grandes e famosos, ficando conhecidos por quebrarem guitarras e baterias ao final de suas apresentações, como em agosto de 1969 no Festival de Woodstock.

 E o tempo passa, o tempo voa, e a banda ficou coroa. E, claro, ficaram velhos e continuaram tocando por aí, esquecendo da bravata de My Generation. E foram veteranos que o vocalista Roger e o guitarrista Pete vieram à Porto Alegre tocar no Beira Rio, em 2017. Keith e John, baterista e baixista, morreram antes de envelhecerem, como na canção. Fui no show, onde comprei o boné da foto acima.

 Na verdade fui acompanhando meu cunhado mais novo, nascido em 1988 e que, paradoxalmente, era fã da banda, ao contrário de mim, mais chegado no Led Zeppelin. Aliás, sabiam que foi Keith que inventou o nome do Led? Tá, mas essa eu conto outro dia. Caras, o Roger tava setentão, da idade do meu sogro, mas cantando muito. Fiquei admirado com seu vigor vocal, ainda mais comparando com o Axl da época... O Pete não quebrou as guitarras, mas tava tocando bem e forte como sempre, embora, saibamos, jamais será um Page.

 (Ah, tenho de contar essa: quando Hendrix estava chegando e arrebentando em Londres, Clapton foi assistir um de seus shows pra ver qual era. Atrasou-se e ficou na fila pra segunda apresentação, quando viu Pete saindo da primeira. Cumprimentou-o. Pete veio até ele e disse: "Eric, não te aconselho a entrar aí, tu não vais mais querer tocar guitarra depois disso". Eric voltaria a sentir a mesma coisa quando Steve Ray Vaughan abriu seus shows, anos depois, mas não alonguemos os parênteses e voltemos ao Who em Porto Alegre.)

 Quem abriu o show foi o Def Leppard. Esperava mais, não que tivesse sido ruim, longe disso. Vai ver fui eu que mudei do garoto de 1980 para o coroa de então e o heavy metal não me pegava mais como antes. Já os idosos britânicos do The Who mostraram porque resolveram não mais morrer! Caras, que showzaço! O grande momento da noite foi a canção Babá O'Riley. Reafirmei um aprendizado naquele dia, já obtido assistindo shows recentes do Erasmo Carlos e observando a longevidade dos Stones: que a chama da vida dura até o último oxigênio inspirado pelos pulmões. Com certeza os veteranos Roger e Pete aprenderam isso pelo caminho, também. Todos evoluímos, sem negar o jovem que fomos, mas superando-o. Ainda bem.

 "Quem vive sabe, mesmo sem saber que sabe. Assim é que os senhores sabem mais do que imaginam e estão fingindo de sonsos" - Clarice Lispector em A Hora da Estrela, pagina 14. Sei que é uma citação manjada, mas ficou adequada. Amanhã é sábado,  não exijam muito de mim hoje.

 




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