Seja bem-vindo
São Jerônimo, RS,30/10/2026

  • A +
  • A -
Publicidade

MARCELO NORONHA | O ódio não gera empregos, não fortalece o comércio e não constrói democracia

A economia não pertence a um partido. O emprego não pertence a uma ideologia. E a democracia não pode ser propriedade de quem se considera autorizado a decidir quais opiniões merecem existir

Reprodução / IA
MARCELO NORONHA | O ódio não gera empregos, não fortalece o comércio e não constrói democracia O ódio não gera empregos, não fortalece o comércio e não constrói democracia
Publicidade

Marcelo Noronha*

Publicidade

Quando divergências eleitorais se transformam em ameaças de demissão, boicotes e perseguição econômica, a disputa política pode deixar de ser apenas ideológica e passar a atingir o emprego, a renda e a convivência democrática. O problema merece atenção quando o poder econômico é usado para punir trabalhadores, empresários ou cidadãos por suas preferências políticas.

Tenho acompanhado relatos de empresários e apoiadores da chapa derrotada que tentam transformar o resultado das urnas em instrumento de pressão econômica. Ameaças de restringir contratações, incentivos à demissão de trabalhadores e campanhas de boicote contra estabelecimentos que demonstraram simpatia pelo vencedor das eleições não contribuem necessariamente para a economia. Se confirmadas, algumas dessas iniciativas podem transformar relações econômicas em instrumentos de retaliação contra quem pensa diferente. E eu me pergunto: onde está a preocupação com a economia? Onde está a defesa do emprego? Onde está o discurso de valorização do empreendedorismo e da livre iniciativa? Porque, sinceramente, não consigo enxergar o bem-estar coletivo em uma atitude que possa ameaçar o sustento de famílias, fragilizar empresas e colocar trabalhadores no centro de uma disputa que eles não deveriam pagar com o próprio salário.

A minha impressão é de que essa postura, em alguns casos, parece estar menos relacionada à economia de todos do que à reação ao resultado eleitoral. Tampouco se pode presumir que toda manifestação tenha a mesma relação com a democracia. Ainda assim, quando o resultado das urnas é aceito apenas se favorecer o próprio grupo, a democracia corre o risco de ser tratada como um instrumento descartável. Quando o voto do outro é considerado motivo para punição, o problema deixa de ser apenas ideológico e passa a envolver princípios de convivência democrática. E existe uma contradição que me chama ainda mais a atenção. Algumas dessas manifestações surgem em cidades de pequeno porte econômico, onde o comércio local tem papel fundamental na geração de empregos, na circulação de renda e na sustentação das famílias. Municípios nos quais cada vaga de trabalho importa, cada salário movimenta o mercado e cada pequeno negócio ajuda a manter viva a economia da comunidade.

Nesses lugares, a lógica deveria ser elementar: comércio forte depende de pessoas com renda, e pessoas com renda dependem, entre outras coisas, de empregos. É quase uma conta de padaria, daquelas que não precisam de economista, consultoria ou planilha sofisticada para serem compreendidas.

Se um trabalhador perde o emprego, é provável que consuma menos. Se consome menos, pode comprar menos no mercado, na padaria, na loja de roupas, na farmácia e no restaurante. Se muitas pessoas passam a consumir menos, o comércio pode sentir o impacto. Se o comércio perde faturamento, pode reduzir investimentos, deixar de contratar e, em alguns casos, até fechar as portas. Quem ganha com isso? O empresário que demite por vingança política? O comerciante que perde clientes? O trabalhador que fica sem salário? A comunidade que vê o dinheiro deixar de circular?

Em muitos casos, a resposta parece óbvia. Mas a paixão política pode levar algumas pessoas a desconsiderar até mesmo efeitos econômicos previsíveis. Eu não consigo aceitar que o direito de empreender seja confundido com o direito de perseguir. A liberdade de expressão vale para todos, inclusive para quem votou no candidato vencedor. A liberdade econômica também não deveria ser invocada automaticamente para justificar práticas que transformem trabalhadores em reféns de disputas partidárias.

Um empresário tem todo o direito de discordar de um governo, criticar políticas públicas e defender suas convicções. O que não parece legítimo é usar o poder econômico para intimidar quem pensa diferente, muito menos transformar o emprego de alguém em instrumento de punição ideológica. Dependendo da conduta e das circunstâncias, ameaças, discriminação ou retaliações podem também levantar questões jurídicas, que devem ser avaliadas pelas autoridades competentes. Afinal, o trabalhador não é propriedade de patrão algum. Seu voto pertence a ele. Sua consciência também.

E aqui chego à pergunta que considero inevitável: isso é ódio? É intolerância? É antidemocracia? Pode haver diferentes motivações e consequências, e não posso afirmar que toda manifestação tenha a mesma natureza. Também não cabe atribuir a todos os envolvidos uma intenção única. Mas a tentativa de punir economicamente pessoas por suas preferências políticas é incompatível com o espírito democrático que deveríamos preservar, especialmente quando envolve pressão, ameaça ou coerção.

A democracia não termina quando as urnas são apuradas. Ela continua no respeito ao resultado, na convivência com as diferenças e na capacidade de reconhecer que o adversário político não é um inimigo a ser destruído. Perder uma eleição faz parte do jogo democrático. O que não deveria fazer parte dele é tentar inviabilizar a vida de quem venceu ou de quem escolheu votar de maneira diferente.

Eu não quero um país no qual o cidadão precise esconder sua preferência política por medo de perder o emprego. Não quero cidades nas quais comerciantes sejam pressionados por suas opiniões, nem trabalhadores tratados como instrumentos de vingança eleitoral. Quero um país em que as divergências sejam enfrentadas com argumentos, projetos e resultados, não com ameaças e retaliações.

Também não quero que o comércio de nossas cidades seja transformado em campo de batalha ideológica. Quero ruas movimentadas, lojas abertas, empresas contratando e famílias com dinheiro no bolso para consumir. Quero que o sucesso de um negócio seja medido pela qualidade do que oferece, pela confiança que conquista e pela capacidade de gerar oportunidades, não pela cor partidária de quem está atrás do balcão.

A economia não pertence a um partido. O emprego não pertence a uma ideologia. E a democracia não pode ser propriedade de quem se considera autorizado a decidir quais opiniões merecem existir. Por isso, acredito que a luta contra a intolerância política precisa prevalecer. Não por vingança, não para inverter os papéis e perseguir quem hoje persegue, mas para impedir que a perseguição se torne uma prática normalizada em nossa sociedade.

Minha posição é clara: discordar é um direito. Criticar é necessário. Boicotar, quando resultado de uma escolha livre e consciente do consumidor, também pode fazer parte da liberdade individual, desde que não envolva ameaças, assédio ou coordenação coercitiva. Mas organizar campanhas de intimidação, ameaçar empregos ou estimular demissões como forma de castigar adversários políticos é outra história. Dependendo dos fatos, essas condutas podem configurar abuso, discriminação ou até ilícitos, mas essa conclusão exige apuração concreta e análise jurídica. É preciso distinguir liberdade de escolha de coerção econômica e avaliar cada denúncia com responsabilidade.

No fim das contas, existe uma verdade que nenhuma disputa eleitoral deveria apagar: quem trabalha precisa viver, quem empreende precisa de clientes e quem governa precisa respeitar a pluralidade de uma sociedade democrática.

Eu prefiro a democracia que acolhe a divergência à intolerância que exige obediência. Prefiro o comércio cheio à loja vazia por ressentimento político. Prefiro o trabalhador empregado ao cidadão transformado em vítima de uma disputa que não deveria ameaçar seu pão de cada dia. Porque, se a derrota nas urnas despertar o desejo de punir quem venceu, talvez o problema não seja apenas a eleição. Talvez o problema seja não aceitar que, em uma democracia, ninguém tem o direito de ser dono do voto, da consciência ou do futuro dos outros. E contra qualquer tentativa de transformar o ódio em política econômica, o medo em ferramenta de gestão e o emprego em instrumento de vingança, eu escolho ficar do lado da democracia, do trabalho e da dignidade humana. Não para calar quem pensa diferente, mas para garantir que ninguém precise se calar por medo de perder aquilo de que precisa para viver.


(*) Marcelo Noronha, jornalista


Publicidade



COMENTÁRIOS

Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade

Buscar

Alterar Local

Anuncie Aqui

Escolha abaixo onde deseja anunciar.

Efetue o Login

Recuperar Senha

Baixe o Nosso Aplicativo!

Tenha todas as novidades na palma da sua mão.