MARCELO NORONHA | Guerrinha: quando a opinião tem personalidade e o jornalismo tem coragem
O jornalismo esportivo sempre esteve entre minhas grandes paixões e, nessa caminhada, Guerrinha ocupou um lugar especial entre minhas referências.
Guerrinha Marcelo Noronha*
Algumas vozes se tornam tão familiares que passam a fazer parte da nossa rotina. No rádio, na televisão, nas mesas de debate ou nas páginas dos jornais, determinados profissionais conquistam um espaço que vai muito além da audiência. Tornam-se referências. Adroaldo Guerra Filho, o Guerrinha, que faleceu neste 28 de outubro de 2026, foi uma dessas vozes.
Minha admiração por Guerrinha tem uma razão muito particular. Não se resume ao futebol, tampouco à preferência clubística que sempre o identificou com o Internacional. O que me aproximou de seu trabalho foi a maneira como ele exercia o jornalismo: direto, simples, provocador e dono de uma personalidade que não se confundia com a necessidade de agradar.
Desde a adolescência, eu alimentava o sonho de ser jornalista. Cheguei a cursar algumas cadeiras de Direito, mas a oportunidade de migrar para o Jornalismo apareceu e não pensei duas vezes. Era como se, finalmente, eu pudesse seguir o caminho que já desejava havia muito tempo. O jornalismo esportivo sempre esteve entre minhas grandes paixões e, nessa caminhada, Guerrinha ocupou um lugar especial entre minhas referências.
Sempre gostei de profissionais que conseguem explicar muito sem precisar dizer demais. Guerrinha tinha esse talento. Enquanto alguns debates esportivos se perdem em justificativas intermináveis, ele encontrava uma frase capaz de resumir o problema e, muitas vezes, desmontar toda a argumentação apresentada até ali. A expressão “eles vão perder motivado” é um exemplo extraordinário dessa capacidade. Bastava que os colegas exaltassem a motivação de uma equipe tecnicamente inferior para Guerrinha apresentar sua resposta, carregada de ironia e inteligência. A frase provocava o riso, mas também convidava à reflexão. Afinal, estar motivado não significa, necessariamente, jogar bem. O entusiasmo pode ajudar, mas não substitui a qualidade técnica.
É nesse tipo de comentário que reconheço o valor do jornalismo que admiro. Aquele que não precisa recorrer a palavras difíceis para demonstrar conhecimento, que utiliza o humor sem abandonar a análise e que transforma uma conversa sobre futebol em um exercício de argumentação. Há, porém, uma questão ainda mais profunda na minha admiração por Guerrinha. Ela está relacionada à maneira como compreendo a própria profissão.
Tenho uma teoria que carrego comigo: o jornalista consegue buscar a isenção durante todo o exercício profissional, mas não consegue ser absolutamente imparcial. Para mim, são conceitos diferentes. A isenção exige compromisso com os fatos, rigor na apuração e responsabilidade na apresentação das informações. Já a imparcialidade absoluta pressupõe uma espécie de neutralidade humana que considero impossível de alcançar plenamente.
Todos nós temos experiências, referências e convicções que influenciam a maneira como interpretamos o mundo. O jornalista não deixa de ser humano quando assume o microfone ou começa a escrever. O que precisa fazer é impedir que suas preferências determinem os fatos ou comprometam a honestidade de sua análise. E foi justamente essa distinção que sempre me chamou a atenção no trabalho de Guerrinha.
Sua identificação com o Internacional nunca foi um segredo. Entretanto, torcer por um clube não significa ser obrigado a concordar com tudo o que ele faz. A paixão pertence ao torcedor. A análise exige crítica, inclusive quando o criticado veste as cores do próprio coração. Guerrinha construiu sua identidade como comentarista sem precisar esconder sua ligação com o Colorado. Ao mesmo tempo, demonstrava que essa identificação não deveria servir como desculpa para abandonar o senso crítico. É possível ter um time do coração e reconhecer suas limitações. É possível discordar de uma análise sem desqualificar quem a apresenta. E é possível sustentar uma opinião sem transformar o debate em uma disputa de paixões.
Isso não significa que Guerrinha estivesse sempre certo. Nenhum jornalista está. O que valorizo nele é a personalidade com que defendia suas análises, a clareza de seus argumentos e a disposição para provocar o debate. Concordar ou discordar fazia parte da experiência. O importante era que havia uma opinião a ser discutida, e não apenas palavras pronunciadas para preencher o tempo.
Em uma época na qual tantas discussões esportivas parecem exigir que cada pessoa escolha um lado e permaneça nele, mesmo diante das evidências, profissionais com essa identidade deixam uma contribuição importante. O jornalismo não existe para confirmar permanentemente aquilo em que o público acredita. Existe também para questionar, contrariar e apresentar aspectos que nem sempre queremos enxergar. É por isso que a despedida de Guerrinha me toca também como jornalista e como alguém que escolheu essa profissão por paixão. Perco uma referência que me ajudou a reconhecer o valor da simplicidade, da ironia inteligente e da opinião bem construída. O futebol perde um comentarista de voz própria, daqueles que poderiam ser reconhecidos por uma única frase.
Cada profissional precisa encontrar seu estilo, sua linguagem e sua maneira de interpretar a realidade. Não se trata de imitar Guerrinha, mas de reconhecer o que sua trajetória nos ensina. Aprendi, observando referências como ele, que uma opinião contundente não precisa ser agressiva, que a simplicidade pode carregar muita inteligência e que o humor, quando bem empregado, também é uma forma de análise.
Hoje, não me despeço apenas de um comentarista esportivo. Despeço-me simbolicamente de alguém cuja maneira de trabalhar ajudou a alimentar minha admiração pelo jornalismo. Guerrinha deixa sua marca justamente porque tinha identidade. Não precisava falar como os outros, nem construir personagens para sustentar suas opiniões. Seu jeito direto, suas ironias e suas frases memoráveis fizeram parte de uma trajetória que continuará sendo lembrada por quem acompanhou seus comentários.
Continuo acreditando que o bom jornalismo não exige que o profissional esconda suas convicções. Exige que ele respeite os fatos, reconheça seus limites e tenha honestidade para admitir quando a realidade contraria aquilo em que acredita. A paixão pelo futebol não elimina a responsabilidade de analisar o jogo. A paixão pelo jornalismo, por sua vez, exige que nunca abandonemos a responsabilidade de informar e argumentar com seriedade.
Guerrinha, hoje o futebol perde uma voz inconfundível. Eu me despeço de uma referência que me ensinou, à sua maneira, que a simplicidade pode ser brilhante e que uma boa opinião não precisa de rodeios para deixar sua marca.
Que sua história continue inspirando quem escolheu o jornalismo e, especialmente, aqueles que encontram no esporte muito mais do que resultados, gols e rivalidades.
Descanse em paz, Guerrinha. Tu vais fazer falta. E não é pouco!

(*) Marcelo Noronha, jornalista






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