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São Jerônimo, RS,15/10/2026

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MARCELO NORONHA | O dia em que o trabalhador brasileiro começou a recuperar a própria vida

Erika Hilton levou essa bandeira para o espaço institucional, transformando uma reivindicação social em uma proposta política concreta. Rick Azevedo, trabalhador que conheceu na própria pele a dureza da escala 6x1, ajudou a transformar o sofrimento indivi

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MARCELO NORONHA | O dia em que o trabalhador brasileiro começou a recuperar a própria vida
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Marcelo Noronha*

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Há conquistas que entram para a história pela assinatura de um presidente. Outras, pela votação de um Congresso. E há aquelas que começam muito antes, no desabafo de quem não aguenta mais, na coragem de quem transforma indignação em luta e na esperança de milhões de pessoas que se recusam a aceitar que trabalhar seja sinônimo de deixar de viver. Eu quero falar de gente. Não de números, não de planilhas, não de gráficos de produtividade. Quero falar de quem acorda de madrugada, enfrenta o transporte lotado, trabalha durante horas e volta para casa quando os filhos já estão dormindo. Quero falar de quem aprendeu a chamar de rotina aquilo que, muitas vezes, é apenas sobrevivência. Mas quero também falar de dois nomes que merecem ser lembrados quando a história brasileira registrar a luta pelo fim da escala 6x1: Erika Hilton e Rick Azevedo. Porque grandes transformações sociais não acontecem por acaso. Elas precisam de gente disposta a enfrentar resistências, desafiar interesses estabelecidos e colocar no centro do debate aquilo que tantos preferiam manter escondido.

Erika Hilton levou essa bandeira para o espaço institucional, transformando uma reivindicação social em uma proposta política concreta. Rick Azevedo, trabalhador que conheceu na própria pele a dureza da escala 6x1, ajudou a transformar o sofrimento individual em mobilização coletiva, dando força ao movimento Vida Além do Trabalho, o VAT. Ela, com a atuação parlamentar. Ele, com a voz de quem conhece a realidade do balcão e a exaustão de quem trabalha para sobreviver. Ambos ajudaram a mostrar ao Brasil que o trabalhador não quer apenas um emprego. Quer uma vida. E isso, por si só, já é uma lição de democracia.

Quando a indignação encontra coragem

Eu imagino quantas pessoas se reconheceram no desabafo de Rick Azevedo. Quantos trabalhadores olharam para aquela realidade e pensaram: finalmente alguém está dizendo aquilo que eu sinto. Porque existe uma solidão muito particular em quem vive para trabalhar. É a solidão de quem falta aos encontros familiares porque está de serviço. De quem perde o aniversário de um filho. De quem passa o domingo lavando roupa, limpando a casa e tentando recuperar as forças para enfrentar mais seis dias de trabalho. É a solidão de quem chega ao fim de uma jornada sem energia para conversar, estudar, namorar ou simplesmente aproveitar a própria casa.

Durante muito tempo, essa realidade foi tratada como se fosse inevitável. Como se o trabalhador tivesse nascido para aceitar o cansaço e agradecer pela oportunidade de continuar cansado. Rick Azevedo ajudou a romper esse silêncio. Sua trajetória deu rosto e voz a uma indignação que já existia em milhões de brasileiros. E quando essa indignação encontrou espaço na política, a luta ganhou outra dimensão. É aí que reconheço a importância da atuação de Erika Hilton. A deputada compreendeu que a indignação das ruas precisava atravessar as portas do Congresso. Precisava se transformar em proposta, debate, articulação e pressão política. Precisava enfrentar aqueles que enxergam qualquer ampliação dos direitos dos trabalhadores como uma ameaça à ordem econômica.

Não se trata de dizer que a mudança será simples. Não será. Existem desafios de implementação, diferenças entre setores e a necessidade de proteger os pequenos empreendimentos. Mas nenhuma dessas questões pode servir de justificativa para perpetuar indefinidamente uma realidade que rouba do trabalhador o direito de viver para além do expediente. É por isso que considero importante reconhecer quem teve coragem de colocar essa pauta no centro da discussão nacional.

Erika Hilton e Rick Azevedo merecem ser lembrados não porque a luta pertença a eles, mas porque ajudaram a fazer com que uma luta de milhões de pessoas deixasse de ser invisível.

 O Brasil que trabalha também precisa ter o direito de viver

A escala 6x1 representa muito mais do que seis dias de trabalho para um de descanso. Representa uma rotina que, para muita gente, transforma a vida numa sucessão de obrigações. Seis dias trabalhando. Um dia tentando recuperar o corpo. Seis dias adiando os sonhos. Um dia tentando resolver tudo aquilo que não coube na semana.

E então começa tudo de novo.

Quero falar daquela mãe que trabalha a semana inteira e, quando chega em casa, ainda enfrenta uma segunda jornada de tarefas domésticas. Quero falar do pai que vê os filhos crescerem por fotografias enviadas no celular. Quero falar do jovem que abandona os estudos porque não consegue conciliar o cansaço com a sala de aula. Quero falar do trabalhador que sente dores, que precisa de atendimento médico, que gostaria de praticar um esporte, visitar os pais idosos ou simplesmente sentar no sofá sem sentir culpa por estar descansando.

Desde quando o direito ao descanso virou luxo? Desde quando o trabalhador precisa justificar o desejo de passar mais tempo com a família? E desde quando o desenvolvimento econômico passou a ser medido apenas pela quantidade de horas que alguém consegue permanecer à disposição do trabalho?

Eu me recuso a aceitar que o sucesso de uma sociedade seja calculado pelo esgotamento de quem a sustenta. Uma economia forte precisa de empresas saudáveis, empregos, investimentos e produtividade. Mas também precisa de pessoas saudáveis, famílias presentes e trabalhadores que não sejam obrigados a sacrificar a própria existência para pagar as contas.

O trabalho deve permitir que as pessoas vivam com dignidade. Não pode se transformar numa engrenagem que consome o tempo, a saúde e os sonhos de quem trabalha.

 Há lágrimas que nenhuma estatística consegue medir

Quando penso na possibilidade de milhões de brasileiros conquistarem mais tempo de descanso, não penso primeiro em números. Penso numa criança que espera o pai chegar em casa. Penso numa mãe que gostaria de acompanhar uma apresentação escolar, mas precisa explicar mais uma vez que estará trabalhando. Penso no trabalhador que passa anos dizendo que, quando tiver tempo, vai visitar a família, estudar, cuidar da saúde e realizar aquele sonho que sempre ficou para depois. Penso em quem envelhece esperando a aposentadoria para finalmente viver. E penso em quantos desses momentos nunca poderão ser recuperados.

O salário pode ser pago no fim do mês. O tempo perdido com um filho pequeno, não. É por isso que essa luta me emociona. Porque, por trás da discussão sobre a jornada semanal, existe algo que nenhuma planilha consegue calcular: o valor de uma infância acompanhada, de um abraço sem pressa, de um domingo em família e de uma pessoa que finalmente consegue olhar para a própria vida sem enxergar apenas obrigações.

Quando a história registrar essa conquista, quero que também registre os rostos daqueles que ajudaram a torná-la possível. Quero que lembre de Erika Hilton, que levou a proposta ao Congresso e enfrentou o debate político. Quero que lembre de Rick Azevedo, que transformou a experiência de um trabalhador em uma mobilização nacional. Quero que lembre do movimento VAT e de todos aqueles que compartilharam suas histórias, assinaram petições, participaram de manifestações e cobraram uma resposta dos representantes eleitos.Mas quero, sobretudo, que a história se lembre de quem estava do outro lado dessa luta. Dos trabalhadores anônimos. Daqueles que nunca aparecerão numa fotografia oficial, que nunca subirão a uma tribuna e que talvez nem saibam explicar os detalhes jurídicos de uma proposta de emenda constitucional. Mas que sabem exatamente o que significa chegar em casa exaustos. Que sabem o que é perder um aniversário por causa do trabalho. Que sabem o que é desejar apenas mais um dia para respirar.

Essa conquista pertence a eles.

 Não foi presente. Foi luta.

Eu não quero que o fim da escala 6x1 seja apresentado como um presente de qualquer governo ou partido político.

Direitos sociais não são favores concedidos por quem ocupa o poder. São conquistas construídas pela sociedade, pela mobilização popular e pela atuação de pessoas que se recusam a aceitar a injustiça como destino.

A aprovação da proposta pelo Senado, em 14 de outubro de 2026, representa um marco nessa trajetória. O texto aprovado prevê a redução gradual da jornada semanal de 44 para 40 horas, com dois dias de descanso remunerado, sem redução salarial, e segue agora para sanção presidencial.

Ainda será necessário garantir que a mudança seja efetivamente aplicada e que seus benefícios cheguem aos trabalhadores. Uma conquista legislativa só se completa quando se transforma em realidade na vida de quem mais precisa dela.

Mas o momento merece ser reconhecido. E, neste momento, considero justo destacar Erika Hilton e Rick Azevedo.

Em tempos nos quais a política tantas vezes parece distante dos problemas reais da população, os dois ajudaram a colocar uma questão concreta no centro do debate nacional: por que alguém deveria precisar abrir mão de quase todo o próprio tempo para ter o direito de trabalhar e sobreviver? Essa pergunta atravessou as redes sociais, chegou às ruas, entrou no Congresso e mobilizou o país. É assim que as mudanças sociais começam. Quando alguém tem coragem de dizer que uma realidade aparentemente imutável precisa mudar. E quando milhares, depois milhões, descobrem que não estão sozinhos.

 A história também se escreve com lágrimas

Gostaria que, no dia em que o fim da escala 6x1 se tornasse efetivamente realidade, o Brasil parasse por alguns minutos. Não para aplaudir políticos. Não para alimentar disputas partidárias. Mas para olhar nos olhos dos trabalhadores e compreender o tamanho do que está em jogo. Gostaria que lembrássemos dos pais que não conseguiram acompanhar o crescimento dos filhos, das mães que precisaram escolher entre o trabalho e a presença em momentos importantes, dos jovens que adiaram os estudos e dos trabalhadores que passaram a vida inteira esperando ter mais tempo para viver. Gostaria que pensássemos também naqueles que lutaram por direitos trabalhistas em outras épocas e não tiveram a oportunidade de presenciar todas as conquistas pelas quais trabalharam. Porque nenhuma transformação histórica nasce do nada. Cada direito que hoje parece natural já foi considerado impossível, inconveniente ou caro demais por alguém.

Talvez seja justamente por isso que eu considere tão importante a trajetória de Erika Hilton e Rick Azevedo nessa luta. Eles ajudaram a transformar uma reivindicação que parecia distante em uma questão que o Brasil inteiro precisou discutir. E, quando a mudança chegar de verdade à vida dos trabalhadores, haverá motivos para chorar. Não de tristeza, mas de alívio. Pelas mães que poderão estar mais presentes. Pelos pais que conseguirão acompanhar os primeiros passos dos filhos. Pelos jovens que terão mais tempo para estudar. Pelos trabalhadores que poderão cuidar da própria saúde e descobrir que existe um mundo inteiro além do relógio de ponto.

Haverá lágrimas por quem não conseguiu chegar até esse momento. Haverá lágrimas por quem passou décadas esperando. E haverá lágrimas de esperança por aqueles que ainda terão muitos anos para descobrir que viver não precisa ser apenas sobreviver.

 O trabalhador não quer deixar de trabalhar. Quer ter uma vida para além do trabalho.

Talvez essa seja a frase que melhor resume tudo o que penso sobre essa discussão. O trabalhador não está pedindo para abandonar suas responsabilidades. Está pedindo a oportunidade de trabalhar e continuar sendo pai, mãe, filho, companheiro, estudante, amigo e cidadão. Está pedindo que o esforço de cada dia permita construir uma vida melhor, não apenas pagar as contas e esperar pela próxima jornada. Está pedindo para ter tempo de acompanhar os filhos, visitar os pais, estudar, descansar e realizar sonhos que ficaram guardados durante anos.

E é por isso que não consigo tratar essa discussão como apenas mais uma disputa política. Estamos falando do direito de existir para além da profissão que exercemos. Estamos falando de reconhecer que o trabalhador tem uma vida que não pode ser reduzida ao seu contracheque. Estamos falando de uma sociedade que precisa compreender que o tempo de uma pessoa é tão valioso quanto o trabalho que ela entrega.

Quando olho para essa conquista, reconheço a importância da mobilização popular e a atuação daqueles que assumiram a responsabilidade de transformar a reivindicação em ação política. Por isso, faço questão de registrar meu reconhecimento a Erika Hilton e Rick Azevedo.

Que seus nomes sejam lembrados pela contribuição a essa luta. Que a coragem de enfrentar o debate sirva de exemplo para outras pautas sociais. E que a história não apague a participação dos trabalhadores que deram sentido a essa mobilização. Mas que ninguém se esqueça de quem é o verdadeiro protagonista dessa conquista.É o trabalhador que acorda antes do sol nascer. É a mulher que enfrenta a jornada profissional e depois continua trabalhando dentro de casa. É o jovem que tenta estudar depois de um dia exaustivo. É o pai que quer ver os filhos crescerem. É a mãe que deseja estar presente. É o brasileiro que não pede privilégios. Pede dignidade.

Talvez, um dia, nossos filhos olhem para a escala 6x1 com o mesmo espanto com que hoje olhamos para tantas injustiças do passado. E talvez perguntem como conseguimos aceitar que alguém trabalhasse seis dias para ter apenas um de descanso.

Espero que possamos responder que não foi fácil mudar. Que houve resistência, que houve interesses contrariados e que houve quem dissesse que era impossível. Mas que algumas pessoas tiveram coragem de enfrentar essa realidade. Que trabalhadores se organizaram. Que a sociedade se mobilizou. Que Erika Hilton levou a proposta ao Congresso e que Rick Azevedo ajudou a transformar a indignação em movimento nacional. E que, finalmente, o Brasil começou a compreender que o trabalho não pode ser maior do que a vida.

Porque o trabalhador não quer apenas ganhar a vida. Ele também quer ter uma vida para viver. E se, ao ler estas palavras, alguém se lembrar do pai que chegava em casa quando os filhos já dormiam, da mãe que perdeu tantos momentos importantes ou de si mesmo, exausto depois de mais uma jornada, talvez compreenda por que essa luta merece ser tratada com tanta emoção. Não estamos discutindo apenas uma escala de trabalho. Estamos discutindo o tempo que ainda nos resta para amar, conviver, sonhar e existir.

E poucas coisas são tão humanas, tão urgentes e tão históricas quanto devolver às pessoas a possibilidade de viver a própria vida.



(*) Marcelo Noronha, jornalista

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