MARCELO NORONHA | Parabéns, professor! Agora volte ao seu lugar de desvalorização
Heróis, na nossa imaginação, suportam tudo, sacrificam-se indefinidamente e nunca reclamam. Mas eu não quero professores obrigados a ser heróis. Quero professores respeitados como profissionais. Quero que possam exercer sua vocação sem que a palavra vocaç
Marcelo Noronha*
No Dia dos Professores, prefiro trocar os aplausos por uma pergunta incômoda: se a educação é tão importante, por que quem a constrói continua precisando lutar pelo reconhecimento que merece?
Todo ano é a mesma coisa. No dia 15 de outubro, descobrimos que o professor é um herói. As redes sociais se enchem de homenagens, políticos publicam fotografias ao lado de educadores, discursos emocionados exaltam a importância do ensino e não faltam frases bonitas sobre aqueles que dedicam a vida a transformar o futuro.
Eu só gostaria de entender uma coisa: se sabemos de tudo isso, por que precisamos esperar um dia específico para reconhecer o valor de quem ensina? E, principalmente, por que esse reconhecimento parece desaparecer tão rapidamente quando termina a data comemorativa?
Tenho certa desconfiança das homenagens que não produzem consequências. Flores são bonitas, mensagens emocionam e aplausos podem ser sinceros. Mas nenhum desses gestos, por mais bem-intencionado que seja, substitui condições dignas de trabalho, remuneração justa, respeito profissional, estrutura adequada nas escolas e políticas públicas que tratem a educação como prioridade permanente, não como discurso de ocasião.
Eu não quero retirar a beleza das homenagens aos professores. Quero apenas que elas sejam acompanhadas de coerência. Porque existe uma contradição brutal na maneira como tratamos a educação. Cobramos resultados dos professores, mas nem sempre oferecemos as condições necessárias para alcançá-los. Exigimos que formem cidadãos críticos, mas nem sempre aceitamos que esses cidadãos questionem as estruturas de poder. Esperamos que ensinem respeito, responsabilidade e democracia, enquanto muitos educadores precisam enfrentar o desrespeito dentro do próprio ambiente de trabalho. E ainda depositamos sobre seus ombros uma responsabilidade gigantesca: resolver problemas que começam muito antes de o aluno entrar na sala de aula.
A escola não pode, sozinha, corrigir todas as desigualdades sociais, compensar a ausência de políticas públicas, substituir a família ou reparar as injustiças de uma sociedade inteira. O professor tem uma missão extraordinária, mas não possui superpoderes. É um profissional, um ser humano, alguém que também sente cansaço, enfrenta dificuldades e precisa ter sua dignidade respeitada. Talvez um dos maiores equívocos seja justamente chamar o professor de herói.
Heróis, na nossa imaginação, suportam tudo, sacrificam-se indefinidamente e nunca reclamam. Mas eu não quero professores obrigados a ser heróis. Quero professores respeitados como profissionais. Quero que possam exercer sua vocação sem que a palavra vocação seja usada como justificativa para aceitar sacrifícios permanentes.
Vocação não paga contas. Amor pela profissão não substitui salário. Comprometimento não elimina o esgotamento. E nenhuma homenagem deveria servir de cortina para esconder problemas que exigem soluções concretas.
Também me preocupa o futuro. Que mensagem estamos transmitindo aos jovens quando exaltamos a importância dos professores, mas não conseguimos tornar a carreira suficientemente atraente, respeitada e valorizada? Quem vai querer assumir essa responsabilidade daqui a alguns anos se o reconhecimento social não vier acompanhado de condições reais para exercer a profissão? Uma sociedade que desvaloriza seus professores não está apenas cometendo uma injustiça com uma categoria profissional. Está comprometendo a própria capacidade de pensar, questionar, inovar e construir um futuro melhor.
Por isso, neste 15 de outubro, eu não quero apenas desejar feliz Dia dos Professores. Quero propor uma mudança de perspectiva. Em vez de perguntar o que devemos dizer aos professores neste dia, deveríamos perguntar o que estamos fazendo por eles nos outros 364 dias do ano. Em vez de publicar frases sobre o poder transformador da educação, deveríamos cobrar dos governos políticas educacionais consistentes. Em vez de aplaudir a dedicação dos educadores, deveríamos defender condições para que essa dedicação não se transforme em adoecimento e exaustão. Em vez de reconhecer sua importância apenas nas cerimônias, deveríamos respeitar sua autoridade, sua formação e seu trabalho todos os dias.
Eu sei que há professores que seguem transformando vidas apesar das dificuldades. Conheço a força que existe no trabalho de quem ensina, desperta curiosidades, abre caminhos e ajuda crianças e jovens a descobrir possibilidades que talvez jamais imaginassem existir. É justamente por reconhecer essa grandeza que me recuso a tratá-la como algo que deve ser celebrado apenas com palavras.
Neste Dia dos Professores, minha homenagem não é um aplauso conformado. É uma cobrança. Que os professores recebam menos discursos vazios e mais respeito. Menos promessas e mais políticas públicas. Menos romantização do sacrifício e mais dignidade profissional. Porque, se o professor é tão importante quanto dizemos, precisamos demonstrar isso quando as câmeras estão desligadas, quando as homenagens terminam e quando não há nenhuma data comemorativa para nos lembrar de sua existência. Caso contrário, continuaremos fazendo aquilo em que nossa sociedade parece ter se especializado: homenagear publicamente quem desvalorizamos na prática.
Feliz Dia dos Professores. E que, no próximo ano, tenhamos menos motivos para escrever textos como este.

(*) Marcelo Noronha, jornalista






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