MARCELO NORONHA | Quando a proteção ambiental vira obstáculo, o futuro cobra a conta
O Código Florestal não existe para impedir o crescimento do país. Ele existe justamente para estabelecer limites e garantir que a exploração dos recursos naturais não comprometa as próximas gerações
Uma sociedade responsável precisa entender que floresta, campo nativo e áreas de preservação não são espaços vazios à espera de ocupação, mas partes de um sistema que sustenta a vida. Marcelo Noronha*
A discussão sobre as mudanças no Código Florestal brasileiro revela uma disputa que vai muito além de uma alteração de texto legal. O que está em jogo é a forma como o país enxerga seu patrimônio natural e qual preço estamos dispostos a pagar pelo modelo de desenvolvimento que escolhemos.
O ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, afirmou que o governo pretende utilizar todos os instrumentos legais para impedir a entrada em vigor das alterações aprovadas pela Câmara dos Deputados. O projeto ainda depende da análise do Senado e de eventual sanção presidencial.
A proposta questionada abre caminho para que determinadas áreas rurais tenham corte de vegetação sem a autorização prévia do órgão ambiental e sem medidas compensatórias, segundo seus críticos. A preocupação é que a flexibilização reduza a capacidade de fiscalização e permita a perda de áreas importantes para a biodiversidade, nascentes e equilíbrio ambiental.
Eu vejo com preocupação quando a preservação ambiental é apresentada como inimiga da produção. Essa falsa escolha entre economia e meio ambiente tem causado enormes prejuízos históricos. A agricultura, a pecuária e o desenvolvimento dependem de água, solo saudável e estabilidade climática. Enfraquecer a proteção ambiental pode significar criar problemas que voltarão em forma de secas, enchentes, perda de produtividade e conflitos pelo uso dos recursos naturais.
O Código Florestal não existe para impedir o crescimento do país. Ele existe justamente para estabelecer limites e garantir que a exploração dos recursos naturais não comprometa as próximas gerações. Uma sociedade responsável precisa entender que floresta, campo nativo e áreas de preservação não são espaços vazios à espera de ocupação, mas partes de um sistema que sustenta a vida.
O debate também coloca em evidência o papel do Estado. Fiscalizar, regular e proteger bens que pertencem a todos não é excesso de burocracia. É uma das funções essenciais de uma estrutura pública que pensa além do interesse imediato de qualquer setor.
O Brasil tem uma das maiores responsabilidades ambientais do planeta. Nossos biomas não são apenas paisagens bonitas em fotografias: são reservas de biodiversidade, fontes de água e parte da nossa segurança econômica e social.
A pergunta que fica é simples: quando se flexibiliza a proteção hoje, quem assumirá os custos amanhã? A natureza sempre apresenta sua conta. A diferença é que, quando ela chega, normalmente quem paga é toda a sociedade.

(*) Marcelo Noronha, jornalista





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