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São Jerônimo, RS,25/05/2026

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Apesar do aumento de cirurgias, controle do glaucoma ainda é desafiador

Procedimentos cirúrgicos e exames cresceram no SUS, mas diagnóstico tardio e desigualdade no acesso ao cuidado mantêm a doença como ameaça à visão

Agência Einstein / Reprodução
Apesar do aumento de cirurgias, controle do glaucoma ainda é desafiador Procedimentos cirúrgicos e exames cresceram no SUS, mas diagnóstico tardio e desigualdade no acesso ao cuidado mantêm a doença como ameaça à visão
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Bruno Bucis
Agência Einstein

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O glaucoma ainda é a principal causa de cegueira irreversível no Brasil. Aproximadamente 350 mil brasileiros tratam a doença anualmente com colírios distribuídos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), segundo o Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO). Aliado a procedimentos cirúrgicos, o tratamento tem avançado, mas os desafios persistem e mantêm a condição como uma ameaça  à saúde ocular. 

Trata-se de uma doença progressiva, causada na maioria dos casos pelo aumento da pressão intraocular quando há alterações na circulação ou entupimentos dos canais de drenagem do fluido ocular. Ao longo do tempo, esses processos danificam o nervo óptico e comprometem a visão. Embora não tenha cura, o glaucoma é controlável se o diagnóstico e o acompanhamento médico forem feitos corretamente. 

Mas a realidade mostra que o controle é complexo. Um estudo conduzido por pesquisadores do Einstein Hospital Israelita e publicado em abril na revista científica Clinical Epidemiology and Global Health analisou dados de realização da cirurgia de glaucoma no SUS. A investigação identificou que o número de procedimentos saltou de 18,5 mil em 2009 para 45,2 mil em 2024, um aumento de 144%. 

Esse crescimento, porém, é desigual. “A cobertura da demanda nacional ainda apresenta desafios significativos”, afirma a oftalmologista Carolina Engelbrecht, uma das autoras do artigo e pesquisadora do Centro de Estudo e Promoção de Políticas de Saúde (CEPPS), do Einstein. “Nosso estudo mostra que a distribuição regional dos procedimentos é desigual, com o Sudeste e o Norte apresentando os maiores volumes proporcionais de atendimento que outras regiões.” 

Além disso, há déficits do ponto de vista tecnológico. “Vemos a persistência de um número considerável de trabeculectomias, a cirurgia convencional, que aumentou de 10,6 mil em 2009 para 18,6 mil em 2024”, observa Engelbrecht. Hoje, porém, já há métodos que permitem procedimentos minimamente invasivos. “Em países desenvolvidos, o que temos visto é uma redução do volume de trabeculectomias e um aumento dos procedimentos minimamente invasivos, os quais apresentam menos risco de complicações”, relata a oftalmologista.

Para além da cirurgia, os avanços recentes mudaram o perfil do tratamento. Há colírios, por exemplo, desenvolvidos para causar menos irritação ocular e combinar mais de um  componente de tratamento em uma mesma solução. 

Métodos a laser também alteraram a dinâmica de combate à doença por permitiremum tratamento com procedimentos menos  invasivos, que podem ser realizados em consultório. "Em comparação a 20 anos atrás, as técnicas e os tratamentos atuais são mais eficazes e seguros. A adesão ao tratamento, porém, permanece um desafio central para os profissionais de saúde”, afirma a médica e pesquisadora do CEPPS.

Aos poucos, contudo, o Brasil avança. Segundo o CBO, o número total de exames de glaucoma realizados no país saltou de 1,37 milhão, em 2019, para 2,26 milhões em 2025, um crescimento de 65%. Contudo, a evolução não foi homogênea: o Sudeste liderou com um aumento de 115%, enquanto o Nordeste registrou o menor crescimento dos últimos cinco anos, 36%. As disparidades são tantas que Pernambuco registra 7 mil exames para cada 100 mil habitantes, enquanto no Distrito Federal são apenas 265 testes.

“A forma mais comum de glaucoma ocorre de maneira lenta e gradual. Nesses casos, o paciente normalmente não tem sintomas e isso não o faz procurar atendimento oftalmológico”, pontua o oftalmologista Diego Monteiro Verginassi, também do Einstein. “Em um país com desigualdades no acesso aos serviços médicos e especialistas, muitas vezes o diagnóstico vem tardiamente.

Para a presidente do CBO, a oftalmologista Maria Auxiliadora Frazão, a mudança desse panorama deveria envolver autoridades, gestores, médicos e formadores de opinião. “Não basta conscientizar sobre o risco, é preciso dar acesso aos exames. E não só acesso, é preciso, após o diagnóstico, formar uma rede que ofereça o tratamento no momento certo e com o acompanhamento correto", frisa. 

Fatores de risco e prevenção

O ideal é, após os 40 anos, incluir nos exames de rotina a investigação para glaucoma. O risco é aumentado para pessoas que tenham histórico da doença na família, idade avançada, pressão ocular alta, miopia alta ou que tenham feito uso prolongado de corticoides.

Um dos fatores de risco menos conhecidos é a ascendência africana. "Na população negra, o glaucoma primário de ângulo aberto é mais prevalente, seu início é mais precoce, além de a progressão da doença ser mais rápida e mais resistente a tratamentos", indica Verginassi. Nesses casos, é ainda mais importante manter uma agenda periódica de check-ups. 

Quanto antes for feito o diagnóstico, maior a chance de preservação total da visão. “Avaliar a pressão ocular e o fundo de olho são exames que nos fornecem informações importantes. O fundamental é fazer seus testes”, orienta o médico.


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