MARCELO NORONHA | Azarão
Talvez o mais interessante seja observar como parte do público que costuma demonizar leis de incentivo, artistas e produções culturais subitamente descobre o valor do cinema nacional quando o protagonista lhe convém.
No fim, o roteiro parece menos sobre um azarão e mais sobre o velho poder de sempre, apenas com fotografia melhor, trilha dramática e campanha de divulgação. Marcelo Noronha*
Dizem que todo “azarão” carrega consigo uma história improvável. Aquele sujeito desacreditado, perseguido pelas circunstâncias, que luta contra o sistema e vence pela força do povo. No cinema, costuma render roteiro emocionante, trilha sonora épica e bilheteria generosa.
Mas há um detalhe curioso quando o “azarão” já ocupou o cargo mais poderoso do país, mobilizou empresários milionários ao redor de si e agora ganha um filme com orçamento digno de superprodução. Mais curioso ainda quando entre os envolvidos no financiamento aparece gente do alto escalão do mercado financeiro, daqueles que vivem repetindo discursos sobre meritocracia, austeridade e responsabilidade fiscal — desde que a conta cultural não saia do próprio bolso.
A ironia está pronta antes mesmo da estreia. O homem vendido como outsider agora circula entre cifras milionárias, investidores e estratégias de marketing cinematográfico. O “contra tudo e contra todos” virou produto premium. Não falta quase nada: narrativa de perseguição, herói incompreendido e até investidores dispostos a transformar polarização política em entretenimento lucrativo.
Talvez o mais interessante seja observar como parte do público que costuma demonizar leis de incentivo, artistas e produções culturais subitamente descobre o valor do cinema nacional quando o protagonista lhe convém. Afinal, quando a câmera aponta para o lado certo, cultura deixa de ser “mamata” e passa a ser “legado histórico”.
No fim, o roteiro parece menos sobre um azarão e mais sobre o velho poder de sempre, apenas com fotografia melhor, trilha dramática e campanha de divulgação.
Mas claro… Não é sobre azarão.

(*) Marcelo Noronha, jornalista






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