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São Jerônimo, RS,23/04/2026

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MARCELO NORONHA | Entre a liberdade e a dependência: o Brasil que ainda precisa resistir

Talvez a maior provocação que a figura de Tiradentes nos faça hoje não seja sobre heroísmo, mas sobre consciência. Quantas vezes aceitamos como naturais decisões que nos colocam em posição de dependência?

Reprodução / IA
MARCELO NORONHA | Entre a liberdade e a dependência: o Brasil que ainda precisa resistir Entre a liberdade e a dependência: o Brasil que ainda precisa resistir
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Marcelo Noronha*

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Há figuras históricas que não pertencem apenas ao passado — elas funcionam como espelhos incômodos do presente. Tiradentes é uma delas. Mais do que um mártir de um movimento frustrado, ele representa uma ideia que atravessa séculos: a recusa em aceitar passivamente estruturas que limitam a autonomia de um povo.

A Inconfidência Mineira nasceu de um contexto muito específico — a exploração econômica e o controle político de uma colônia por uma metrópole distante. Mas, se trocarmos os nomes e os séculos, a lógica não soa tão estranha assim. Hoje, já não vivemos sob domínio colonial formal, mas isso não significa que estejamos imunes a formas mais sutis de dependência.

A contemporaneidade impõe outros tipos de “derrama”, que era um tributo de caráter extraordinário e compulsório instituído no Brasil Colônia pela Coroa Portuguesa. Elas não chegam em forma de soldados ou decretos da Coroa, mas através de pressões econômicas, acordos desiguais, dependência tecnológica e decisões tomadas fora das nossas fronteiras que impactam diretamente o nosso cotidiano. É um jogo mais sofisticado — e, por isso mesmo, mais difícil de perceber.

Nesse cenário, a resiliência deixa de ser apenas uma virtude individual e passa a ser uma necessidade coletiva. Um país resiliente é aquele que não se curva automaticamente às forças externas, que questiona, negocia e, sobretudo, constrói alternativas. Não se trata de isolamento ou de rejeição ao mundo, mas de evitar a submissão disfarçada de inevitabilidade.

Talvez a maior provocação que a figura de Tiradentes nos faça hoje não seja sobre heroísmo, mas sobre consciência. Quantas vezes aceitamos como naturais decisões que nos colocam em posição de dependência? Quantas vezes confundimos pragmatismo com conformismo?

A história mostra que a submissão raramente se impõe apenas pela força — muitas vezes, ela se instala pela acomodação. E é justamente aí que a resiliência se torna um ato político. Não a resistência barulhenta de um momento específico, mas a capacidade constante de preservar autonomia, identidade e dignidade diante de pressões externas.

Se Tiradentes, em seu tempo, ousou imaginar um país livre, talvez o nosso desafio hoje seja mais complexo: garantir que essa liberdade não seja apenas simbólica, mas real — inclusive nas engrenagens invisíveis que movem o mundo atual.


(*) Marcelo Noronha, jornalista


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