MARCELO NORONHA | Estratégia para quem?
A pergunta que deveria ecoar em cada eleição, em cada mandato, em cada decisão é simples — e poderosa: qual é a estratégia, e para quem ela serve?
Estratégia legítima não é aquela que surpreende o eleitor — é aquela que o inclui. Marcelo Noronha*
Existe uma palavra que virou escudo confortável no vocabulário político: “Estratégia”. Ela aparece quando alianças improváveis surgem, quando discursos mudam de tom ou quando promessas desaparecem no caminho. “É estratégia”,
dizem. E a frase vem quase sempre acompanhada de um pedido implícito de compreensão — ou, pior, de silêncio.
Mas estratégia para quem?
No campo democrático, estratégia deveria ser sinônimo de planejamento transparente para alcançar objetivos coletivos claros: reduzir desigualdades, melhorar a qualidade de vida, ampliar oportunidades, elevar indicadores como o IDH. Estratégia, nesse sentido, é meio — não fim. É ferramenta — não justificativa.
O problema começa quando a estratégia vira uma espécie de caixa-preta. O eleitor vota acreditando em um projeto e, no meio do caminho, descobre que o projeto era outro — ou que havia um “plano B”, “plano C”, talvez até um plano que nunca foi apresentado. A política deixa de ser um pacto de confiança e passa a ser um jogo de bastidores, onde o cidadão assiste, mas não participa.
E então surge a frase que mais incomoda: “a política é assim”.
Não, não deveria ser.
Naturalizar a falta de clareza é rebaixar o próprio sentido da democracia. Se tudo pode ser explicado como estratégia, então nada precisa ser explicado de verdade. E quando não há explicação, não há responsabilidade. Sem responsabilidade, não há confiança. E sem confiança, o voto vira um ato vazio, quase automático.
Estratégia legítima não é aquela que surpreende o eleitor — é aquela que o inclui. Que é apresentada antes, debatida durante e avaliada depois. Que assume riscos, mas também assume compromissos. Que não trata o cidadão como espectador, mas como parte interessada no resultado.
A pergunta que deveria ecoar em cada eleição, em cada mandato, em cada decisão é simples — e poderosa: qual é a estratégia, e para quem ela serve?
Porque, no fim das contas, quando a resposta não aparece, a sensação que fica não é de inteligência política. É de distância. E distância demais entre representantes e representados nunca foi uma boa estratégia para ninguém.

Marcelo Noronha, jornalista






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