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São Jerônimo, RS,23/04/2026

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MARCELO NORONHA | Descanso remunerado (para alguns)

Curioso como certas transformações sempre encontram terreno fértil nos corredores acarpetados de Brasília. Lá, onde o tempo parece correr em outro fuso — talvez mais lento, talvez mais confortável — a rotina também segue um ritmo peculiar.

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MARCELO NORONHA | Descanso remunerado (para alguns) A vida, ao contrário das agendas oficiais, não respeita feriados prolongados
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Marcelo Noronha*

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Dizem que o país está prestes a viver uma revolução silenciosa. Uma mudança histórica, daquelas que cabem em manchetes otimistas e discursos bem ensaiados. O fim da escala 6x1 — ou, ao menos, a promessa de que ela se tornará peça de museu, ao lado de outras relíquias de um tempo em que trabalhar quase todos os dias era considerado… normal.

Curioso como certas transformações sempre encontram terreno fértil nos corredores acarpetados de Brasília. Lá, onde o tempo parece correr em outro fuso — talvez mais lento, talvez mais confortável — a rotina também segue um ritmo peculiar. Sessões que começam tarde, pausas estratégicas, recesso aqui, licença ali. Um calendário que, visto de longe, lembra mais um convite ao descanso do que um chamado ao trabalho.

Enquanto isso, do lado de cá do país real, existe uma mulher. Ela acorda antes do sol, prepara o café, organiza a casa, acorda os filhos, resolve o uniforme, a mochila, a pressa. Sai para o trabalho. Seis dias por semana. Às vezes mais. Porque a vida, ao contrário das agendas oficiais, não respeita feriados prolongados.

Ela volta cansada — mas não o suficiente para parar. Ainda há roupa para lavar, comida para fazer, tarefa escolar para acompanhar. Não há “recesso parlamentar” na pia cheia de louça, nem “votação adiada” no choro de uma criança com febre. O expediente dela não termina com o bater do ponto. Ele só muda de endereço.

Talvez seja por isso que a ideia de acabar com a escala 6x1 soe tão revolucionária. Não pela complexidade da proposta, mas pela distância entre quem pensa e quem vive o problema. É como se, de repente, alguém descobrisse que o tempo também pode ser dividido de forma mais justa — desde que essa descoberta não atrapalhe o cronograma de quem nunca precisou contar dias para descansar.

Nos gabinetes, fala-se em qualidade de vida, produtividade, equilíbrio. Palavras bonitas, bem colocadas em notas oficiais. No cotidiano dessa mulher, essas mesmas palavras parecem conceitos abstratos, quase decorativos. Porque, para ela, equilíbrio é conseguir fechar o mês sem faltar comida. Qualidade de vida é ter uma noite inteira de sono — quando dá. E produtividade… bem, essa ninguém nunca questionou.

No fim das contas, talvez a maior ironia não esteja na proposta em si, mas na constatação silenciosa que ela provoca: existem dois países convivendo no mesmo território. Um que debate o direito ao descanso. Outro que ainda tenta entender quando ele começa.

E, se tudo correr bem, quem sabe um dia esses dois calendários finalmente se encontrem — nem que seja num raro domingo de folga.


(*) Marcelo Noronha - jornalista


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