Aquecimento global intensifica eventos extremos no RS, aponta pesquisador da Ufrgs
Estado se tornou rota preferencial de ciclones e alerta para a recorrência de desastres climáticos
Nas últimas décadas, houve aumento significativo na quantidade de ciclones extratropicais que atuam sobre a região O aumento da temperatura média do planeta já reorganiza a dinâmica da atmosfera e redefine o padrão dos desastres climáticos no Sul do Brasil. No Rio Grande do Sul, esse novo cenário se traduz em eventos extremos mais frequentes e intensos, como ciclones extratropicais, tempestades severas, enxurradas rápidas e inundações de grande impacto. A avaliação é do professor Francisco Aquino, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), em entrevista concedida ao Jornal do Comércio.
Pesquisador do Centro Polar e Climático da Ufrgs, Aquino afirma que, nas últimas décadas, houve aumento significativo na quantidade de ciclones extratropicais que atuam sobre a região.
— Nos últimos 30, 40 anos, vimos que a quantidade de ciclones extratropicais na nossa região aumentou bastante. Isso significa que o número de ressacas e desastres associados também aumentaram — explicou ao Jornal do Comércio.
Segundo o climatologista, o aquecimento global intensifica o contraste entre massas de ar quente e úmido vindas da Amazônia e o ar frio proveniente da Antártica, criando as condições ideais para tempestades severas.
— A melhor forma que a natureza tem para alimentar nuvens de tempestade é ter calor e umidade. A Amazônia manda umidade e as frentes frias vêm da Antártica. Esse choque dispara os piores eventos — afirmou.
Aquino destaca que o Rio Grande do Sul, junto com o Uruguai e parte da Argentina, sempre foi uma rota natural dos ciclones extratropicais, mas que a mudança climática tornou essa rota ainda mais ativa.
— É claro, para a ciência, que o número de desastres e eventos extremos no Sul do Brasil aumentou com o aquecimento global — disse.
Ao comparar episódios históricos, o pesquisador ressalta que não é mais adequado usar a enchente de 1941 como parâmetro.
— Em 1941, o rio foi subindo aos poucos. Agora, em horas, as cidades são destruídas. As inundações recentes são enxurradas rápidas, com volumes de chuva excepcionalmente concentrados — explicou, citando os eventos de setembro e novembro de 2023, maio de 2024 e junho de 2025.
De acordo com Aquino, os últimos cinco anos concentram os impactos mais severos das mudanças climáticas das últimas décadas.
— Tivemos, nos últimos cinco anos, os piores efeitos da mudança do clima dos últimos 50 anos, tanto em estiagens quanto em inundações — afirmou ao Jornal do Comércio.
O pesquisador também alerta que esse padrão tende a se repetir, especialmente com a ocorrência de novos episódios de El Niño.
— O ambiente atmosférico atual tem total condição de repetir eventos extremos como os que vivemos recentemente. Isso é o nosso presente — concluiu.
Francisco Aquino é professor associado do Departamento de Geografia da UFRGS e climatologista com ênfase em meteorologia polar e subtropical, eventos extremos e emergência climática. Ele já participou de 18 expedições científicas à Antártica e coordena pesquisas que conectam a dinâmica atmosférica do continente antártico com os impactos climáticos no Sul do Brasil.






COMENTÁRIOS