MARCELO NORONHA | Zumbi dos Palmares: a insurgência necessária que moldou o Brasil
Palmares, muito mais do que um refúgio, foi um projeto político. Ali, homens, mulheres e crianças africanas e afrodescendentes reinventaram a vida em território inimigo
Zumbi dos Palmares Marcelo Noronha *
Falar de Zumbi dos Palmares é revisitar uma das páginas mais profundas e incômodas da nossa história – e, ao mesmo tempo, uma das mais luminosas. Zumbi não foi apenas um líder quilombola; foi a materialização da recusa. A recusa em ser objeto. A recusa em aceitar lógica brutal da escravidão. A recusa em acreditar que a liberdade pudesse ser privilégio de poucos. Sua vida foi uma metáfora de resistência, mas também um anúncio poderoso de que dignidade humana não se negocia.
Palmares, muito mais do que um refúgio, foi um projeto político. Ali, homens, mulheres e crianças africanas e afrodescendentes reinventaram a vida em território inimigo. Organizaram economia, defesa, cultura, espiritualidade, agricultura, comércio e justiça- tudo sob ameaça permanente do cerco colonial. Quando pensamos em Palmares, pensamos em uma comunidade que ousou existir à margem de um sistema que lucrava com a desumanização. E quando pensamos em Zumbi, pensamos no guardião dessa ousadia.
Sua recusa em aceitar acordos com os portugueses, especialmente aqueles que prometiam paz em troca de entrega de fugitivos, é frequentemente interpretada como intransigência. Eu prefiro chamar de coerência histórica. Zumbi sabia que aceitar tais pactos significava legitimar a escravidão. Sabia que a liberdade de alguns não compensava a escravização de muitos. Em um momento em que a sobrevivência poderia parecer mais urgente que o princípio como forma de sobrevivência coletiva.
Hoje, Zumbi é símbolo. Símbolo não porque foi transformado em mito, mas porque seu gesto político permanece atual. Em um país que ainda carrega marcas profundas de desigualdade racial, seu legado é chamamento. Quando reconhecemos o 20 de novembro como Dia da Consciência Negra, não estamos apenas lembrando o passado; estamos responsabilizando o presente. Estamos olhando para as estruturas que ainda mantêm corpos negros à margem e afirmando que a luta não terminou.
Zumbi dos Palmares continua vivo em cada movimento que reivindica igualdade, em cada quilombo urbano que se organiza, em cada estudante negro que rompe cercas históricas, em cada artista que reconta narrativas apagadas, em cada ativista que se recusa a tolerar a naturalização do racismo. Sua história nos obriga a uma pergunta desconfortável: como um país pode celebrar a liberdade sem encarar seus próprios mecanismos de opressão?
A escritora Conceição Evaristo nos lembra: “Eles combinaram de nos matar. A gente combinamos de não morrer”. Essa frase, que ecoa tantas formas de resistência, poderia ser o lema de Zumbi. Porque Zumbi não morreu no sentido simbólico – ele permanece como farol, advertência e inspiração.
Relembrar zumbi dos Palmares é relembrar que liberdade não é concessão: é conquista. E conquista não se alcança sem coragem. Que o Brasil esteja à altura desse legado é, talvez, o verdadeiro desafio do nosso tempo.

(*) Marcelo Noronha
Jornalista






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