João Adolfo Guerreiro
JOÃO GUERREIRO | 130 anos da Guerra de Canudos: a madeira
Nos sertões, a guerra do fim do mundo
João Adolfo Guerreiro
Este mês de outubro marca a gênese do episódio da história brasileira conhecido como Guerra de Canudos, ocorrida nos primórdios do Brasil República no sertão baiano. E tudo começou com o calote na entrega de uma madeira comprada e paga.
O Arraial de Belo Monte, Canudos, reunia aproximadamente 30 mil pessoas em 1896, acomodadas em casebres ao redor de uma igreja, liderada pelo beato e líder messiânico Antônio Conselheiro, que por trinta anos peregrinara pelo sertão. Era um aglomerado urbano considerável, maior que as cidades da época. Para fins da reforma e ampliação da igreja, Conselheiro encomendou e pagou um lote de madeira na cidade de Juazeiro. Por pressão de fazendeiros e autoridades locais, descontentes com o crescimento do arraial e a consequente falta de mão de obra para as lavouras, a entrega do produto foi cancelada. Logo após, surgiu o boato de que os sertanejos viriam até a cidade buscar na marra a madeira, o que levou a uma solicitação para que o governador do Estado mandasse uma força policial a fim de garantir a segurança da cidade. Uma tropa de cerca de 150 homens foi deslocada para Juazeiro, mas os sertanejos nunca apareceram. Eis o incidente da madeira.
Entretanto, a tropa recebeu ordens de marchar até Canudos, naquela que ficaria conhecida como a primeira expedição contra o Arraial de Belo Monte, combatendo em 21 de novembro daquele ano. Ao todo, foram quatro expedições, realizadas entre novembro de 1896 e outubro de 1897. Apenas a última derrotou - e massacrou - Canudos, as demais fracassaram, a terceira de forma acachapante. Não escreverei hoje sobre elas, pretendo apenas destacar brevemente a gênese da Guerra de Canudos para registrar os seus 130 anos. O episódio rendeu dois livros marcantes: um, da literatura brasileira, Os sertões (1902), de Euclides da Cunha; outro, da latinoamericana, A guerra do fim do mundo (1981), do escritor peruano Vargas Lhosa. Há também um ótimo filme sobre, a superprodução nacional intitulada Guerra de Canudos (1996), dirigida por Sérgio Rezende e com o ator José Wilker no papel de Antônio Conselheiro - está disponível gratuitamente no YouTube (imagem que ilustra este texto).
Em novembro escreverei sobre a primeira expedição, e durante o ano que vem, principalmente em janeiro, fevereiro e outubro, sobre as demais. Exemplo de fato onde poder, fé, pobreza, preconceito, intolerância e desinformação confluem para a tragédia, Canudos foi massacrada e depois alagada, mas ainda ressurgem suas ruínas a cada seca, lembrando, como escreveu Cunha, que o sertanejo é um forte - e resiste. E Canudos resistiu até o último homem, como veremos na continuidade. Até lá.




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